1 INTRODUÇÃO
3.3 PROCESSO DE COLETA DE DADOS
3.3.1 Entrevista em profundidade
Yin (2010) destaca que a entrevista é uma das fontes mais importantes para o estudo de caso. Por ser provedora essencial da informação, deve ser focada e seguir um determinado conjunto de questões derivadas de um roteiro semiestruturado. Um tipo de entrevista de estudo de caso mencionado pelo autor é a entrevista em profundidade, a qual permite uma interação maior entre o pesquisador e o entrevistado, possui uma duração maior do que a entrevista focada, por exemplo, e ainda o entrevistado pode propor seus próprios insights sobre determinadas situações.
A razão pela utilização da entrevista em profundidade semiestruturada dá-se devido ao fato de desejar-se compreender os significados que os entrevistados atribuem às questões e situações relativas ao tema de interesse, bem como de que maneira os mesmos fundamentam suas opiniões (GODOY, 2006; LANKSHEAR; KNOBEL, 2008; MALHOTRA, 2011). Assim sendo, elaborou-se uma proposta de roteiro semiestruturado de questões que deram suporte à coleta de dados, conforme pode ser visualizado no Quadro 3.
O Quadro 3 contempla as questões propostas como roteiro para as entrevistas, subdivididas em 13 categorias de análise, provenientes dos estudos da revisão bibliográfica acerca da aprendizagem organizacional, seus processos formais e informais, e a expatriação. A elaboração da proposta de questionário para coleta de dados desta dissertação de mestrado baseou-se nas categorias e subcategorias de Antonello (2011), descritas na seção 2.4 deste trabalho.
O roteiro semiestruturado foi baseado no referencial teórico apresentado considerando-se os objetivos específicos do projeto. Contém, inicialmente, a verificação de como ocorrem os processos de aprendizagem a partir da estrutura proposta por Antonello
(2011) e Panosso (2014), além de outros autores contextualizados em cada categoria e também apresentados no Quadro 3. A escolha desses estudos para embasamento e montagem do roteiro de questões deu-se porque eles tratam de categorias de análise que representam de forma mais detalhada os objetivos propostos no projeto e conferem uma maior quantidade de detalhes ao roteiro das entrevistas executadas com os funcionários expatriados.
Para abordar e responder ao objetivo deste estudo, ou seja, analisar a contribuição da expatriação para os processos de aprendizagem, foi desenvolvida uma categoria no final do questionário. A estruturação das questões está embasada na premissa de extrair as experiências dos entrevistados nos processos de aprendizagem, tanto formais quanto informais, propostas por Antonello (2011). Porém, o intuito das questões é nortear o pesquisador na forma como conduzirá a entrevista.
Quadro 3 - Roteiro para entrevistas
(continua) Objetivos
Específicos Categorias Questões para as empresas do estudo Autores de base
Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Introdução e Apresentação do Tema
1. O que você entende por aprendizagem? 2. Como você aprende?
3. Como foi sua expatriação?
4. Você pode descrever algum processo de aprendizagem que ocorre dentro da organização? Argyris e Schön (1978), Prange (2001), Antonello (2004), Chiva, Ghauri e Alegre (2014) Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Experiência anterior e transferência extraprofissional
5. Você já trabalhou em outra empresa além desta? Conte sua experiência.
Eraut et al. (1998), Antonello (2011)
Experienciar 6. Conte como foram algumas situações de
extrema dificuldade na vida profissional. Antonello (2011)
Reflexão
7. Como a reflexão contribui para que ocorra o processo de desenvolvimento dos indivíduos?
8. Você já refletiu sobre a aprendizagem oriunda de alguma situação de fracasso? O que aconteceu?
9. Como a reflexão coletiva (equipe) ocorre na sua organização em situações
diferentes do esperado?
Kolb (1984), Antonello (2011)
Autoanálise
10. De que forma você reconhece suas forças e fraquezas no alcance das metas e objetivos da organização?
Boyatzis (1982), Antonello (2011)
Observação - modelos
11. Você espelha-se em algum tipo de modelo profissional? Qual? Por quê? Ou você se inspira em elementos de várias pessoas diferentes?
12. Você conhece algum funcionário expatriado de outra organização com o qual tenha aprendido algo? Foi um modelo positivo, algo que você tentou
Kolb (1984), Dutra (2002), Antonello (2011)
(continuação)
(conclusão) fazer, ou um modelo negativo, algo que
você esforçou-se para evitar fazer? Conte como isso contribuiu para a sua atividade no exterior. Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Feedback
13. Como a realização do feedback gera algum aprendizado?
14. Poderia ser a crítica uma fonte de aprendizagem e uma forma de melhorar o desempenho individual e organizacional, contribuindo para o desenvolvimento das suas atividades no exterior?
Antonello (2011) Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Mudança de perspectiva
15. Você já teve que mudar sua postura perante seus colegas, em determinado momento? Exemplifique a situação. Foi no seu momento de expatriação? 16. Você se coloca na posição de outras
pessoas para entender as ações dela? Como? Alguma situação está relacionada à expatriação?
17. Qual a mudança de perspectiva que você considera mais importante ter efetuado com relação à expatriação?
18. Como foi sua experiência de lidar com outras culturas, outras visões de mundo, outras pessoas e pontos de vista no momento da expatriação?
19. Quando se deu o retorno, você conseguiu adaptar suas próprias abordagens a fim de importar boas práticas aprendidas no país estrangeiro?
20. Quando expatriado, o fato de você trabalhar com menos apoio que no seu ambiente de origem, o fez tornar-se mais independe? Como? Antonello (2011), Porath et al. (2011), Ren et al. (2015) Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Mentoria e Tutoria
21. Você já foi orientado ou orientou alguém nos procedimentos do trabalho? Como? Especificamente para o processo de expatriação? Em que requisitos?
Lave; Wenger (1991), Bennetts (1998), Antonello (2011)
Interação e Colaboração
22. Conte o que você aprende(u) com trabalhos em grupo na empresa. 23. Você consegue enxergar benefícios
positivos da diversidade dentro de equipes, não necessariamente da mesma organização? Em que sentido isso pode ser aplicado na expatriação?
Kim (1998), Nonaka e Takeuchi (1995), Antonello (2011) Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Cursos treinamentos
24. A empresa oferece cursos ou treinamentos que são específicos para expatriação e contribuem para tal?
Lave; Wenger (1991), Bennetts (1998), Antonello (2011)
(conclusão) Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. Informal
25. Já participou de cursos de pós-graduação ou outros cursos afins? Algo relacionado à internacionalização de empresas, que contemplasse a expatriação?
26. Você teve a experiência de colocar em prática alguma teoria antes estudada? Algo relacionado à expatriação?
Kim (1998), Nonaka e Takeuchi (1995), Antonello (2011) Aprendizagem pela articulação da teoria e prática
27. O aprendizado em cursos formais proporcionou alguma melhora na capacidade de articular seus pensamentos,
principalmente quando você estava no processo de expatriação e tinha as diferenças culturais para lidar?
Lave; Wenger (1991), Wenger (1998), Weick e Westley (2004), Antonello (2011) Caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas. Analisar os resultados de aprendizagem em uma expatriação no âmbito do funcionário e da organização. Expatriação e Resultados de Aprendizagem
28. Como a expatriação contribui para a organização?
29. Como ocorre o processo de expatriação na sua organização?
30. Como os funcionários são preparados para serem expatriados? Com relação à língua, cultura, família.... Como você descreveria o sistema de gestão de pessoas ou as estratégias utilizadas por este setor na sua expatriação?
31. Diante da aprendizagem formal e informal, quais seriam os resultados de uma expatriação que você considera mais importantes para o indivíduo e para a organização? Por quê?
32. Quando você retornou, como foi seu processo de repatriação na organização? 33. Você beneficiou-se da expatriação para
alguma conquista na sua carreira? Fale sobre isso.
34. Como você transmitiu os conhecimentos que havia adquirido no período da expatriação para a organização? 35. O que você considera de mais marcante
tenha ficado em termos de aprendizagem do seu período de expatriação?
Nonaka e Takeuchi (1995), Antonello (2011), Chiva, Ghauri e Alegre (2014)
Fonte: Elaborado pela autora.
Com relação à integração dos objetivos específicos desta pesquisa com as categorias e subcategorias de análise dispostas no Quadro 1 e com o roteiro proposto para as entrevistas, disposto do Quadro 3, pode-se agrupar da seguinte maneira: as 12 categorias dispostas no trabalho de Antonello (2011), as quais são: Experiência anterior e transferência extraprofissional, Experienciar, Reflexão, Autoanálise, Observação – modelos, Feedback, Mudança de Perspectiva, Mentoria e Tutoria, Interação e Colaboração, Cursos e
Treinamentos, Informal e Aprendizagem pela Articulação da Teoria e Prática, estão alocadas de maneira a responder o objetivo específico que segue: analisar os processos formais e informais de aprendizagem em uma expatriação. E as categorias Introdução e Apresentação ao Tema, Feedback, Mudança de Perspectiva, Mentoria e Tutoria, Interação e Colaboração, Cursos e Treinamentos e Expatriação e Resultados da Aprendizagem, estão alocadas para responder ao objetivo caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas.
Já a última categoria Expatriação e Resultados da Aprendizagem, que diz respeito ao cruzamento das questões de aprendizagem organizacional e expatriação, pretendeu responder ao objetivo de caracterizar como ocorre o processo de expatriação nas empresas, descrevendo como os funcionários são preparados pela organização para sua expatriação e analisar os resultados de aprendizagem em uma expatriação no âmbito do funcionário e da organização.
Bardin (2011) salienta que há várias maneiras de fazer uma entrevista. Entretanto, seja qual for o “caso” e a técnica escolhida, devem ser registradas e integralmente transcritas (incluindo hesitações, silêncio, risos, bem como estímulos do entrevistador). As entrevistas ocorreram mediante agendamento prévio com os entrevistados e ocorreram de duas maneiras: (i) presencialmente em algumas empresas e (ii) através da utilização do Skype, com vídeo e áudio em outras. Para o chamado entrevistado E4, em função da dificuldade de ajuste de horário entre ele e o pesquisador e pelas quatro tentativas falhas de comunicação, optou-se pelas respostas enviadas e recebidas via e-mail. Por esse motivo, ele não consta na listagem do Quadro 4. Com o intuito de chegar a uma maior quantidade de particularidades nas respostas do Entrevistado E4, foi solicitado a ele que, na medida do possível, apresentasse uma riqueza de detalhes em cada uma das respostas. Observou-se, porém, que essa riqueza de detalhes aconteceu em maior volume no bloco final, onde ele foi questionado sobre as questões da relação efetiva entre a aprendizagem organizacional e a expatriação. Constatou-se que as respostas foram suficientes para entender as atividades do expatriado.
As entrevistas foram gravadas no momento da sua realização e posteriormente foram transcritas pelo pesquisador. Yin (2010) comenta que o uso de dispositivos de gravação é uma questão de preferência do pesquisador, sendo que ele deve obter a permissão do entrevistado para tal ato e deve ter total conhecimento sobre o dispositivo para que esse não seja um incômodo no momento da realização da entrevista. A relação dos tempos de entrevista e seus métodos com cada respondente podem ser visualizados no Quadro 4.
Quadro 4 - Tempos e métodos utilizados nas entrevistas
Entrevistado Tempo de duração da entrevista
(arredondamento) Método E 1 49 minutos Presencial E 2 44 minutos Presencial E 3 49 minutos Presencial E 5 45 minutos Skype E 6 45 minutos Skype E 7 51 minutos Presencial E 8 47 minutos Presencial E 9 52 minutos Presencial E 10 48 minutos Presencial E 11 43 minutos Presencial
E 12 1 hora e 5 minutos Presencial
Fonte: Elaborado pela autora.