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Fonte: http://www.guiafloripa.com.br/ricardinhomachado/colunas/2007/0206.php3. Acessado em 23/01/09

A realização da entrega do troféu Manezinho da Ilha seria ininterrupta, sendo que 415 personalidades seriam agraciadas com o mesmo até o ano de 2008296. A articulação em prol do evento garantiu uma longevidade que superaria inclusive o falecimento de seu idealizador, o jornalista Aldirio Simões, ocorrido no início do ano de 2004.

Figura 3 - Convite para a edição 2007 do troféu Manezinho da Ilha.

Fonte: http://www.guiasaojose.com.br/novo/coluna/index_novo.asp?id=977. Acessado em 24/01/09

O processo de resignificação positiva da figura do manezinho tomaria vulto a partir de então, sendo o papel assumido inclusive por personalidades que se destacariam internacionalmente.297 Esse processo também teve a busca de uma

popularização do uso da identidade açoriana, contando inclusive com um aspecto de adesão, em que a ascendência biológica não seria determinante e sim a incorporação de determinadas práticas culturais.

A busca de associação da figura do manezinho à cidade de Florianópolis também teria seus desdobramento na administração pública municipal. Embora ele seja referenciado pelos integrantes da máquina pública do executivo, as iniciativas mais contundentes relacionadas ao personagem, que buscam cristalizá-lo como símbolo de Florianópolis/Desterro, estão ligadas ao legislativo municipal.

A primeira iniciativa que se materializou é o projeto de lei nº 10.988 apresentado pelo vereador Juarez Silveira298 em maio de 2004. O projeto propõe

297 O caso do tenista Gustavo Kuerten, que conquistou o título do torneio de Roland Garros em 1997, foi significativo pela forma como foi reforçada e difundida pela imprensa a sua vinculação ao jeito de “manezinho da ilha”, apesar de sua ascendência alemã (FANTIN, 2000).

instituir o dia municipal do Manezinho, que seria comemorado no primeiro sábado do mês de junho. A comemoração se daria por meio de uma sessão especial que seria realizada pela Câmara Municipal na semana anterior ao dia.

Apesar de certeira no personagem alvo da comemoração, a justificativa apresentada no projeto acaba sendo fluida na sua busca em caracterizá-lo. Inicialmente o vereador observou em sua argumentação 299

O que me motivou a oferecer o presente projeto de lei prende-se ao fato de, basicamente, prestar uma homenagem aos Manezinhos da nossa querida Florianópolis.

Ser manezinho é, ter orgulho de ter nascido neste pedacinho maravilhoso de terra tão bem esculpido pelo Criador; é ter nascido e viver nesta nossa bela Floripa.

A continuação da justificativa também se preocupa com aspectos da contemporaneidade

É alguém [o manezinho],[...], com uma personalidade, uma individualidade, com destaque profissional e/ou cultural, oriundo de escritórios equipados com unidades computadorizadas, ou dos ranchos de rede e canoas.

Apesar de parecer inicialmente vincular o manezinho ao fato de nascer e viver em Florianópolis, a justificativa acaba abrindo espaço para adoções

[...] manezinho pode ser um figurão ou uma pessoa humilde que ame a sua terra natal ou que a adotou como seu berço [grifo nosso]. Que aplaude e defende sua gente, seus costumes, suas tradições, nas mais variadas manifestações de sua cultura. Que se destaca na sua comunidade por suas manifestações, ou trabalha na área cultural e artística, ou esportiva, ou ainda em outra modalidade profissional. O manezinho, portanto, pode ser uma pessoa de classe social destacada, um figurão na linguagem popular, mas que se identifique com a população, como pode ser uma figura humilde, que ame sua terra e sua gente, merecendo o respeito e a aprovação da comunidade.

Contemplando um espectro tão amplo de possibilidades, o manezinho acabaria sendo algo além de uma personalidade física

299 Processo do Projeto de Lei nº 10.988/04, fls.10 e 11 (Arquivo da Câmara Municipal de Florianópolis).

É esta figura maravilhosa que bem representa nossa cidade e nossa gente e que mantém íntegro este verdadeiro estado de espírito, pois isto é ser

manezinho [grifo nosso] que, aliás, deixou de ser uma figura pejorativa para

transformar-se em um símbolo de tradição cultural.

Apesar de caracterizar “manezinho” também como um “estado de espírito”, agora benéfico, no texto do projeto transparece o fato de esse personagem estar sendo resignificado. Para os elaboradores da lei, o manezinho é agora claramente o símbolo de uma tradição cultural, que precisa ser cultivada pois

Então, nada mais justo instituirmos um dia, a ser incluso em nosso calendário cultural, para homenagear estes dignos integrantes de nossa cidade, e que vêm, ao longo do tempo, com o seu peculiar, próprio jeito de ser, emprestando suas ações, sua postura, à mantença das tradições e cultura de sua comunidade.

Manter as tradições e cultura da comunidade florianopolitana requer manter o seu personagem. O processo de ressignificação desse personagem, desse rosto humano que simbolizasse Florianópolis ainda teria novos investimentos. Haver um dia unicamente para lembrá-lo ainda não era o suficiente, foi preciso transformar essa lembrança em mérito e agregar-lhe uma honraria.

O projeto de Lei nº 11.561, apresentado pelo vereador João Aurélio Valente Júnior300 em julho de 2005, institui a Medalha Manezinho da Ilha. Essa medalha teria

dois personagens homenageados, pois agregaria o nome de Aldírio Simões, o idealizador do troféu Manezinho da Ilha, que falecera no ano anterior.

Os proponentes da lei tinham bem clara qual seria a base cultural dos manezinhos301

A Homenagem em Instituir Medalha [sic] “Manezinho da Ilha Aldírio Simões “é poder contemplar as pessoas que nasceram ou que se criaram em Florianópolis, e que manifestam culturas populares da nossa cidade, ou seja, ser um legítimo representante e defensor da cultura açoriana [grifo nosso].

A ligação com a cultura açoriana era um claro componente do personagem que motivava a homenagem, mas a ligação com o jornalista Aldírio Simões demonstra que havia uma nuance bem mais recente no processo. A inserção do

300 Mandato de 2005 a 2008, eleito pelo PP.

nome do jornalista demonstra que há uma correlação com a forma como o manezinho é significado na contemporaneidade, mas uma forma que não deixa de lançar mão de um processo de construção que já vem ocorrendo desde o longínquo ano de 1948.