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Parte III A Auto-Regulamentação Publicitária

2 As Regras para a Publicidade Infantil face a Mudanças no Contexto Nacional e

2.3 Entrelaçamentos e Conflitos

2.3.1 Entrelaçamentos

Naquilo que foi descrito sobre os processos de proteção à criança, nota-se a existência de dois grandes focos de preocupação: a saúde e a ética. Estes processos e preocupações acabam se cruzando no que diz respeito à defesa do consumidor infantil, à proteção da criança tratada como consumidor.

Quando à OMS, que, preocupada com a saúde, incluiu na agenda internacional uma estratégia sobre alimentação, atividade física e saúde, buscando estancar o aumento de problemas associados à obesidade e nutrição especialmente das crianças, de certa forma ela despertou governos e países para um problema de saúde pública. Concentrando-se na obesidade, porém não esquecendo outros transtornos alimentares cuja incidência vem aumentando - como bulimia e anorexia – seus dados mostram que o problema estaria diretamente relacionado à alimentação inadequada e que, muito provavelmente, já começa na infância, nos fast foods da vida.

A partir das recomendações da estratégia proposta pela OMS, houve uma ação do Ministério da Saúde Brasileiro, através da ANVISA, sua agência reguladora, especificamente sobre a publicidade de alimentos que, consumidos em excesso, podem contribuir para a obesidade. Assim, vemos a OMS, que é uma organização intergovernamental, internacional, alterando a atuação do Estado brasileiro (assim como de todos seus países membros).

Por outro lado, existe a preocupação com a ética. A preocupação com a criança que é um dos elementos mais hipossuficientes que existe - “O que estão fazendo com a criança, aproveitando-se de sua condição de ser em formação? Ninguém se mexe?” - e com os efeitos que a exposição à sedução da mídia em prol da indução ao consumo podem gerar à formação de sua personalidade e valores.

Existe a concordância desses agentes sobre o papel exercido pela publicidade como influenciador e, muitas vezes, indutor das escolhas (ou apenas desejos, considerando- se que a publicidade atinge indiscriminadamente todas as faixas de renda) da criança.

A estratégia proposta pela OMS, em seu item de número 60, endereça às ONGs e à sociedade civil a tarefa de exercer pressão para que as questões tratadas (alimentação saudável e atividade física) sejam incluídas na agenda pública. Solicita também sua ação na organização de eventos e campanhas que estimulem as ações requeridas; destacar (e cobrar) o papel do governo na proteção à saúde, alimentação saudável e atividades físicas; além da monitoração e participação no trabalho de todos os demais

envolvidos (por exemplo, governo e setor privado). Sobre essa participação, um exemplo é o envio pelo Instituto Alana, projeto Criança e Consumo de sugestão à consulta pública da ANVISA sobre o tema (ver www.criancaeconsumo.org.br).

As entidades que trabalham pela proteção, formação e evolução da criança, no geral entendem e advogam que o ordenamento jurídico Brasileiro já proíbe toda e qualquer publicidade dirigida ao público infantil, porém concordam e trabalham em prol de uma legislação mais específica. Exemplo é o esforço pela aprovação do projeto de lei 5.921/01; esse esforço evidencia-se na participação nas audiências públicas realizadas, na luta pela ampliação do debate através dos canais de mídia possíveis (normalmente os alternativos), o desenvolvimento de pesquisas capazes de suportar a argumentação da proposição. E neste caso especifico, o próprio esforço pela movimentação do projeto que encontrava-se praticamente parado.

Taschner (1995) ressalta que por mais que uma ONG atue, ela só ganha força quando sua causa entra na agenda do Estado, na agenda dos governos; porque é o governo que faz a lei. O debate no Congresso sobre projetos de lei que visam regulamentar a publicidade infantil e sua repercussão dá visibilidade para o tema na sociedade, fortalecendo as entidades que advogam pela proteção da criança, ao fortalecer sua causa. E mesmo que tais leis não sejam aprovadas de imediato, o debate é instaurado, não se tratando, pois, de uma guerra perdida.

Apesar do ainda pouco interesse de boa parte das instâncias do Estado, pode-se perceber uma atuação mais próxima à sociedade cívil em dois de seus órgãos: o Ministério da Justiça e o Ministério Público. A sinergia entre a sociedade civil e o Ministério da Justiça concentra-se em seu departamento de classificação indicativa que, considerando pesquisas e sugestões de ONGs e entidades da sociedade, tem-se mostrado favorável a uma classificação da publicidade dirigida à criança por faixa etária, assim como acontece com a programação.

No que se refere ao Ministério Público Federal, vê-se que, seguindo aquilo que lhe foi atribuído na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, tem

trabalhado pela proteção da criança também com relação à publicidade e à qualidade da programação televisiva, promovendo ações civis públicas, acatando pareceres gerados, por exemplo, por membros da Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidania e pelo projeto Criança e Consumo do instituto ALANA. Através desta sinergia é possível ao Ministério Público usar as evidências, as pesquisas e os pareceres gerados pelas ONGs para fundamentar as ações públicas que venha a fazer.

Além desses entrelaçamentos e atores há, certamente, outros também muito importantes, mas que, dadas as limitações de tempo e escopo, não puderam ser tratados ou o foram apenas superficialmente, como o caso da parceria da Escola Paulista de Medicina com o projeto Criança e Consumo ou das ONGs americanas CCFC e TV Turnoff Network com o mesmo projeto.

Vê-se que muitas ações estão sendo tomadas e vários eventos vêm ocorrendo sobre o tema da publicidade infantil a partir de diferentes pontos de preocupação e de partida: forças que têm matrizes aqui ou no exterior, na sociedade ou no estado. E, muito importante, tem havido algumas convergências que se espera leve a uma legislação adequada e à elaboração de uma política pública do Estado em relação à proteção do consumidor infantil, não só no que se refere a alimentos, mas principalmente à proteção integral da criança e ao respeito à sua condição de pessoa em desenvolvimento.