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BACKGROUND EXCLUSIVELY

X. ENTREVISTA COM LEO XAVIER – OBSERVADOR

1. Nome, idade, cargo e breve descrição da carreira até chegar ao jornalismo de dados.

Léo Xavier, 34 anos eu sou designer e programador, a minha formação de facto é em belas- artes, em design. Eu sou dois em um. Eu estou no jornal desde o lançamento, sou diretor técnico do jornal. Eu dirijo a equipa de design e tecnologia. E, por outro lado, há dois anos nos candidatamos ao funding do Digital News Initiative da Google, que procurava projetos de inovação na área de jornalismo online. Então, é deste projeto que surgiu a Frames. Nós nos candidatamos como o jornal Observador, a Google forneceu os fundos para o projeto e, em vez de fazer dessa ideia uma coisa interna e exclusiva para o Observador, decidimos fazer uma spin-off, uma empresa separada coparticipada pelo Observador e por mim. A Frames está a montar este produto que já está a ser usado pelo Observador e agora estamos a exportar para outros publishers em outros países um produto para melhorar os

lxvi artigos através da comunicação de gráficos contextuais. Portanto eu ainda sou diretor técnico parte do tempo, e a outra parte estou então a liderar a Frames.

2. Então essa parte de jornalismo de dados do Observador é uma parceria com a Frames?

Mais ou menos. Nós temos uma equipa própria de jornalistas na Frames que no dia a dia olha para os principais eventos da atualidade, decide quais são os temas mais relevantes, pesquisa dados sobre eles e prepara pequenos gráficos, coisas menores tanto na parte visual quanto no tamanho ocupado, que deem informação sobre o tema. Se aconteceu, por exemplo, um terremoto no México, pode ser um histórico de terremotos recentes ou uma explicação da escala Richter. Se for taxa de desemprego, obviamente a taxa histórica de desemprego em Portugal e assim por diante. Esses frames são depois colocados automaticamente pelo nosso sistema nos artigos, ou seja, sempre que o Observador publica um artigo, nosso sistema analisa automaticamente o seu conteúdo, classifica-o e procura na base de dados da Frames se há alguma coisa que pode ou não fazer sentido. O jornalista pode remover ou não, ou pode até criar o seu próprio, mas na maioria das vezes o jornalista não sabe, não tem tempo ou não tem paciência, nem informação, nem ferramentas. A decisão é sempre do jornalista, mas se ele não fizer nada aparece automaticamente, ou seja, nós presumimos que isto está certo e o jornalista se quiser ele tem que ativamente intervir e remover. Isso porque sabíamos, por experiência própria, que se deixarmos nas mãos dos jornalistas todo este trabalho de pesquisa de dados e inclusão do gráfico no artigo, nós normalmente teríamos uma cobertura de artigos com gráficos menor do que um or cento. Durante 3 meses no ano passado, foram 0,34% de artigos com gráficos quando a única ferramenta era o Infogram. Com esse novo sistema, no mês de fevereiro fizemos 54% de artigos com gráficos, o que é inexistente no mundo, não há jornal que tenha tantos gráficos nos seus artigos.

Todo esse esforço da Frames é para esses gráficos pequenos e contextuais, mas tudo o que são trabalhos mais a fundo de visualizações mais complexas são coisas que a Frames não tem nada a ver e obviamente que cada jornal produz na mesma. No caso do Observador, é a minha equipa que os faz, e são coisas como as eleições ou uma infografia qualquer sobre um tema mais complexo. Não fazemos muita coisa, mas quando fazemos obviamente são produções maiores. Portanto temos duas frentes: a automatizada contextual com coisas

lxvii pequenas e aquilo que, vamos chamar assim, são megaproduções e neste caso inclui interatividade.

3. Breve histórico do JD no veículo. Iniciativa de quem?

O projeto da Frames começou a ser desenvolvido há um ano e meio e a ser publicado há um ano. Os projetos maiores existem desde sempre no Observador, que foi lançado há três anos e meio, quase 4 anos, com a ideia de ser um jornal unicamente digital, uma inovação. Logo no início quando lançamos havia as eleições e portanto, já fizemos projetos interativos com os resultados eleitorais.

4. Existe uma editoria ou sessão separada para dados/infográfico?

Secção específica não. Temos conteúdos interativos que são destacados nas respectivas secções temáticas com um prefixo azul a dizer que é interativo.

5. Qual o tamanho da equipe? A equipe é dedicada somente ao JD? Quem são os profissionais e quais as formações deles?

Não há uma equipe específica para isso. Tipicamente, quando há uma produção maior interativa, quem faz sou eu o meu senior designer, e depois depende do esforço de programação, que pode ser de um, dois ou três programadores. Depende. Sempre tem um editor da secção específica do tema e programadores que não tem nenhuma skill de jornalismo, mas trabalhamos muito perto da redação partilhamos o mesmo espaço, portanto estão habituados a lidar com esses temas. De vez em quando algum jornalista pode fazer um bocadinho de limpar dados ou raspar dados, mas tipicamente na nossa redação não tem aquilo que eu chamaria de um data journalist.

Na Frames há, inclusive o jornalista tem um phd em data visualization. Achamos importante ser uma curadoria editorial. Nesse caso é um jornalista a tempo inteiro para Portugal que recolhe dados e decide temas, mas isso ocorre completamente fora do contexto do Observador.

6. Como são definidas as pautas das “data stories”? Descreva as fases do fluxo de trabalho na produção de uma “data story”.

No Observador, quando a redação tem uma necessidade, e são coisas grandes como as eleições, os mundiais, probabilidades de uma equipa de ganhar um campeonato,

lxviii normalmente há um pedido e nós rapidamente respondemos se é possível ou não, por uma questão de tempo e não de skills. Nós fazemos tudo: pensamos onde buscar os dados, na implantação técnica, na interatividade, no design e é sempre tudo mobile-first. Nós somos muito autônomos, obviamente estamos sempre consultando a redação, mas eles confiam muito em nós, os designers e programadores. A intervenção jornalística é mesmo maioritariamente na sugestão. Isso por conta dos muitos anos que estamos na equipa e eu próprio já trabalhei com outros jornai,s portanto é uma área que eu sempre tive interesse no Observador eu acabo por ter um papel que seria de product manager, pois no fundo estamos a desenhar um produto. A redação tem a ideia e as necessidades, a equipe comercial tem objetivos, depois junta-se tudo na materialização do produto digital. E por sermos só digitais, isso então é mais direto do que no offline.

7. Existe uma periodicidade definida para a publicação de “data stories”? Se sim, qual e por quê?

No Observador, eu diria que só fazemos interativos com data visualizations duas ou três vezes por ano. É muito baixa a cadência, porque o que fazemos é mais histórias visuai,s aqueles long forms multimédia.

Na Frames, não há uma periodicidade definida. Há dias que temos um ou dois, outros temos três ou quatro. Muito tempo é despendido em manter a informação atualizada porque cada frame criado é continuamente atualizado. Por exemplo, a estatística de emprego quando sai não vamos criar um novo frame, nós atualizamos o antigo. Então hoje temos um acervo por volta de 500 ou 600 frames já criados e continuamente atualizados. Apesar de cada dia criarmos dois ou três novos, a verdade é que já temos uma massa crítica que nos permite chegar aos tais 54% de artigos com gráficos no Observador.

8. Quais as ferramentas/softwares utilizados para produzir “data stories”?

No Observador, os jornalistas usam bastante o Infogram para criar coisas próprias, mas como eu disse é uma coisa reduzida, situações mais pontuais. Eles têm essa liberdade e até há um incentivo para fazerem isso. Quando são as produções interativas maiores, não há nenhuma ferramenta que usamos. É programação mesmo nossa, código nosso, direto. Numa situação outra talvez tenhamos usado o D3.js. O nosso backoffice é Wordpress, portanto a linguagem é PHP, mas o grande trabalho é de java script, é a linguagem principal.

lxix Na Frames temos nosso próprio sistema para construir gráficos, e usamos o Node, um environment de JavaScript.

9. Existe algum treinamento para a equipe (exemplo: coding para os jornalistas, jornalismo para programadores)?

Treinamento tecnológico para os jornalistas, no início tínhamos um bocado dessa visão, mas não pegou. A malta é muito resistente e para usar o infogram não é preciso perceber nada de código. O incentivo é mesmo editorial. Os diretores do jornal e os editores fazem pressão nos jornalistas para fazerem mais gráficos com Infogram.

10. Do ponto de vista da recepção, qual o impacto das “data stories” para o leitor? O jornalismo de dados tem criado mais valor ao produto jornalístico da empresa?

Sim, gera page views, mas normalmente nem colocamos publicidade nesses interativos pois são reportagens a fundo, exclusivas, são acima de tudo maneiras de posicionar o jornal como conteúdo de qualidade, e depois capitalizar nisso com receitas indiretas.

11. Quais os desafios para a prática de jornalismo de dados atualmente?

Eu acho que o mais difícil, eu diria é ter os recursos, ou seja, alguém da redação ter os skills, e para ter skills é preciso ter tempo e recursos. No fim, é tudo a mesma coisa: recursos. O tempo que leva a fazer é de 10 artigos de texto versus um artigo de dados, e a proporção é até pior que é essa. Então é preciso ter um jornalista que tem conhecimento mínimo técnico de dados isso é muito raro.

XI. ENTREVISTA COM LUIS VARGAS – HEMICICLO