• Nenhum resultado encontrado

6. METODOLOGIA DE PESQUISA

6.3 Resultados e discussões

6.3.6 Entrevista com o UEC

O contato com os membros do Ubuntu Esporte Clube ocorreu por troca de mensagens no aplicativo Instagram, através do perfil oficial nesta rede social. Depois de alguns diálogos, o encontro virtual aconteceu pela plataforma Zoom. Estiveram presentes os jornalistas Marcos Luca Valentim, Pedro Moreno e Thales Ramos. Rafaelle Seraphim e Diego Moraes não puderam comparecer à conversa. Todas as citações diretas e indiretas que possam aparecer neste texto em relação aos entrevistados, são decorrentes desta entrevista32.

Quando perguntados a respeito da origem do projeto e do nome para o podcast, Pedro informou que o programa “surgiu de uma necessidade dentro da redação”, pois segundo ele, muitos assuntos voltados às questões raciais eram (e ainda são), principalmente no audiovisual, comentados e noticiados na maioria das vezes por pessoas brancas, gerando “falta de representatividade” e que isso não é um fenômeno de uma emissora ou canal de TV a cabo, mas de toda uma grade televisiva que “é muito difícil você ver preto falando de qualquer coisa”.

Ele ressaltou que nem todos os membros fundadores do UEC se conheciam diretamente, eram colegas de redação do Globo Esporte/SporTV, mas por conta da intersecção de se ter maior visibilidade de negros (as) na mídia, o movimento ganhou força. A princípio, a ideia era criar um blog e possuir um lugar de fala “em que as pessoas pudessem ouvir pretos falando não só sobre as questões raciais, mas falando sobre esporte, incluindo a questão racial” e o podcast se sobressaiu como uma mídia promissora para o projeto. Além disto, Pedro acredita que atualmente há uma convergência entre as mídias (TV, sites, podcast, redes sociais) fazendo com que as temáticas transcendam para outros meios.

Quanto ao nome, Thales disse que Wakanda Esporte Clube ia ser a identidade nominal do programa, em referência ao país fictício do continente africano, que é lar do super-herói Pantera Negra, personagem de quadrinhos, filmes e séries dos estúdios Marvel33. No entanto, o jornalista contou que alguns acontecimentos o fizeram mudar a nomenclatura para Ubuntu Esporte Clube.

O podcaster alegou que o UEC nasceu da articulação e movimento de outras pessoas do local de trabalho para que um projeto dessa dimensão saísse do papel. Em seguida, Marcos

32RAMOS, Thales.; MORENO, Pedro.; VALENTIM, Marcos Luca. Entrevista concedida a Vinícius Furtado Veloso de Oliveira. Natal, 2 abr. 2021. [A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" desta monografia].

1 arquivo .mp3 (31 minutos).

33BARBOSA, Matheus. Descubra os mistérios de Wakanda, o reino do Pantera Negra. Aficionados, 2017.

Disponível em: https://www.aficionados.com.br/wakanda-pantera-negra/. Acesso em: 09 abr. 2021.

73

Luca narrou que o UEC é exemplo para outros produtos da Globo e que “não nos foi dado esse espaço, nós conquistamos” através de estratégias e conversas para evitar uma resposta negativa.

Ainda durante a entrevista, Pedro comentou que devido ao isolamento e distanciamento social, os fundadores do UEC nunca gravaram, juntos e presencialmente, os episódios por conta da pandemia. Quanto às reuniões de pauta, Thales declarou que a equipe labora com efemérides, além de pautas quentes e frias.

Para organizar as informações, os profissionais e os estagiários utilizam o aplicativo Trello, como forma de gerenciar os conteúdos que serão veiculados no podcast. Marcos Luca falou que há divisão de tarefas entre eles, mas não hierarquias, as relações de trabalho são horizontais, onde todos agregam e colaboram.

Ademais, Marcos Luca e Thales acrescentaram à entrevista que o podcast tem uma visão de mundo diferente, porque são pessoas negras falando de negros (as) através das experiências pessoais e profissionais que envolvem questões raciais e é que isso distingue o programa de jornalísticos esportivos de muitos outros. Thales continuou e disse o seguinte: “a gente faz questão que todos os (as) especialistas sejam pretos (as)”.

Para isso, ele exemplificou os jornais televisivos diários, tanto locais quanto nacionais, em que a maioria dos entrevistados, não são negros, e que se tivesse um (a) negro (a) explicando sobre Economia, a percepção sobre os problemas da sociedade ia ser mais ampla e representativa.

Em outro ponto da entrevista, Marcos Luca esclareceu por que o programa adota duas expressões como vinhetas, popularmente vistas como racistas e pejorativas: “Lista negra” e

“Tinha que ser preto!”. Ele disse que o uso delas é para “mostrar que há vários estereótipos que fomentam o racismo, e esse linguajar é apenas mais um deles. Uma estratégia de afastar pessoas pretas de lugares de vitória”.

Com isso, o emprego desses elementos é para “subverter narrativas” através da sugestão de obras fílmicas, literárias e de outros documentos acessíveis, além de enaltecer atletas negros (as) dentro e fora do cenário esportivo ou social. Em seguida, Pedro ratificou que a partir do momento que a subversão surge, o “ideal pejorativo”, gradativamente, começa a não ser mais usado, e da forma como essas expressões são tratadas dentro do podcast, as pessoas negras podem ressignificar esses termos.

Em relação ao reconhecimento do programa, Valentim disse que um professor de uma escola de ensino médio utilizou um episódio do podcast em algumas aulas para a disciplina de História. Pedro também comentou que um morador de Minas Gerais tatuou “Ubuntu”,

74

utilizando o mesmo letreiro do programa e explicou o motivo do registro corporal à equipe do UEC. Segundo Pedro, o ouvinte fez a tatuagem porque através do contato com os temas do programa, ele passou a ter mais orgulho de ser negro. O jornalista ainda citou que recebeu uma mensagem de um estudante negro, que ao assistir ele e outro profissional trabalhando em uma transmissão esportiva, decidiu continuar o sonho de ser comunicador, porque viu que negros podem ocupar esses espaços.

O Ubuntu pretende deixar um legado não apenas para os ouvintes ou pessoas que auxiliam na construção desse projeto, mas também para a sociedade. De acordo com Marcos Luca é preciso que as pessoas questionem os acontecimentos ao redor, entenda o passado para também compreender o presente, pois o contexto é fundamental na construção, demolição e esquecimento de mitos. O jornalista concluiu que as pessoas, principalmente as negras, precisam acreditar que elas são capazes e que o Ubuntu Esporte Clube é uma prova disso também.

Thales acredita que a principal característica e ferramenta que diferencia o UEC das demais iniciativas é a oferta de visões de mundo distintas, através dos conteúdos discutidos não só por eles, mas também pelos entrevistados (as) que contribuem com a disseminação de informações coerentes com a perspectiva racial. Além disso, os temas introduzidos nas edições não têm espaço no jornalismo convencional. E finalizou dizendo que tanto ele quanto outros colegas de profissão tiveram um déficit em suas formações pelo fato de não terem tido experiências comunicacionais como essa em que eles estão promovendo junto à sociedade.

Partindo dessa mesma lógica, Pedro ressaltou que o programa não é feito somente para negros e negras, mas também para brancos (as) com a finalidade de provocar reflexões, através das discussões que ocorrem semanalmente, porque isso é uma luta de todas as pessoas, não de apenas um determinado grupo social.

75

Documentos relacionados