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5.2 Entrevistas sobre o Açude Grande

5.2.3 Entrevista com representante da prefeitura municipal

Realizada em 25 de julho de 2019 na sede da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente – SEDRUMA do município de Cajazeiras, a entrevista com representante da Prefeitura se concentrou, basicamente, em duas perguntas: 1-Se a Prefeitura de Cajazeiras já fez, por conta própria ou em parceria com outra(s) instituição(ões), algum trabalho de revitalização do Açude Grande? Caso afirmativo, qual foi o trabalho e quando ele foi executado?; e 2-Se já existiu ou ainda existe por parte da Prefeitura algum projeto sendo desenvolvido no sentido de conscientizar a população sobre a importância do Açude Grande para a cidade de Cajazeiras, ou mesmo de alertar sobre os perigos de se utilizar das suas águas no atual estado de degradação em que ele se encontra.

urbanização e de infraestrutura construídos ao longo de várias gestões, desde 2009 a prefeitura vem trabalhando no sentido de identificar e mapear os pontos de maior influência na degradação do manancial. Nesse mesmo ano, 2009, segundo a fala do ator entrevistado que é servidor efetivo da pasta há mais de uma década, foi contratada a empresa GEOSET com o intuito de se fazer um levantamento cartográfico dessas áreas impactadas e, nessa lógica, a Figura 54 mostra um dos produtos gerados para o relatório da época, documento esse que nos foi gentil e prontamente cedido para análise e composição desse estudo.

Figura 54: Áreas de impacto ambiental no Açude Grande no ano de 2009 Fonte: Relatório da empresa GEOSET - Soluções em geotecnologias, 2009

O relatório da GEOSET diz, em sua página 14, que os pontos em destaque são, dentre os locais visitados, aqueles que merecem maior atenção, a saber: (A) lançamento de águas residuárias (bairro dos Remédios); (B) construções embargadas pela Prefeitura Municipal; (C) ponto de lançamento de águas residuais com foco para o desenvolvimento da pecuária; (D) residência a 2 metros do nível do Açude Grande; e (E) maior galeria pluvial de esgoto sendo lançada no Açude Grande.

Ainda sobre o primeiro questionamento, trecho importante da fala do entrevistado deixa claro que

A ideia, naquele momento [2009], era justamente uma atitude administrativa no sentido de coibir as construções que, vez ou outra, insistem em aparecer nas áreas onde ainda não há construção. A gente sabe que já há uma grande invasão dessa área, principalmente aqui, no setor sul, e como o açude é originário desde a época do surgimento dessa cidade, a cidade se desenvolveu as margens dele e aí é comum essa invasão atrelada à falta de gestão ambiental que é comum, também, nos municípios. Esse é meio que o aspecto e, de lá pra cá, a gente vem tentando, é... continuar trabalhando dentro dessa perspectiva com o objetivo principal de, enquanto gestão pública, promover um trabalho parceiro entre as Secretarias do Planejamento e [a do] Meio Ambiente [para que] a gente consiga coibir construções e futuras construções na área Norte do açude que é onde há, ainda, uma possibilidade de se proteger essa Área de Preservação Permanente (APP).

Ficou explícito, no relato do entrevistado, que a negligência ambiental das autoridades públicas ao longo dos anos terminou por descumprir a já citada cláusula de cuidado e conservação prevista na “Certidão de Entrega do Açude Grande pelo Governo Federal ao Governo Estadual” (Anexo E).

Figura 55: Pontos de maior agressão do Açude Grande em 2019 Fonte: Autoria própria, 2019

Mas ao que tudo indica se por um lado novas construções foram coibidas pela prefeitura, as agressões já existentes desde 2009 foram mantidas, conforme evidencia a Figura 55, a qual apresenta um mosaico de pontos revisitados e fotografados em dezembro de 2019.

natura lançados diretamente dos encanamentos das residências marginais, do bairro Remédios,

no leito do Açude Grande, situação análoga à do ponto “E” que, por sua vez, mostra águas residuárias na mesma condição lançadas das residências do bairro João Bosco Braga Barreto.

Os pontos “C” e “D” ilustram, respectivamente, galeria pluvial e boca de lobo nos bairros Remédios e Centro que, erroneamente, foram canalizados como receptores de águas servidas de parte dessas duas localidades. Frisa-se que esses pontos (“C” e “D”) deveriam receber, unicamente, águas procedentes das chuvas o que, como registrado, não ocorre.

Além disso, rememora-se que até mesmo as chuvas, ao escoarem por meio desses canais, terminam por, através do runoff urbano e do runoff oriundo dos 6,3 km da BR-230 (Transamazônica) que cortam a microbacia de drenagem do lago, contribuir com a poluição do Açude Grande.

Quanto à segunda pergunta, transcreve-se, integralmente, a resposta que foi dada pelo servidor da SEDRUMA:

Acho que o momento que a gente vem fazendo também, por parte da Secretaria, está sendo propício para isso no sentido de que estamos elaborando o Plano Municipal de Saneamento Básico de Cajazeiras. Então, dentro desse momento já foi frisado isso. A gente já vai partir agora para o final da primeira etapa com a realização da primeira audiência para expor o diagnóstico dos dados que já foram coletados, então, por se tratar do saneamento básico, a questão do Açude Grande está totalmente relacionado, pelo lançamento inadequado de efluentes que existem nesse reservatório e está sendo também o momento em que estamos chamando a atenção da população para que eles possam compreender a importância desse movimento e dessa compreensão mesmo do que é estar lançando um efluente, um esgoto, diretamente no açude, o que configura um momento propício. O Fórum [Fórum Açude Grande] também está fazendo um grande trabalho nesse sentido da frequência das realizações de atividades para a população tomar conhecimento e o nosso trabalho tem sido esse de buscar de forma administrativa as ações que devem ser feitas em relação à proteção desse reservatório e a gente acredita que essa parceria entre Poder Público Municipal e Estadual (cada um dentro de suas competências), conseguiremos (sic) fazer um bom trabalho para o futuro de Cajazeiras.

Assim, fica claro que há, atualmente, preocupação da autoridade local com a condição assumida pelo manancial ao longo dos anos estando consignado esse direcionamento, mais uma vez, com o que apregoa Santo Júnior (2015, p. 318) ao colocar que a atitude do poder público é determinante na proposição de processos que envolvam a educação ambiental da

população, sobretudo no que diz respeito a alcançar soluções para o descarte sustentável do lixo e do esgoto.