5 ANÁLISE E DICUSSÃO
5.3 Transição da amamentação para alimentação complementar
5.3.5 Entrelaçamento paterno no cotidiano do filho
O termo prematuridade é carregado de dúvidas, tanto dos profissionais como dos pais dessas crianças, os quais necessitam de toda informação possível sobre os cuidados aos seus filhos (BONFIM; NASCIMENTO, 2007). O desenho da atenção considera que a evolução de crianças prematuras requer acompanhamento que assegure aos seus pais e familiares prestarem cuidados que favoreçam adequados crescimento e desenvolvimento (DEL CIAMPO et al., 2006).
Os pais vivenciam restrições com relação a executar tarefas do cuidado diário aos seus filhos:
E também eu nunca troquei uma fralda dela, só tentei algumas vezinha. Mas banho eu já tenho dado. Às vezes ela (esposa) pede pra eu distrair ela, fazer alguma coisinha pra ela poder aceitar a comida. (PAI 02).
O plano de cuidados de um RN PMT deve incluir a capacitação dos pais para o cuidado, de forma que sua ida para casa esteja associada à capacidade dos pais para prover os cuidados que lhe assegurem viver com qualidade e o máximo de saúde possível. Tavares e Rego (2010) preconizam que na estada hospitalar da mãe e do RN os problemas neonatais devem ser identificados, de forma que os pais sejam orientados e treinados para prover os cuidados ao filho.
Frota et al. (2013) argumentam em favor de que, na promoção da saúde, sejam envolvidos no plano de cuidados da equipe de Enfermagem, no plano terciário, os pais na responsabilidade do cuidado, considerando que os riscos e agravos no período pós-
neonatal não se dissipem, à medida que o neonato seja assistido com segurança pela família. Para os autores, as informações não podem ser apenas assimiladas pelos pais, mas, sobretudo, compreendidas e incorporadas no cuidado domiciliar do RN após alta.
O ato de banhar aparece com recorrência nos discursos com uma intensa limitação, associada a despreparo e temor no manuseio pelo tamanho da criança demonstrando insegurança:
Comecei a banhar ele desde que ele tava mais durinho, seis meses. Quando ele era pequenininho eu tinha medo... Mas não troco bem não essas fralda aqui... Ah eu me sinto um cara bom, me sinto, ah eu fico pensando, ser pai é tão bom, uma coisa maravilhosa... Eu acho que é responsabilidade de quem é pai. (PAI 03).
Este discurso traz o reconhecimento da prestação de cuidados como inerente à responsabilidade paterna e a satisfação em participar ativamente na função de pai. Para Waldow e Borges (2011), o cuidado ocorre por uma força que move a capacidade humana de cuidar, evocando esta habilidade em si e nos outros, ao se satisfazer uma resposta a algo ou alguém que importa, atualizando o potencial de cada um para cuidar.
Freitas et al. (2009) discorrem sobre o papel exercido pelo pai com a inserção da mulher no mercado de trabalho, fazendo com que homens e mulheres dividissem as atividades domésticas e o cuidado com os filhos em que a paternidade não tem por marca o patriarcado, mas um pai que se envolve nas relações parentais.
A competência de realizar o banho, para alguns pais, se efetivou desde o crescimento do filho. O maior tamanho foi proporcional ao menor medo de manusear a criança pequena:
Eu dou um banho nela, eu banho ela já, ela já grandinha mesmo já. Ela pequena não, nunca. Só a minha esposa, porque eu tinha o maior medo de pegar nela. Assim de derrubar ela. (PAI 07).
Foi evidenciado no estudo de Freitas et al. (2009), com suporte na abordagem qualitativa de dez pais, que alguns homens começam a se preocupar em paternar/cuidar o filho, acompanhando seu crescimento e desenvolvimento de modo mais próximo, realizando cuidados socialmente considerados femininos, de modo que o provedor afetivo emergir no provedor material.
Estudo realizado com oito pais vivenciando a primeira experiência da paternidade assinalou a autopercepção deles como presentes no cotidiano de seus filhos,
por participarem ativamente da sua educação e dividirem as tarefas de cuidados com a mãe da criança. Os pais se descreveram como carinhosos, atenciosos, atentos e preocupados com o filho. Alegaram que ser um pai presente também implica dividir com a mãe os cuidados básicos do filho. Para estes pais, atividades tipicamente exercidas pela mãe em algumas famílias são igualmente compartilhadas entres ambos os pais, fazendo com que homem e mulher dispensem na assistência do filho a mesma quantidade de tempo (GABRIEL; DIAS, 2011).
Além do sentimento de não estar habilitado para banhar, há associação de uma questão de gênero de ser pai-homem e banhar uma filha:
Ela (esposa) manda até eu banhar ela, e eu não me sinto assim adaptado pra banhar uma filha minha mulher. Dou amor, dou carinho, dou tudo, mas eu banho, eu já evito de banhar ela. Por duas coisas, por ela ser mulher e eu não sei banhar. Eu tenho medo de colocar água até no ouvidozinho dela. (PAI 06).
Esta situação que delineia o pai no cuidado da filha surgiu no estudo de Bustamante e Trad (2005), em que os informantes consideraram que o gênero da criança envolve diferenças importantes nos modos de cuidar. Homens e mulheres consideram que a menina precisa de mais cuidados corporais do que o menino, na higiene e na arrumação. Os cuidados que envolvem manipulação do corpo são considerados “negócio de mulher”, algo que a mulher faz melhor, como parte de seus instintos e porque desde cedo, se preparou para isso.
Um conjunto de crenças e valores sobre o masculino e o feminino, estabelecidos social e culturalmente, com suporte nas diferenças entre os sexos, determina a formação de um sistema simbólico que norteia e sustenta a vida dos homens e a das mulheres (FREITAS et al., 2009).
Há um senso de que a criança nascida prematura necessita de mais cuidados. Observou-se preocupação exacerbada em preservar a saúde do corpo do filho. O cuidado é expresso como medo que inspira a prevenção de acidentes domésticos a controle de fatores ambientais que podem desencadear alterações fisiológicas:
Até porque a nenê é uma nenê que precisa de muita atenção, que todas crianças precisa, mas ela é uma criança que precisa de mais cuidado. Em termos do, vamos supor, eu tenho medo dela porque ela é uma criança muito ativa, apesar de ser nova, uma criança muito espertinha. Numa rede eu tenho medo dela cair. Se ela tiver dormindo e eu tiver em casa com ela eu sempre digo, tem que tá
todo tempo olhando. E em termos de poeira, dessas coisas, porque nós temos um cachorro em casa. É um cachorro manso, mas a gente tem medo. E essas coisas que eu me refiro, até uma sobrinhazinha (guarda-chuva) dela, que tá diretamente aqui... Ela é muito danadinha também, e eu tenho medo dela acertar alguma coisa nela ou derrubar, ou puxar, alguma. Aí em termos dessa preocupação é mais é essa coisa. Às vezes ela fica no andajazinho e eu tenho medo dela puxar alguma coisa, um fio... (PAI 09).
A afirmação da necessidade de “mais cuidado”, quando se fala de um filho nascido prematuro, revelou-se no estudo de Waldow (2007), entre 12 dos 20 participantes, quando questionados sobre a possibilidade de mudanças em decorrência da prematuridade revelaram terem se tornado mais cuidadosos, tencionando proteger o bebê, mais inseguros e preocupados, ou com maior carinho e mais amor.
Percebe-se a amplitude da perspectiva deste pai para as habilidades da filha e os fatores que podem desencadear um acidente em domicílio, podendo produzir desde lesões leves, quando menciona a possibilidade de ela se machucar com algum objeto, a lesão grave, se houver contato com um fio elétrico. Há uma prestação de cuidados orientada para manter a integridade física da filha.
Acker e Cartana (2009), em um estudo que envolveu sete mães e cinco pais, estabeleceram em consenso a ideia de que a realidade domiciliar pode ser transformada, se os pais ou cuidadores entenderem que a casa pode não ser um local seguro, tornando- se necessário adotar medidas de segurança domiciliar, evitando descuidos e negligências no cuidado à criança, que se torna mais vulnerável ao acidente doméstico, quando não recebe atenção necessária ou na oportunidade em que os familiares desconhecem ou negligenciam a segurança no domicílio, de acordo com as características de cada fase de crescimento e desenvolvimento.