Fabíola (Entrevistadora) – Professor, a Rádio Ponto é a primeira webradio universitária, criada em 1999 e eu gostaria de saber de que forma isso de fato interfere no próprio ensino dos alunos, no sentido de formá-los como jornalistas.
Prof. Eduardo Meditsch (Entrevistado 05) - Bom, o que eu posso comentar é pela minha experiência como professor, antes de ter a Rádio Ponto e depois de ter a Rádio Ponto. Antes de ter a Rádio Ponto, a gente trabalhava muito com programas gravados, produzia programas também, mas não tínhamos onde veicular esses programas. A gente até fazia por fora das disciplinas alguns programas em emissoras, mas nas disciplinas a gente fazia programas que não eram veiculados. Acho que é o mais normal de acontecer nos cursos de jornalismo e, infelizmente, isso cria uma situação falsa, porque a gente produz para ninguém e a gente tende a se afastar muito da realidade. A ideia dos programas da Rádio Ponto nas disciplinas é nos aproximarmos um pouco mais da realidade, no sentido de se ter primeiro um timing próximo do que acontece na produção do radiojornalismo real, que é outro problema, porque as estruturas de aula num curso de jornalismo são pensadas na lógica da educação, que não é a lógica da profissão. E o curso serve para preparar as pessoas para a profissão. Então, a gente tem que, às vezes, quebrar um pouquinho a lógica da aula para se aproximar da lógica da profissão. Isso nem sempre é bem entendido, inclusive pelos alunos. Eu vejo avaliações que os alunos dizem: “ah, mas passamos um tempo da disciplina, alguns ficaram sem nada para fazer, outros ficaram fazendo”. Mas é porque numa redação de rádio isso acontece assim também. Então, para a gente imitar a redação de rádio, quebra a lógica da aula. Então, o equilíbrio entre uma coisa e outra é muito difícil de alcançar, mas a a gente tenta sempre alcançar. Acho que ainda a Rádio Ponto não é o ideal. Por quê? Porque a Rádio Ponto não tem ainda um público real, não tem um público permanente, real, o que faz com que, embora a gente consiga suprir com essa experiência alguns aspectos, da velocidade da produção, da tensão, do estresse de colocar uma coisa no ar, com hora marcada, que antes a gente não tinha, o feedback ainda é muito pequeno, porque não existe um público real. E acho que é fundamental para uma experiência do jornalismo ter um público real, porque só aí a gente
pode realmente medir quando “pisa na bola”, quando dá um desvio ético quando a gente fala, porque o jornalismo sempre falha pela velocidade em que é feito e essa etapa seria muito importante na aprendizagem.
F - Você tocou num ponto de a Rádio Ponto conseguir se aproximar mais da produção do mercado de trabalho. A partir dessa produção maior, o fato de não ter um manual de rádio, um público, você acha que isso prejudica de alguma maneira as discussões que os alunos têm para pauta, que eles podem não estar levando em consideração o público?
E05 – Acho que sim, porque acho que isso é um problema não apenas na faculdade, embora na faculdade seja talvez mais intenso, mas, mesmo na vida profissional, o jornalista muitas vezes imagina um público ou subentende que tem um público que muitas vezes não é exatamente o público que ele imagina, não é o público real. Então, é muito importante ter essa relação com o público, uma relação mais real possível. Hoje a internet justamente possibilita essa proximidade muito maior com o público, os canais de feedback são múltiplos e muito mais fáceis de usar, porque antes era só o telefone e as cartas, e acho que isso é muito importante. E seria importante aqui. Eu sempre sou dessa visão. Sempre quando se discute o que deve ser a Rádio Ponto há uma divisão de opiniões, se ela deve imitar uma rádio real, uma rádio profissional, ou se ela deve ser uma rádio mais experimental, que exista uma maior tolerância, invenção, imaginação, que se experimentem coisas diferentes. Eu acho que o ideal é que ela conseguisse as duas coisas, mas em fases diferentes da educação dos alunos. Eu acho que no começo tem que se aproximar o máximo possível do que é real, para que numa segunda fase, a gente conseguir criar alguma coisa nova. Porque não adianta querer criar alguma coisa da realidade sem ter uma base real, porque essa coisa vai ficar muito distante da realidade e não vai ter aplicação na realidade.
F - Pensando na internet e trazendo para o lado da criatividade, existe alguma diferença pelo fato de ser uma webradio e não uma hertziana, seja diferença de informação, de linguagem ou outro aspecto?
E05 – Bom, eu acho que o fato de ser uma rádio na internet permite uma maior elasticidade em relação à segmentação. A gente,
eventualmente, vai cobrir alguma coisa e pode se dirigir a um público específico interessado naquela coisa e, nesse sentido, é que pode influenciar a programação, influenciar no sentido do conteúdo, da informação. A gente pode, por exemplo, cobrir a eleição para reitor, a gente sabe que está falando com o público da universidade que está interessado nisso, então, a gente se volta mais para esse público. Vai cobrir um programa esportivo tem um público diferente. Então, acho que a lógica da rede que está na internet acontece também com o público e a gente volta para os diversos públicos. Isso em termos ideais. Se isso realmente acontece é outra história, mas poderia acontecer. Mas acho que a gente, ainda em termos de linguagem, está devendo muito, não avançamos muito no desenvolvimento de uma webemissora e isso não é um problema só nosso, é um problema do uso da internet pelo rádio. Eu acho que pelo fato de as emissoras de rádio, na sua maioria, as que têm recursos para investir em pesquisa, em destaque, que são as emissoras hertzianas quando usam a internet, elas usam apenas como uma nova vitrine para a sua mesma programação. Então, elas usam muito pouco, experimentam muito pouco dos recursos da internet. E normalmente quem tem uma webemissora, como nós, que não tem uma emissora hertziana, não tem recursos para investir muito. Por exemplo, um software que seria óbvio, básico, para ligar a programação sonora na interface gráfica da web seria de que, quando entrasse um programa ao vivo, isso aparecesse instantaneamente no site. E isso não acontece. O site é estático, enquanto a programação sonora, o streaming é em movimento permanente. Isso teria que ser adaptado. Quando a gente interrompe e mesmo quando está rolando a programação gravada em streaming, que é uma parte da programação, o site teria que mostrar qual é o programa que está tocando. E isso não acontece. Quer dizer, isso é um software que está “caindo de maduro”, mas que não foi desenvolvido ainda. Então aí que a gente vê o desinteresse em desenvolver a webradio por parte de quem tem recursos para tal. Nenhuma emissora faz isso no mundo, eu acho. Eu nunca vi uma emissora de rádio que fizesse isso. E é a coisa mais óbvia e é um problema mais geral da internet. A internet ainda não desenvolveu as maneiras mais inteligentes, apropriadas, de editar áudio dentro do contexto multimídia. Mesmo quando um site que não é de rádio, um site de notícias, por exemplo, usa áudio, isso está sempre num canto da página, não é integrado na programação, digamos, visual, que está incluído o texto, a imagem. É preciso pensar numa lógica que consiga cruzar o uso do espaço com o uso do tempo. E isso é uma coisa que talvez só o audiovisual tenha encontrado uma maneira e que nós precisamos encontrar na internet. Mas
esse é um problema geral da internet, não é um problema do rádio, mas o rádio passa por aí também.
F - A Rádio Ponto era a emissora da universidade, mas agora a UFSC tem a sua emissora própria. Está criando isso. Isso interfere na Rádio Ponto?
E05 – Não. Quer dizer, durante um tempo, em que nós tínhamos uma relação mais próxima com a reitoria, principalmente quando nós produzíamos o [projeto de extensão] Universidade Aberta, que era um projeto muito grande, a gente até tinha a expectativa de que, quando se criasse uma rádio, essa rádio pudesse ser tocada a partir do curso de Jornalismo. Hoje já não tem mais essa expectativa. Acho que a comunicação da universidade passa por entraves políticos muito complicados e dificilmente um reitor, essa reitoria presente, por exemplo, teria essa confiança no curso de Jornalismo. Infelizmente, porque as experiências internacionais que a gente tem, eu sempre uso o exemplo da Universidade da Flórida, que aliás inspirou o Universidade Aberta, é que são as emissoras de rádio e de TV universitária mais bem-sucedidas nos Estados Unidos, em termos de público e de prestígio, são as emissoras produzidas por cursos de Jornalismo. Mas aqui provavelmente não vai acontecer, como não está acontecendo com a TV universitária. A TV universitária é tocada autonomamente, como vinculada à reitoria, mas os alunos do curso produzem programas que são veiculados lá. Então, acho que quando for criada a emissora de rádio universitária, o que vai haver é um grande redirecionamento da produção do nosso laboratório de rádio, inclusive, talvez das disciplinas, para a emissora hertziana da universidade. E aí talvez a Rádio Ponto fique mais em segundo plano e talvez assuma mais esse caráter experimental, já que a gente vai ter uma emissora real para colocar alguns tipos de programa. Então, é claro que vai ter toda uma reestruturação do estúdio para atender a toda essa demanda de programas para a rádio universitária. E a Rádio Ponto vai ser uma rádio experimental do curso de Jornalismo.
F - Os programas da disciplina têm caráter experimental. Os núcleos já têm mais qualidade e até o próprio ânimo dos alunos é diferente, fazem porque gostam. A Rádio Ponto faz os alunos dos núcleos pensarem num novo radiojornalismo informativo?
E05 – Bom, eu acho assim, dentro dos próprios núcleos existem vários níveis. O pessoal que está iniciando nos núcleos geralmente é o pessoal que está começando a cursar o curso de Jornalismo, está nas primeiras disciplinas de rádio, e depois o pessoal que está há mais tempo nos núcleos é o pessoal que tem mais experiência, que está dirigindo os núcleos. Então, ali também há uma diferença de níveis, inclusive o núcleo de esporte tem uma hierarquia de programas, com o programa para os iniciantes e os programas para quem tem mais experiência. Então, a qualidade também varia muito. E a qualidade também varia muito porque o trabalho do núcleo é voluntário. Então, os alunos têm seus compromissos de aula, têm seus compromissos de bolsa, que muitas vezes não são do rádio, e acabam no tempo que sobra, eles têm muita motivação, mas muitas vezes não têm o tempo necessário para se dedicar à rádio. Então, um problema também da manutenção da qualidade, que eles lutam muito para manter essa qualidade, mas nem sempre conseguem. Mas claro que o pessoal mais experiente tem mais capacidade de experimentar. Agora, acho que nós temos um problema estrutural no Laboratório de Rádio e no curso de Jornalismo como um todo que é essa falta de convergência entre rádio e internet. Os alunos, claro, passaram pelas disciplinas da internet, eles são da geração da internet, mas eles acabam usando a internet mais através de aplicativos, como Facebook, Twitter, para fazer essa convergência com a programação do streaming da rádio e nós não conseguimos ainda, no próprio site da rádio, explorar as potencialidades da internet e fazer essa ligação. O site da Rádio simplesmente coloca os programas em streaming e depois vai colocar o podcast desse programa acompanhado de uma foto, de alguma coisa. Mas eu ainda acho que é muito estático, muito fora do potencial, muito longe do potencial que pode ter essa convergência.
F - Esse seria o grande problema da Rádio Ponto?
E05 – Acho que sim. Acho que a Rádio Ponto, até por essa incrível participação que tem, muita gente participando, poderia ser uma webradio experimental que estivesse abrindo caminhos para outras webradios, pela estrutura e disposição que a gente tem aqui. Mas ainda falta essa ligação, inclusive dos professores de rádio com os professores de internet para a gente fazer essa convergência.
APÊNDICE 06 - Entrevista 06 – Valci Zuculoto, professora