4. AUTOBIOGRAFIA DO POETA: NASCIMENTO, PREDESTINAÇÃO E APOGEU
4.3 Entrecruzamentos: folhetos e Autobiografia
São diversos os momentos em que o cruzamento da bio/grafia atesta a sua importância e ajuda a compor o diálogo e delinear as estratégias de Camilo para ser aceito no campo da literatura culta. O folheto A candidatura do Deputado Severino Cabral poderia ser analisado apenas como uma expressão poética popular servindo a um fim específico, a promoção de um candidato a um cargo político, o que não conferiria uma novidade, visto que diversos poetas como Rodolfo Coelho Cavalcante, por exemplo,eram também propagandistas eleitorais.
Apesar de não apresentar uma data de publicação, quando comparamos as informações presentes no poema, podemos inferir que foi produzido no ano 1959. Essa periodização revela-se pela menção a Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961, e ao futuro prefeito Severino Cabral, que quando tem sua carreira política investigada, verifica-se que a sua eleição deu-se no ano de 1959, atestando, assim, a possível datação do folheto:
Viva Deus Pai Criador Com todos seus grandes feitos Viva o paiz brasileiro
Com ordens, leis e direitos Viva os nobres candidatos Homens decentes e pacatos Que breve serão eleitos. Viva o Dr. Juscelino Presidente da nação E o Senador Rui Carneiro Homens de bom coração E o nosso grande prefeito Cabral, que será eleito
Nessa próxima eleição. (SANTOS, s.d, p.1)
Os versos iniciais que exaltam a figura divina, o país e os candidatos às eleições, saúdam ainda o “presidente da nação”, Dr. Juscelino; entretanto, o destaque é concedido a Cabral. Este é definido como um “homem decente”, um futuro “grande prefeito”, porém o que prepondera é a origem do candidato, que parece fugir do estereótipo dos descendentes de oligarcas. Para firmar essa condição social, Camilo reforça que Cabral “é o candidato Bizarro/ da panelinha de barro”, que reformará a cidade e dará auxílio ao abrigo de menores e à parcela humilde da população. A expressão “panelinha de barro” ou os objetos de barro, nos folhetos de Camilo, parecem atestar a procedência humilde. No folheto intitulado Rico sem ter
dinheiro (1959), a voz narrativa aponta que a única posse do personagem título, um rapaz
pobre, resume-se a um prato de barro, reforçando que o utensílio é algo deveras modesto. Entretanto, no folheto em análise, a simplicidade do objeto, numa relação metonímica, estende-se ao caráter do sujeito que o manuseia:
Todo mundo já conhece Seu Cabral é gente fina E como pai da pobreza Já o povo o denomina É o candidato Bizarro
Da panelinha de barro
Quem vai melhorar Campina. (SANTOS, 19--, p. 4).
No uso realizado por Camilo, recordamos as considerações de Peter Burke (2010, p. 109) que, mesmo radicadas no contexto da Europa moderna, enfatizam que o estudioso dos folhetos deve estar ciente de que a questão da propaganda está sempre presente nos versos. Por constituírem um meio de comunicação dentro das sociedades rurais e pouco alfabetizadas, a utilização que os líderes políticos e religiosos deram aos folhetos desenvolveu-se como um meio de influenciar o maior número possível de pessoas. Em conformidade com o ponto destacado por Burke, a brasilianista Candace Slater (1984, p. 184-185), situada no contexto nordestino, corrobora a função propagandística dos folhetos e ressalta o baixo nível de engajamento do poeta ao compor versos com o teor mencionado: “o escritor de cordel lembra um cesteiro que deseja produzir o mais belo cesto possível de acordo com uma série de medidas fixadas. Talvez trance a palha com um desenho ligeiramente diferente ou torça o cabo caprichosamente”. Embora o sujeito produtor nutra o desejo pela obra bem feita, o que lhe importa não é o material e sim o resultado e a apreciação do comprador em potencial.
Independente do candidato, ocorre uma espécie de desligamento que permite ao poeta produzir folhetos para concorrentes de diferentes partidos num mesmo pleito, opositores um do outro, sem que isso cause qualquer constrangimento, posto que apesar de a propaganda versada constituir uma prática corrente, não exige vínculos. De modo análogo à metáfora da confecção do cesto, nos versos propagandísticos, o importante é a exaltação do candidato, independente de partido, proposta eleitoral, procedência, etc. Entretanto, nos versos de Manoel Camilo, detectamos matizes a partir dos quais inferimos que, ademais da propaganda encomendada, há um partidarismo disfarçado no elogio ofuscado pela exaltação do candidato e dos membros de seu partido. Manoel Camilo, mesmo adepto dessa prática, incorre na estratégia de autopromover-se. O poeta mostra-se como um perseguidor de apoio futuro, portanto, a falsa ingenuidade (ou falsa imparcialidade) revela-se quando vemos tal sujeito movendo-se pelo interesse particular que ultrapassa a venda de folhetos.
Não fosse uma análise que contrasta a produção de folhetos aos episódios narrados na sua Autobiografia, a composição de teor político não despertaria tanto interesse. São os eventos relatados nos versos, aliados à contracapa do folheto que possibilitam uma leitura mais coesa acerca da postura de Manoel Camilo como autor e como agente de um sistema mais complexo: os subcampos que compõem a literatura e a cultura popular. Retratando essa
condição, Camilo mostra-se como o proprietário de um estabelecimento comercial e o sujeito que persegue uma posição social de prestígio, mesmo que veladamente:
Fig. 2 Folheto A candidatura de Severino Cabral (s.d )
Examinando os versos do poema, vemos o delineamento do caráter aliado a informações concernentes ao lugar político que os candidatos que compõem o “bloco cabralista” ocupam: “Edson Maia preside/ O partido trabalhista/ Com seus vinte candidatos/ Tudo homem progressista” (SANTOS, 19--, p. 6). Assim, realizada a propaganda na contracapa de A candidatura de Severino Cabral, o leitor tem acesso a uma informação relacionada ao conteúdo desenvolvido nos versos do folheto: “O Partido Trabalhista que citei, é o P.R.T. que quer dizer: Partido Republicano Trabalhista, é o partido dos que trabalham, dos pobres, dos humildes e não potentados que não sabem o que é pobreza” (SANTOS, 19--). Tal “aviso necessário” chama-nos a atenção sob dois aspectos: o primeiro deles reside na linguagem empregada, uma retórica utilizada para enfatizar a índole dos homens filiados ao partido e para criticar os “potentados”, os poderosos que possivelmente derivavam de clãs que comandavam os processos eleitorais e garantiam a vitória; o segundo aspecto leva-nos a recorrer a outros escritos do poeta e prosador:
- No ano de 1962, firmado na insistência da classe poética, estribado na confiança dos amigos e munido dos apoios do Presidente da República (Dr. Jânio Quadros) e do Governador do Estado (Dr. Pedro Gondim) candidatei-me a deputado Estadual pelo Partido Republicano, sobre o número 1516.
Fui muito bem votado mas meus votos não apareceram, foram camuflados, subornados (levaram sumiço).
Apenas me apareceram (nas apurações) a quantia de 1111 votos.
Centenas de eleitores ao saberem do fatídico e mesquinho resultado eleitoral, referente a minha eleição, de olhos esbugalhados me perguntavam: - Camilo quede os nossos votos?... Camilo o que foi que houve?
Eu os respondia como ainda hoje respondo: - Isto foi a fraude, o suborno, a roubalheira dos oligarcas mandões que queriam continuar sendo os caudilhos intactos, inconstitucionalisando assim as eleições populares que é a via respiratória da vida nacional, por onde se espande a consciência nacional, por onde a vontade nacional se declara e executa.
E se ao povo era negado o direito que lhe preceitua a lei, o direito de escolher e eleger os seus representantes não era de se admirar se esse mesmo povo vinhece a desobedecer aqueles prepotentes demagôgos que lhe esbugalhavam esse direito, direito que é a suberania e a arma do próprio povo. (SANTOS, 1979, p. 41).
Nesse sentido, destacamos a produção de Camilo como uma expressão mais complexa, quando comparada às manifestações poéticas de colegas de cantoria. Quem sabe uma figura que se complexifique devido à diversidade dos materiais produzidos, que rejeita o aspecto plasmado, mas, em vez disso, quando tem sua retórica observada com rigor, revela uma série de matizes, elementos absorvidos das mais variadas fontes.
Em conformidade com o que apontamos, as informações da contracapa permitem que delineemos o diálogo sutil entre duas obras do poeta: o folheto mencionado e a sua narrativa autobiográfica que conjuntamente oferecem uma chave de leitura acerca das investidas de Manoel Camilo na poesia bem como na vida política. Apesar de a utilização de versos em campanhas eleitorais constituir uma prática na literatura popular, Manoel Camilo parece valer-se do talento para angariar apoio em uma nova empreitada, a carreira política que, segundo o próprio Camilo, mais por fraude do que por desventura, não chegou a concretizar- se. Com isso, notamos uma “engrenagem” extraliterária a movimentar não apenas a arte poética, mas a “arte política”: o poeta popular fez uso de seu dom de exaltação para, por meio da cantoria, prestigiar os candidatos e, numa espécie de clientelismo, obter apoio ou mesmo a aceitação futura no Partido Republicano. A cantoria, assim, converte-se em uma moeda de troca e, nas palavras de Bourdieu (1996, p. 204), representa o cabedal de Camilo transformando-se em capital, evidenciando uma “linha de força” a dirigir e tensionar o campo literário.
Examinar a produção poética (ou poético-biográfica) de Camilo é ver esse sujeito colocando-se voluntariamente dentro de um campo de forças, entre o polo do poder político,
capaz de legitimá-lo enquanto artista e cidadão, proporcionando uma ascensão social que permitirá ser “avaliado” pelo polo do prestígio intelectual ou artístico. Na tentativa de ter uma arte validada pelos seus modelos, Camilo parece situar-se em “uma zona de não-gravitação social em que se compensam e se equilibram provisoriamente as forças que o levarão para uma ou outra direção” (BOURDIEU, 1996, p. 27). O poeta usufrui o seu prestigio dentro do próprio grupo, mas se vale de estratégias, na sua visão, passíveis de incluí-lo no campo de prestígio da literatura culta. Por isso, na trajetória do poeta, inferimos que a noção de campo firma-se como um conceito que permite entender e “superar a oposição entre leitura interna e análise externa sem perder nada das aquisições e das exigências dessas duas abordagens, tradicionalmente percebidas como inconciliáveis” (BOURDIEU, 1996, p. 234). Na verdade, essa parece ser uma das chaves para compreender as razões que levam um sujeito já consagrado dentro do seu campo a lançar-se a novas avaliações - ou possíveis rechaços - de membros de um campo rival e fechado. Ao mesmo tempo, o exame da obra de Camilo revela- nos os ardis literários (próprios de uma sociedade cordial), assim como as escolhas que o sujeito faz, escolhas que podem ser motivadas por razões “a um só tempo estéticas e políticas, internas e externas” (BOURDIEU, 1996, p. 234).
Se os versos populares são “o espelho da mentalidade do sertão”, assim como afirmou Cascudo em Vaqueiros e Cantadores (s.d., p. 15), hoje, percebemos no percurso dessa poética uma transformação brutal que esvazia a noção de estaticidade e de reacionarismo com que já foi vista. Das trovas populares com um “grau zero” de subjetividade - portanto, uma reprodução do cotidiano e, à sua maneira, inocente – deriva a poesia de meados do século XX, na qual, além de marcas subjetivas, há desejos ocultos de ascensão literária, cultural e social que necessitam de um exame atento.