PARTE 2 – O CONTEXTO EMPÍRICO DO ESTUDO
4. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS OBTIDOS
4.4 Entrevista realizada com a professora titular
No momento em que foi realizada a entrevista, a professora titular não residia na mesma localidade onde se situava a escola onde lecionava, deslocando-se todos os dias da semana para a mesma, perfazendo uma média de 70 km/dia (ida e volta). Possuía trinta e um anos de serviço, quatro deles no Agrupamento Vertical de Escolas onde decorreu a investigação, exercendo o cargo de professora titular da turma em análise.
A professora entrevistada referiu gostar “imenso de ler”, porque com a leitura “viaja,
conhece e sonha”, costumando ler livros “sempre que pode”, embora lamentasse que
“infelizmente lê pouco” porque “não tem tempo” revelando em jeito de desabado que o
professor era bombardeado com burocracia restando-lhe pouco tempo livre para se dedicar a outras atividades, como por exemplo ler. Referiu que preferia ler “romances” e “livros técnicos
sobre a atualização do ensino” porque “adora histórias com finais felizes” e porque “gosta de adquirir conhecimentos sobre o ensino em geral”. Declarou não existir nenhum tipo de livro
que não gostasse de ler, embora não lhe seduzissem os “policiais”. Disse que não conseguiu especificar, até hoje, quais os tipos de livros que gostou mais de ler (“gosta de ler imensos”).
Quanto à aquisição, declarou ter por “hábito comprar livros” “para si, marido, filhos e
pessoas amigas”, pois considera que todo bom professor é um bom leitor (“um bom professor deve ser um leitor e um estudante permanente”).
Quando perguntamos se era leitora da BE em estudo, respondeu positivamente, mas afirmou que o era dentro da sala de aula. Achava a biblioteca bem apetrechada (“imensos livros
e os técnicos são muito simpáticos e competentes”) e disse que requisitava, “esporadicamente”
e “sempre que pode e necessita”, livros que não faziam parte da leitura orientada em sala de aula. Estes livros eram para “ler” e para “complementar algum tema a explorar com os
alunos”. Referiu que era costume procurar esta Biblioteca para participar em atividades com os
seus alunos, nomeadamente, “ateliês de leitura, escrita e expressão plástica”. Estes ateliês, na altura, eram desenvolvidos por técnicos da BE com turmas da escola. Participava neste género de atividades “sempre que são promovidas”, talvez “duas a três vezes por período”.
Declarou que “Não” era leitora da BM do Concelho por “falta de tempo” e que também
“não” costumava procurar esta biblioteca para desenvolver atividades. Não o fazia por várias
razões (“porque o percurso a pé entre a escola e a Biblioteca Municipal é longo e não há
transportes disponíveis; porque a escola é muito solicitada com diversas atividades e não de pode participar em todas, pois há um programa a cumprir e a necessidade de preparar os alunos do 4º ano para as provas de aferição”). Também declarou “não” ser leitora de outras
bibliotecas municipais por “falta de tempo”, preferindo “comprar livros para ler em casa” do que se deslocar a estes espaços.
Em relação ao PNL, achava que era “bastante importante, principalmente porque
obriga todos os professores a debruçarem-se sobre a leitura, a partilhar opiniões e desenvolver hábitos de leitura nos alunos”. Confirmou que o PNL era implementado na escola, sendo
promovido através de “dramatizações, elaboração de textos, anúncios e poemas”. Para dar cumprimento às exigências deste plano a professora diz que tentou “documentar-se e assim
pensa ter realizado um trabalho razoável”.
Na sua opinião deviam fazer parte deste plano todas as “atividades que contribuam
para o desenvolvimento e aquisição de conhecimento” e os intervenientes a participar deviam
Também referiu que este plano contribuiu para a melhoria das suas práticas pedagógicas, pois “houve um contacto mais sistemático com o livro e o praticar a leitura diária
contribuindo para que pudesse explorar melhor todos os temas a lecionar”.
Na turma implementou “diariamente” o PNL através de atividades como: “leitura
silenciosa e coletiva; dramatizações; representações simbólicas e pictóricas de histórias; poemas; canções; avisos e exposições que sempre tentou realizar com alegria e empenhamento”, avaliando que conseguiu favorecer a criação de hábitos de leitura nos seus
alunos (“através destas atividades os alunos são estimulados e manifestaram o desejo de ler
sempre mais requisitando livros na Biblioteca Escolar. Desenvolveram competências ao nível da oralidade, da escrita e da compreensão”).
Mencionou que nas reuniões de EE tinha o costume de referir os benefícios dos pais lerem histórias para os educandos (“sempre que pode”, tal como disse) e os benefícios dos alunos lerem livros. Segundo disse, esta menção foi efetuada em todas as reuniões desde o 1º ano de escolaridade (“Sempre referi que os alunos deviam ouvir histórias, observar imagens e a
partir daí informei-os que era importante os alunos requisitarem livros, sobretudo no período de férias”). Admitiu que nessas reuniões não tinha o costume de sugerir atividades de estímulo
da leitura em família, alegando problemas em o fazer (“porque os pais/encarregados de
educação têm uma vida muito atarefada e não podem dispensar tempo para essas atividades. Além disso, os alunos são oriundos de aldeias muito distantes da escola e por esse motivo têm que sair muito cedo de casa e regressam muito tarde”).
Sendo assim, a professora referiu “que não é fácil através do Plano Nacional de Leitura
ou através de qualquer outro projeto favorecer a criação de hábitos de leitura no meio familiar dos seus alunos. Existem os que leem bastante e esses conseguem-se motivar ainda mais, mas também temos encarregados de educação que não se conseguem incentivar por falta de tempo e existem outros que mal sabem ler”.
Desde o 1º ano que fez propostas de atividades na escola no âmbito da promoção da leitura onde participassem alunos e pais ou outros familiares, mas considerou que para os encarregados de educação era difícil participarem, pelo facto de não viverem na cidade onde se localiza a escola dos seus educandos e terem profissões que não lhes permitiam estar presentes em atividades na escola durante o período letivo.
Referiu que “fiz tudo o que estava ao meu alcance para promover a leitura
independentemente do Plano Nacional de Leitura. Como já disse, este plano veio reforçar os hábitos de leitura diária para professores e alunos dentro da sala de aula, mas independentemente do plano, na sala de aula destes alunos lêem-se histórias, pratica-se o reconto oral, elaboram-se poesias, fazem-se dramatizações entre outras atividades”.
Na sua opinião, se a leitura orientada em sala de aula fosse efetuada por um técnico/bibliotecário ou outro professor (AEC) “iria permitir desenvolver-se outro tipo de
leitura e de iniciativas, pois teriam formação específica para o efeito e iria enriquecer o conhecimento dos alunos e do professor titular, porque com os programas curriculares extensos e toda a burocracia (avaliações) o professor deixa de ter tempo para se dedicar a outras atividades.