Capítulo IV Metodologias de investigação
4. Instrumentos e recolha de dados
4.1. Entrevista
Em termos gerais, a entrevista pode ser definida como uma conversação intencional entre entrevistador e entrevistado, sendo as perguntas feitas pelo primeiro para obter respostas do seu interlocutor (Bogdan & Biklen, 1994). Uma das características é que estas são realizadas em situação presencial, de forma individual ou em grupo, retendo o entrevistador informações complementares, expressões, gestos, posturas, pequenos comentários ou expressão de opiniões, valores e atitudes de quem está a ser entrevistado e que podem fornecer mensagens subliminares.
A entrevista como coleta de dados sobre um determinado tema é a técnica mais usada no trabalho de campo, sendo, de acordo com Yin (2005), uma das fontes de informação fundamentais nos estudos de caso. Trata-se de um instrumento excelente para captar a diversidade de descrições e interpretações que as pessoas têm sobre a realidade, dado que as respostas de cada entrevistado vão refletir as suas perceções e interesses, tornando mais rica e fidedigna a posterior análise de conteúdo.
Como defende Flick (2004), uma das situações em que se deve recorrer à entrevista é quando o investigador tem questões relevantes, cuja resposta não se encontra na documentação disponível ou, tendo essa informação, não lhe parece fiável, precisando de a comprovar.
Existem diversas modalidades de entrevista e distinguem-se pelas características e procedimentos que adotam, sendo as mais comuns a entrevista em profundidade ou estruturada, a semiestruturada e a aberta (Mason, 2002; Aires, 2011).
A primeira é elaborada com recurso a um questionário bem estruturado, com questões redigidas antecipadamente e seguidas, no decurso da entrevista. Pelo contrário, na entrevista aberta, o entrevistado conversa sobre um tema sugerido, de uma forma mais livre. Na semiestruturada, o entrevistado vai respondendo às questões colocadas
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pelo entrevistador, como se fosse uma conversa informal, mas há um guia que está a ser seguido, embora não de uma forma rígida.
Uma das grandes vantagens da entrevista semiestruturada é a de que, não obedecendo a uma ordem preestabelecida, vai permitir maior flexibilidade ao entrevistador na gestão da conversa, colocando as perguntas no momento mais adequado, conforme as respostas vão surgindo, proporcionando ao entrevistado um melhor encadeamento e espontaneidade de ideias (Flick, 2004). Tal não implica que na preparação da entrevista não sejam adotados todos os procedimentos, como definição de objetivos, redação de um guião, contactos prévios com os possíveis entrevistados para agendar horários, locais de realização e acertar detalhes.
Ao optar pela realização de uma entrevista semiestruturada, partimos de pressupostos iniciais de que se trata da melhor instrumentação para o nosso estudo, viabilizando o desenvolvimento da pesquisa, a recolha de dados subjetivos e também objetivos, a análise e discussão dos resultados, seguindo o parecer de Bogdan e Biklen (1994, p. 134)
Em investigação qualitativa, as entrevistas podem (…) constituir a estratégia dominante para a recolha de dados ou podem ser utilizadas em conjunto com a observação participante, análise de documentos e outras técnicas. Em todas estas situações a entrevista é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspetos do mundo.
No que concerne à preparação das entrevistas, foram produzidos dois guiões, especificamente para este estudo, um para ser aplicado junto dos professores de EE que acompanhavam os alunos do ensino secundário com CEI/PIT, o outro para servir de guia à conversação com o diretor do Agrupamento. Como o próprio nome indicia, trata- se de tópicos de apoio a uma entrevista semiestruturada que, no decorrer da conversação, orientaram a entrevistadora para que não se dispersasse das questões centrais a indagar. O planeamento e a elaboração dos guiões, tarefa morosa e complexa, tiveram por base a revisão da literatura e os objetivos definidos para o estudo, cientes de que um roteiro bem concebido é a chave para o sucesso de qualquer entrevista.
Ambos os guiões são constituídos por questões abertas, com o intuito de deixar que os entrevistados se expressem livremente, descrevam a realidade, mas apresentem também as suas ideias e opiniões, enquanto o entrevistador vai gerindo, vai reajustando
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as questões e direcionando o diálogo, em função daquilo que se pretende e dos objetivos definidos, mas como se de uma conversa informal se tratasse.
Na opinião de Aires (2011), a entrevista envolve um sistema de comunicação em que entrevistador e entrevistado se podem influenciar, de forma consciente ou inconsciente, cabendo ao entrevistador a condução da conversa, com um certo sentido lógico, de acordo com o assunto que lhe interessa.
Quanto à estrutura, o guião da entrevista aos professores de EE (Apêndice 1) contém 43 questões divididas em três grupos.
No primeiro grupo, procura-se recolher alguns dados profissionais dos entrevistados, aspetos importantes, pelo facto de poderem influir no seu desempenho profissional.
No segundo e terceiro grupos encontram-se as questões estruturantes da investigação que visam a obtenção de informações através de relatos de experiências, opiniões e sugestões dos próprios entrevistados.
Deste modo, no segundo grupo intitulado: Inclusão em contexto escolar – alunos com CEI/PIT no ensino secundário, a tónica está precisamente no termo “inclusão” e nas medidas que são levadas a cabo pela escola para que estes alunos sejam parte integrante do sistema e se sintam incluídos, na verdadeira aceção da palavra. Entre os temas deste grupo, destacam-se a caracterização global dos alunos, a escolha do curso e da turma onde eles se encontram e a dimensão pedagógica, fatores que remetem para a inclusão educativa.
No terceiro grupo: Transição dos alunos para a vida pós-escolar dos alunos com CEI/PIT no ensino secundário, o enfoque está na “transição” e na forma como a escola lida com todo este processo, com vista à futura inclusão dos alunos na sociedade, desempenhando uma atividade profissional. Neste grupo encontram-se temas como: organização do PIT; desenvolvimento de atividades em contexto laboral; integração no mercado de trabalho.
O guião da entrevista ao diretor (Apêndice 2), com uma extensão mais reduzida, é constituído por um grupo de questões-guia, com o intuito de se perceber a intervenção da direção, as medidas implementadas, bem como as dificuldades sentidas na inclusão dos alunos com CEI/PIT em meio escolar e na transição para a vida ativa.
No que diz respeito aos entrevistados, foram auscultados todos os professores de EE que apoiam os alunos com PIT e o diretor de Agrupamento, como forma de se
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delimitar o campo de estudo, dentro daquela unidade específica, estabelecendo-se, contudo, uma interligação destas partes com o todo (Bogdan & Biklen, 1994).
Todos os sujeitos contactados manifestaram disponibilidade e interesse em colaborar no estudo, contando-se com a participação do diretor do Agrupamento de Escolas, entrevistado 4 (E4_D), e de três professoras do grupo de recrutamento 910, Educação Especial 1, com especialização em Educação Especial – Domínios Cognitivo e Motor, diretamente envolvidas na lecionação aos alunos com PIT.
A formação inicial das docentes é diversificada, sendo uma da Educação Pré- Escolar, do grupo 100, entrevistada 2 (E2_P2). As outras pertencem ao 3.º Ciclo do Ensino Básico e Secundário, uma do grupo 320, entrevistada 3 (E3_P3), Português/Francês, a outra do grupo 330, Português/Inglês, entrevistada 1 (E1_P1).
Trata-se de professoras contratadas, sem vínculo com o Ministério da Educação (ME), contam com vários anos de serviço docente e com experiência profissional na EE, entre dois e cinco anos de serviço. A média de idades das docentes é de 39 anos. Uma das professoras encontra-se, no presente ano, pela primeira vez no Agrupamento, outra está no segundo ano consecutivo, a terceira conta com três renovações sucessivas de contrato, no Agrupamento, como apresentado no Quadro IV.1
Quadro IV.1 – Caracterização sociodemográfica dos professores entrevistados