CAPÍTULO IV Descrição do Estágio
Anexo 5: Entrevistas
5.5. Entrevista Nuno Rodrigues – editor da Tarde
Qual a importância dada às peças de cultura pelo turno da tarde?
É significativa e muito válida, sendo que por tradição, o turno da tarde é um turno mais virado para a atualidade informativa e para a atualidade de outras áreas, mais virada para outras áreas: política, economia, sociedade. E portanto, por tradição, as peças de cultura são mais dirigidas ao turno da manhã 1. Isto significa o quê? Que em termos de planeamento do turno da tarde, a área cultura é um pouco mais desvalorizada tendo em conta outras áreas. Por opção e porque a informação também nos leva para aí, porque há mais coisas a acontecer durante a tarde e a tendência é para canalizar o trabalho da editoria de cultura para turnos com menos fluxo de informação (para a manhã 1 e também manhã 2).
Sempre que é possível o trabalho cultural e da editoria de cultura é valorizado em antena também no turno da tarde. Mas sim, há outras áreas que neste turno especificamente são mais valorizadas digamos assim, porque isso está relacionado com a linha editorial da própria rádio.
Qual é para o vosso turno, a função da editoria de cultura, uma prestadora de serviços ou as sugestões dadas por eles acabam por ser tidas em conta?
A ligação entre editorias é exatamente igual entre todas. As coisas funcionam com a editoria de cultura da mesma forma que funciona com a editoria de economia, de política, ou seja, cada uma das editorias tem um coordenador, que tem a autonomia de marcar a agenda da área que coordena e para fazer sugestões que normalmente são cruzadas e são conversadas com a respetiva editoria de turno, portanto, pela equipa responsável por meter esse trabalho no ar. E funciona em dois sentidos: as sugestões e as propostas de trabalho partem muitas vezes neste caso da editoria de cultura, mas também, há momentos em que partem da própria editoria de turno que acham que há determinado tema cultural, ou não, interessante, e desafia a editoria responsável por essa área, para concretizar esse trabalho.
Portanto, não há esse regime de prestação de serviços, não funciona assim. Todas as editorias têm a sua autonomia, traçam a sua agenda da área específica, sempre com a coordenação com as restantes editorias e em particular com as editorias de turno, que são responsáveis por meter esse trabalho no ar.
Acerca da comunicação que existe entre os turnos e a editoria, existe regularmente? Como é que é feita?
É fundamental. Há várias reuniões que acontecem entre equipas, na rádio e na antena 1 em particular. Há uma reunião específica que acontece todas as semanas, em que cada uma das editorias traça o plano, a agenda para a semana seguinte. E isso é feito em coordenação e com base no entendimento que é alcançado e que é conversado durante esse encontro. Depois há as situações mais específicas, situações que fogem um pouco da agenda e que vão surgindo, de um dia para o outro, ou de uma diferença de dois dias por exemplo e há sempre uma conversa feita, entre os coordenadores de uma determinada área neste caso da cultura e os editores de turno. Há sempre um diálogo e há sempre uma conversa prévia, na preparação do trabalho. E há um terceiro ponto, que é uma confiança, digamos assim, um respeito pelo trabalho de cada uma das editorias e pelo que é sugerido pelo coordenador de uma determinada área. Se ele é responsável por aquela área e entende que há um determinado tema que deve ser tratado, essa vontade normalmente é respeitada, é discutida, é debatida, nomeadamente com os editores de turno. Mas essa autonomia, digamos assim, é respeitada, e isso é válido para a cultura e para todas as áreas.
Quais os critérios importantes e a ter em conta para passar uma peça de cultura em antena?
É um pouco desse fatores que referiste e outros. O tempo não é, obviamente, o principal critério, mas é um dos critérios, e é fundamental por uma razão simples, é quase matemática, o tempo do noticiário está definido e nós temos de distribuir esse tempo por todos os assuntos que queremos tratar e abordar num determinado noticiário. Ou se quiseres, ao contrário, temos de distribuir os temas pelo noticiário, pelo tempo de noticiário disponível.
Depois sim, a importância, o que eventualmente pode dizer às pessoas. Eventuais ligações entre aquele trabalho relacionado com a cultura neste caso e a atualidade, o que está a acontecer naquele momento: uma peça de teatro sobre crise económica, por exemplo, é um trabalho que encaixará mais facilmente, por estes dias no noticiário. Não há um único critério específico, são variadíssimos critérios e entre eles a relevância do acontecimento e o que diz às pessoas.
É importante existe Jornalismo Cultural na rádio?
É fundamental, pra já porque caminhamos cada vez mais para a especialização e isso é válido para a cultura e para todas as áreas. É sempre melhor ter alguém de uma determinada área que acompanha a agenda daquela área, que acompanhe os temas relevantes daquela área e que com essa especialização e esse acompanhamento permanente adquiri um conhecimento que depois lhe permite definir e agendar o trabalho daquela editoria do que ter uma pessoa, com responsabilidade de várias áreas e que acaba por tentar tocar todos os canarinhos ao mesmo tempo, e algo vai ficar sempre para trás.
Há cerca de um ano e meio que acabou o magazine cultural que existia na Antena 1. Neste momento, achavas relevante que voltasse a existir esse magazine cultural?
Era muito válido. Neste momento não existe, já existiu. E passa tudo por aposta que são feitas em determinados momentos. É obvio que seria ideal e seria bom que cada área e que cada editoria tivesse um espaço próprio. A grande reportagem tem um espaço próprio, nós temos a reportagem não só nos noticiários, há um espaço próprio para a grande reportagem. Há um espaço próprio para o desporto, há espaço próprio e direcionados apenas para a área de economia, e faz todo o sentido que exista um espaço próprio também para a cultura. Porque só com os noticiários, só com o tempo disponível para os noticiários, não é possível tratar essa área particular, a cultura, de uma forma satisfatória, de uma forma relevante. E por isso, tudo depende da linha editorial que é traçada, que é traçada pela rádio, pelos coordenadores, e em primeiro lugar também pela direção de informação. Mas eu defendo que, ter espaços específicos para cada área e em particular para a cultura, é de enorme relevância.
Qual o futuro do Jornalismo Cultural na rádio e na Antena 1?
Bom, tudo vai depender do que acontecer a este meio em particular, o meio radiofónico nos próximos anos. Para responder a essa pergunta é preciso saber que meios vamos ter, meios nomeadamente, humanos, pessoas. E isso é válido para a cultura e para todas as áreas. A área cultural é tão ou mais fundamental do que outras áreas, precisa de ter pessoas disponíveis e com missões especificas para trabalhar cada uma das áreas e para trabalhar as áreas especificas. Agora também sabemos que a situação é muito complicada. Basta vermos o que está a acontecer na imprensa, nas televisões e também na rádio. E portanto, a tendência pelo menos nesta fase, e acredito que há períodos melhores e períodos piores, nesta fase, todas as áreas são tratadas um bocadinho de forma mais superficial, é uma
questão de esperarmos atá haver condições de termos mais meios e mais pessoas e podermos dar um futuro, digamos assim, em termos de tratamento, não só à cultura, como todas as áreas, um futuro risonho e trata-las da forma mais conveniente possível.