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1.4 EM CAMPO: APROXIMANDO E FAZENDO O CONVITE

1.5.3 Entrevista focal

As entrevistas focais ocorreram em outubro/2014 e se tornaram pertinentes para problematização de informações colocadas pelo grupo. Uma vez que se vinculam à expectativa de que o entrevistado (individualmente) possa expor suas experiências, a partir de seus pontos de vistas. Nesse caso, a entrevista focal situa-se no rol de entrevistas semiestruturadas enquanto método em geral (FLICK, 2004).

Merton e Kendall (1946 apud FLICK, 2004) desenvolveram a entrevista focal para a pesquisa da mídia, estudavam os impactos do estímulo sobre o entrevistado, utilizava-se, também, de um guia da entrevista. Neste estudo, o “objetivo original dessa entrevista era fornecer uma base para interpretação de descobertas estatisticamente significantes [...] sobre o impacto da

mídia na comunicação de massa”. (FLICK, 2004, pg. 89-90).

Cabe salientar que a técnica não é mesma de grupo focal, cujo nome, por vezes, é o mesmo, contudo realizado com pequenos grupos reunidos, ou seja, diferentemente do que se pretende aqui. A semelhança seria a origem, ou seja, as duas se encontram na área do Marketing e desejam “explorar normas e dinâmicas [...] ao redor de questões e tópicos.” (MAY, 2004, p.151).

Entendo a entrevista focal como um tipo de entrevista semiestruturada, portanto individual, que visa descrever as reações, sentimentos, dos entrevistados a partir de um estímulo audiovisual e, com isso, apreender a possível produção de conteúdo e suas relações. Sua condução ocorre por meio de questões focadas no tópico de estudo (ROGERS, 1994 apud FLICK, 2004). Nesse sentido, o que, em geral, distingue a entrevista focal das demais semiestruturadas, seria a apresentação de um estímulo uniforme (imagens e/ou áudios) no início da entrevista e sua organização metodológica na condução da atividade, as características do guia de entrevista.

Todavia, destaco que a real contribuição da entrevista focal para o presente trabalho está no ajuste do método dentro do processo de pesquisa, ou seja, a interpretação aprofundada das descobertas experimentais (FLICK, 2004), que se deu nas etapas de realização da atividade Árvore dos Sonhos e pela confecção de mapas mentais. Isto é, a possibilidade de se rever, por meio dos próprios participantes, os conteúdos e as impressões sobre o que já produziram coletivamente. Bem como, aprofundar nos tópicos desta pesquisa: a relação dos jovens- adolescentes com o lugar de vivência; com a produção de projetos de vida para si e sua comunidade; assim como a relação desses com identidade jovem-quilombola.

Dessa forma, fiz uso da entrevista focal para aprofundar na hipótese levantada sobre a relação dos jovens-adolescentes quilombolas com o lugar de vivência, agora em diálogo com os projetos mais gerais inseridos na comunidade. Cabe lembrar que, embora a entrevista focal

(FLICK, 2004, p. 94), neste caso, será essa a relevância para investigação em questão, ou seja, a possibilidade de se combinar com outras abordagens metodológicas.

A entrevista focal prevê passos de condução para o planejamento a partir do guia da entrevista. O primeiro passo é o não direcionamento conseguido através de diversas formas de questões, quais são perguntas não estruturadas passando pelas semiestruturadas. Com a maior estruturação somente no final, para evitar que o sistema de referência do entrevistador conflite ou se sobreponha ao do entrevistado17

. Nesse sentido, os participantes foram convidados a pensar e a apontar, nas imagens, os lugares que gostavam de frequentar na infância, até serem

introduzidos em questões de maior estruturação, como “O que é ser jovem?” e como “são as relações entre jovens quilombolas e não quilombolas na escola?”.

O segundo passo é o critério de especificidade, nesse caso, busca-se uma maior inspeção

retrospectiva que deve vir da “referência explícita à situação de estímulo”. No caso, os mapas

mentais produzidos pelos próprios sujeitos, produtos da pesquisa passada e atual. Bem como, uma reportagem sobre a comunidade em referência a uma atividade ocorrida na escola local no ano anterior. É interessante inserir o participante em situação que trará o mínimo de desvantagem possível, para que ele possa contribuir com o trabalho.

No terceiro critério, temos o espectro qual “visa assegurar que todos os aspectos e tópicos relevantes à questão de pesquisa sejam mencionados durante a entrevista” (FLICK, 2004, p. 91). Assim, é necessário abranger o espectro do tópico introduzindo novos ou iniciando mudanças e, se necessário, voltar a tópicos não detalhados em profundidade, especialmente se o entrevistado tiver encaminhado a entrevista para fora do tópico a fim de evitá-lo. Esta situação ocorreu com dois dos participantes que, diferentemente de ir para fora do tópico,

simplesmente pediu para “saltar” a questão. O que foi atendido, contudo, em momento

oportuno o tema foi retomado.

Por fim, a profundidade e o contexto social, esse critério seria as revelações do entrevistado sobre o quão o material de estímulo foi aproveitado. Nesse caso, deve-se assegurar o máximo de comentários autorreveladores que ultrapassem a simples adjetivos. A estratégia de Merton e Kendall (1946, p.554-5 apud FLICK, 2004, p.91) seria “o foco em sentimentos”, “a

reafirmação de sentimentos inferidos ou expressos” e a “referência a situações comparativas”.

Situação semelhante foi colocada ao término de confecção dos mapas mentais. Uma das jovens-adolescentes, Amira, apresentou a seguinte resposta:

Ah, eu me senti emocionada, eu me senti toda orgulhosa porque até então, quando a gente fez o desenho ninguém imaginaria que ia chegar nesse ponto que chegou hoje. Tipo assim, nós não imaginaria que você ia voltar para rever os desenhos com a gente e continuar com a pesquisa. Eu gostei, achei interessante. (Amira, 15 anos).

Amira, ao dizer “chegar ao ponto que chegou hoje”, referiu-se às contribuições de suas

imagens para se pensar a questão quilombola no meio acadêmico. Destaquei também de sua fala a possibilidade de muitos pesquisadores entrarem na Comunidade de Barro Preto e não apresentarem os resultados de suas pesquisas. Conforme relatado em conversas informais com Elenice, vice-diretora da escola local e moradora da comunidade.

A seguir a apresentação dos capítulos, conforme conteúdo desenvolvido ao longo desta dissertação.