Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las
Capítulo 3 – O entrelugar: a ação do desenhado
3.2 Entrelugar grafite: do encontro com o educador à brincadeira de menino
Figura 40 - Foto de Alexandre Orion40 1.
Esta imagem do grafista Alexandre Órion me remete ao trabalho do educador social na rua. O grafite de Órion retrata um “pixador” – ator social polêmico nas grandes cidades – sendo “apagado” por um trabalhador pintor, com baixa qualificação profissional, porém remunerado, e pobre. Enquanto o educador, um trabalhador artista e talvez diplomado, também remunerado, e talvez pobre, “pintava” com o menino de rua, a cidade buscava “limpar” sua aparição em poucos dias.
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As escolhas entre ser pixador, pintor ou educador social se parecem no quesito formação. Ambos se formam na prática, na destreza das mãos, no suor de seus corpos, no papel de limpar ou dar cor aos cenários urbanos.
Acredito que nas grandes cidades a quantidade de pintores deve ser maior que no interior, visto o número de muros pixados, isto é, de pixadores agindo. A quantidade de educadores sociais segue a mesma lógica. Nas grandes cidades há mais pobreza, mais meninos de rua e mais poderes públicos desesperados para conte-los e dar-lhes rumos talvez de pintores de muros. Em Campinas a escolha da contenção desses meninos, por alguns anos, foi por contratação de educadores que brincavam com arte.
Os educadores em geral deixavam atividades de intervenção urbana estampadas em troncos de árvore, ou painéis pendurados em muros da cidade, ou ainda origamis sobrevoando uma placa de trânsito, como mostrado na Figura 42.
Figura 41 – Convite dos educadores deixado para o menino IEL na rua.
Casa Guadalupana, 2008.
Figura 42 – Atividade de rua realizada com bexigas pela pesquisadora junto de educadores. Campinas / SP,
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Estas intervenções eram instrumento de comunicação com os meninos, eram expressão de trabalho realizado, sendo aquilo que Arendt (2000) chamou de o trabalho de suas mãos. Era o trabalho das mãos dos educadores. Intervinham no espaço, per-duraram no tempo. Duravam pouco!
É uma arte que per-dura nos corações dos meninos e dos educadores, uma arte que transgride a lógica dos banners comerciais. Não possui valor de troca nem indica nenhuma inovação.
A Figura 43 mostra uma atividade de rua, uma intervenção na rua que desenvolvi com meninos e meninas depois de minha saída da Casa Guadalupana. Eu e um grupo de educadores marcamos um encontro com os meninos, pois além de nossos contratos de trabalho, havia o vínculo. Nesta figura pode-se visualizar um pouco que a arte do educador e do menino de rua dá cor à paisagem. Bexigas vermelhas, camiseta vermelha, bochecha cheia de ar. Montamos um cordão de bexigas e penduramos de uma árvore à outra no meio de uma praça de Campinas, o que fizemos com isso: brincamos! Decoramos o cordão com fitas coloridas, daquelas de pacote de presente, o fio da tesoura penteou o colorido das fitas, que ficaram todas enroladinhas, igual a um legítimo embrulho.
O que aconteceu aí? Um encontro. Um entrelugar. Um momento de brincadeira, de arte, de vínculo. Um encontro suficientemente bom.
A arte da rua, do educador e do menino funcionava como um laço, um encontro que ligava os mundos de meninos de rua com meninos da escola, do condomínio e da prisão. A arte seria então expressão dos mundos dentro de cada um. O menino de rua tem todos os mundos dentro de si – do burguês ao miserável – eu também, os educadores também, os professores, prefeitos e empresários. O homem pode ser muitos em um só, indivisíveis/indivíduos.
A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências
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e idéias. Essa definição de arte como o meio de tornar-se um41 com o todo da
realidade, como o caminho do indivíduo para a plenitude, para o mundo em geral, como a expressão do desejo do indivíduo no sentido de se identificar com aquilo que ele não é. (FISCHER, 1966, p. 13)
Fischer (1966) colocou uma definição de arte como a expressão/expansão de nosso ser atravessando as fronteiras da superficialidade.
Os pobres da cidade – principalmente a população de rua – são considerados atores principais da violência urbana e social. Os pobres da cidade atuam nesses papéis pela perspectiva dos espectadores em geral e do poder público em particular.
A arte presente na cidade também é a arte de educador com menino, que pode se tornar medíocre ao grande público, mas tem muita sensibilidade de alguns para reparar a beleza estampada nas calçadas.
Permito-me entrar em minha imaginação e analisar os educadores como mediadores do asfalto, como plantonistas da catarse agressiva entre meninos de rua e os não- moradores de rua. Seus instrumentos eram pincéis que lançavam tinta sobre papéis, suas dobraduras eram pássaros de papel que cruzavam o ar flutuando sobre abismos de classes sociais, suas bolas eram obstáculos a muitos transeuntes/trabalhadores que andavam apressados. O educador armava um cenário teatral com a colcha, contra a hipocrisia e a invisibilidade da segregação e do abandono social.
O educador gritava ao menino e à sociedade.
41 Grifo do original.
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Lembro-me da passagem de uma entrevista com Astor Piazzolla que li num momento de escrita desta trabalho. Piazzolla diz:
Éramos ocho guerrilleros subidos a un escenario! Yo rompía el bandoneón todas las noches y el Gordo (Leopoldo) Federico también. Cada uno, en lugar de un instrumento, parecía que tenía una bazuka. Habíamos convertido el escenario en un ring de boxeo. (Tango de Colección: Astor Piazzolla, 2005, p. 64)
A arte aproxima o indivíduo de si mesmo, do labor de nosso corpo, de nosso suor. E o menino de rua, no uso de seu corpo para a busca do dinheiro, para o uso da droga, para a atividade do educador, está próximo dessa condição humana do labor, da subsistência precária, do uso do metabolismo do corpo para sobreviver, deste mergulho na necessidade. E é essa força precária que estava presente no encontro com o educador. O menino de rua no momento de construir um origami ou pintar um rosto pequeno possuía uma mão, por vezes, pesada para os pequenos detalhes. Os gestos grosseiros, cavados por uma crueldade da rua e da aspereza do asfalto quente, afinavam- se na ampliação das atividades artísticas. O menino de rua era um artífice.
Como mostrei no Capítulo 1, Sennett (2009) afirma que a mão envia informações mais confiáveis ao cérebro do que o olho, e a partir dessa perspectiva, que sinais recebem o cérebro de um menino de rua? Sinais de como riscar um isqueiro, como enrolar um baseado, como ser rápido ao bater uma carteira, como comer rápido com uma colher, e como estender a mão para pedir. Mas essa mão também era incentivada a colar o papel de seda na vareta de pipa, também essa mão viajava em textura de massinha e provava de batucar pandeiro com estímulo de educador. Essas impressões desenvolvidas pela mão, em meio ao farol da avenida Anchieta42, marcaram a memória de menino e de
educador para sempre.
42 Avenida Anchieta se localiza na região central da cidade de Campinas / SP. - Foto de Alexandre Orion. 2.
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Figura 44 – Pesquisadora fazendo origami com jovem. Campinas / SP, 11/07/2010.
Esta foto mostra um momento mágico. Primeiro eu fiz um origami de borboleta, junto deste jovem. Ele me acompanhou. Depois, ele foi me ensinar outro pássaro de papel que eu não sabia fazer. Eu o acompanhei. Mostro aqui que além da mão acurada do educador, havia a mão acurada do menino, que guardava em sua memória corporal o dobrar de um quadradinho de papel que era narrativa de sua história, de sua trajetória, de seu repertório. Em geral os meninos estabeleciam um compromisso com a atividade desenvolvida, fazendo-a com atenção e dedicação.
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Um episódio nós fizemos a construção e a soltação de pipas, nós fomos num parque da cidade, no parque ecológico, e todo o processo da confecção até o momento de soltar foi muito edificante, eu percebi, pela preocupação, do cuidado, o compromisso com aquele objeto que eles criaram e a expectativa com soltá-la, eu achei muito, foi uma atividade lúdica, mas eu achei muito estruturante, né, pelo comprometimento que eles tiveram com a causa ali.
(Entrevista com educador Lilás, 09/09/2009).
As imagens abaixo são do movimento das mãos dos meninos no toque dos instrumentos de maracatu. As fotos são da apresentação do Bloco de Maracatu Nação na Rua, em conjunto com o CEDAP43
, no dia 18 de Maio de 2010 na Praça Bento Quirino – Campinas/SP. Ao revelarem a relação das mãos dos educadores com as mãos dos meninos, percebo que uma sustentava a outra, uma ensinava a outra, elas estavam juntas na apresentação, no ensaio, no aprendizado. Estas mãos faziam arte.
43 O CEDAP (Centro de Educação e Assessoria Popular) é uma instituição que atua na rede de atendimento a adolescentes em Casa Guadalupana. Figura 45 – 5 fotos do
18 de Maio. Acervo Casa Guadalupana,
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Mostro um relato desse encontro nas ruas, desse fazer junto:
Eu tive uma experiência com o [educador Coral], acho que foi a última mais legal de todas, que foi na avenida Inácio Bonifácio, a gente foi até uma padaria que tem ali conversar com o pessoal da padaria pra saber como é que estava a presença dos meninos ali, e a gente encontrou com um dos meninos, e ele olhou pra gente assim disseram, “nem adianta vir, eu não quero nada, nem vem que não tem” e não sei o que. “tá bom, a gente não veio nem falar com você”. Aí a gente entrou na padaria e conversou com o pessoal da padaria e tal, e na saída nós encontramos com outro menino que eu acho que é Lúcio, e entregamos um zine pra ele, conversamos assim, muito brevemente, que com esse a gente não tem muito vínculo, entregamos um zine pra ele, e quando a gente tava indo embora, assim, descendo pra continuar dando um rolê, a gente viu que o JC tava seguindo a gente, aí o [educador Coral] tirou banca assim, “é não adianta ficar andando assim com esse ar de malandrão que a gente sabe que você não é”, aí ele: “ah, dá um zine, ai, também quero um zine”, aí a gente falou assim: “ah é, agora você quer, agora a gente não vai dar” e aí acho que nesse momento a gente conquistou ele porque aí a gente sentou numa esquina pra ele ver o zine, aí ele quis pintar o zine, aí a gente ficou conversando, brincando de telefone sem fio, fizemos tatuagem, e aí foi uma troca bem legal, por que aí ele marcou com a gente na semana seguinte, pediu que a gente fosse, levasse os copinhos pra fazer um telefone sem fio pra ficar pra ele.
[Nós] fomos, mas ele não, tava em outro momento. Ele tava, mas ele tava sob efeito de drogas, aí então passou reto de novo e aí não deu muito certo, mas foi bem louco.
Mas eu acho que mesmo ele passando reto, o trabalho dá resultados, não os resultados que eu acho que a prefeitura espera, ou mesmo que a gente espera, mas são resultados pequenos, assim, só do menino reconhecer a gente já é um grande avanço, eu acho, que quer dizer que a gente marcou algum pontinho já, só dele reconhecer a gente quer dizer que a gente já teve algum trabalho.
Eu acho que os materiais lúdicos ajudam por que eu acho que a arte sensibiliza, a gente tem um menino duro, que ele é obrigado a ser duro na rua, então ele tem uma armadura ali, e que se a gente chega pra conversar, até consegue abrir, mas com a arte ela abre e deixa o menino ser criança de novo. Esse dia com JC dava pra ver na cara dele assim que ele voltou a ter 12 anos, mas ele tem 15.
(Entrevista com educador Índigo, 09/09/2009)
Do toque refinado e inovador do acordeom de Piazzolla ao filme produzido por um menino de rua no Sarau Municipal, ambos têm em si uma propriedade germinal da humanidade, a refinação do toque, a consciência racional do trabalho artístico, da mão ao cérebro apurando nossas sensações.
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Ao produzir um desenho, uma poesia, uma palestra, uma declaração de amor, uma pirueta a partir de um gesto espontâneo (WINNICOTT, 2005a) brinca-se com o mundo e assim a pessoa se torna integrada consigo mesma. O trabalho educativo e artístico do educador era um trabalho de resgate da alma e da mão destes meninos, e deles próprios. E encontro inspiração em Benjamin (1992) para corroborar minha afirmação:
Alma, olhos e mãos são inseridos, com estas palavras, num mesmo campo. Interagindo, eles definem uma práxis, uma práxis que já não é corrente. O papel das mãos tornou-se mais modesto, e o lugar que elas ocupavam no narrar ficou deserto (a narração não é, de facto, do ponto de vista físico, só obra da voz. Pelo contrário, na verdadeira narração, as mãos actuam com gestos aprendidos com a experiência do trabalho, os quais apóiam, de múltiplas maneiras, o que vai sendo dito.) Aquela antiga coordenação da alma, olhos e mãos, /.../ é artesanal, e encontramo-la onde quer que esteja a arte de narrar. Sim, podemos mesmo ir mais longe e perguntar se a ligação que o narrador tem com a sua matéria – a vida humana – não é, ela própria uma relação artesanal. (BENJAMIN, 1992, p. 56)
Evidencio essa coordenação dos olhos, das mãos e da alma a que se refere Benjamin (1992) ‘ouvindo’ a narrativa feita por um educador44 sobre um projeto que
tiveram:
Projeto do Zine Pensamento45: os zines ficaram um tempo sem serem editados e
eu fiquei com a incumbência, que dividi depois com [Violeta], e por fim coletivamos com a equipe, como havia de ser. Então, já com o zine anterior, Zine Ponte, eu já tinha me inquietado com a literalidade da palavra, no melhor estilo psicótico. Lacan diz que o psicótico não sabe usar metáforas, entende tudo no sentido literal. Ouvir “vai chover canivete”, por exemplo, pode ser fatal para um psicótico. No entanto, como educador pude usar a literalidade das palavras de modo proveitoso. Zine Pensamento é um zine com crônicas de L.A., um jovem que já morou na rua e que escreve bem pra cacete! No rosto silencioso dele, olhão e corpo longilíneo, e liso, muito liso no passo, L.A. é uma grande cabeça pensante. Então havia umas crônicas dele, algumas pude vê-lo escrevendo do nada. Por exemplo, uma sobre o tempo: L. olhou pro relógio e escreveu um texto
44 Num fim de tarde de outubro de 2010 fui à “Praça do Coco” em Barão Geraldo – Campinas/SP tomar um suco para espairecer das escritas desse trabalho, na ocasião eu estava transcrevendo uma linda entrevista. No local encontrei um dos ex-educadores da Casa Guadalupana, era coincidentemente o aniversário dele. Ao voltar para minha casa pensei que gostaria que ele escrevesse alguma coisa sobre o projeto do zine pensamento, algo literário, para eu inserir na dissertação. Então escrevi um e-mail a ele, fazendo o pedido, e ele carinhosamente escreveu a narrativa que se segue. O agradeço muitíssimo.
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viajante sobre o tempo, com idéias extremamente concatenadas. Outro texto que tinha no Zine Pensamento era de R., um funk de própria autoria, quer dizer, uma adaptação muito legal de um funk carioca já existente, e que transcrevi em visita que fiz ao Nadeq. R. curte muito fazer letras para base de funk. Voltando ao dia em que L. olhou para o relógio e escreveu sobre o tempo, na oficina de artes, a idéia de engarrafar o zine brotou e teve sua contribuição coletiva, como não poderia deixar de ser. Eu pensei na garrafa e [Terracota] pensou num mar de celofane azul para marejar as garrafas com os textos dentro, nas ruas. A montagem do zine fiz com [Violeta]. Ela bolou a idéia de colocar um selo e achou na net um selo de Benin, país africano que eu, vergonhosamente, não conhecia. O zine, por fim, consistia nos textos de L.A. e de R. enrolados estilo pergaminho, envoltos em barbante. O pergaminho era colocado dentro de uma garrafa pequena descartável e pronto, tínhamos a garrafa. A Guadalupana tinha uma boa cota de fotocópia para os zines, e conseguimos muitas cópias. Mas não fazíamos uma boa distribuição. Era complicado: muita demanda de trabalho, e muita discussão política, e muita política que por fim acabou por acabar com o nosso trabalho de educação social, tão bonito e que dava resultados... por sinal, conseguimos colocar garrafinhas em atividade de rua apenas uma vez, e num contexto em que nós educadores, corretíssimos, tensionávamos com a operação “Tolerância Zero”46, da prefeitura de Campinas. Eu, [Vermelho] e [Sépia] percorremos uma grande distância a pé à procura de nossos meninos nas imediações da Carlos Grimaldi e da Rua Mogi Guaçu esquinando com Av. Norte Sul. Fomos colocando zines pensamentos pregados às árvores e fizemos também alguns varais de zines. Era dia da operação “Bom dia Morador de Rua”47 e vimos um carro da polícia com meninos dentro. Logo depois, ligamos para a Guadalupana para saber se algum dos meninos e meninas havia sido pego para cadastro e encaminhamento compulsório para serviços de atendimento. Uma das meninas havia sido pega na operação, mas nenhum dos meninos que rodeavam a região onde estávamos fazendo atividade de rua foi pego. Mas também não os encontramos. Encontramos uma série de vestígios e deixamos uma série de recados. Conheci um bosque obscuro, desabitado mas habitado... vestígios. Muitas garrafas. Pinga, creio. Tinha uma configuração engraçada, uma cena: uma poltrona velha e uma carcaça de controle remoto na terra. Camisinhas, muitas. Que bom! Estão se cuidando. Muita gente deve passar por esse local que vasculhamos. Bem, como disse, não tivemos oportunidade de distribuir os zines pensamentos pela cidade. No desenrolar dos dias, a politicagem e o assédio moral ficaram mais constantes, colegas foram demitidos e eu me vi diminuído em força, mas não menos resistente. Tínhamos quórum o bastante para não deixar morrer o trabalho, fazer bons trabalhos de atividades de rua, encaminhar os meninos prum futuro bom que eles mesmos quisessem. Houve um trabalho em particular, com um menino que ficava na região do Ventura Mall, e que foi iniciado antes da demissão de quatro colegas extremamente competentes. Demos continuidade aos encontros na rua, com ele, e conseguimos, num bom trabalho executado com a psicóloga [Marfim], colocá-
lo em contato com a família, depois de meses, e construir um trabalho em rede para que ele fizesse tratamento para a dependência do crack, ao invés de ir preso para a Fundação Casa, que era a medida protetiva proposta ao garoto, mas que era de longe a pior alternativa, por circunstâncias pertinentes mas detalhadas demais para contar aqui. O trabalho que fizemos com esse menino,
46 Esse assunto é tratado no Prosfácio dessa dissertação. 47 Também será tratado na Parte III.1.
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além do grau próprio de ser educador e estar delicadamente com o menino na situação toda dele, de estarmos implicados até a raiz do fiofó, confiantes e confiáveis, dispostos a brigarmos para dar certo o trabalho, era nossa militância e resistência. Contudo, eram muitas as burocracias para internação em clínica para tratamento, muita espera para um dependente da pedra, e o trabalho gorou: o menino voltou para as ruas. Tenho que ressaltar que, antes do menino voltar para a rua, a psicóloga que muito colaborou para o sucesso, até então, se demitiu por ter recebido outra proposta de trabalho e que prometia um melhor ambiente de trabalho para ela. O clima na Guadalupana estava pesado com as novas chefias, picuinhas de duplas psicossociais48 e ar podre, prenúncio de necrotério da Guadalupana que estaria por vir. Deu no que deu, agora estou fora também. Creio que tenhamos sido pegos por algo maior que nós, uma elite que está melhor organizada, afinal, Região Metropolitana de Campinas, e que influi nas políticas de governo. Nossos coordenadores, jovens, devem também ter sido pegos de surpresa em suas experiências de vida, pois não perceberam, talvez, que a luta pela continuidade do serviço seria mais forte se feita conosco, educadores, ou pelo menos para fazermos o enfrentamento juntos, nos espaços de debate e tal. Enfim, jovens, mas muitos, e competentes, estávamos