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CAPÍTULO 3: METODOLOGIA

3.4. MÉTODO DE COLETA DE DADOS

3.4.2 Levantamento de campo

3.4.2.2 Etapa 2 Levantamento de dados avaliativos

3.4.2.2.2 Entrevista semiestruturada e o método visual

A entrevista foi executada no grupo de idosos institucionalizados, a partir de um roteiro semiestruturado, a fim de investigar os processos de agência e de pertencimento. O processo de agência foi verificado com base no uso e comportamento nos ambientes, através das categorias: possibilidade de locomoção, mudanças e atividades exercidas. O processo de pertencimento foi verificado a partir da investigação de elementos e atributos presentes no ambiente, através das categorias que compõem o Significado de Casa: aspectos físicos, aspectos sociais e aspectos pessoais.

A entrevista foi organizada em quatro conjuntos de questões que trataram: 1) do ambiente geral da instituição; 2) e 3) dos ambientes específicos do estudo - dormitório e sala de estar – respectivamente; 4) das atividades exercidas nos ambientes.

O método visual foi introduzido para obter informações sobre a percepção dos idosos, para possibilitar a evidência dos anseios e necessidades e esclarecer o que é possível mudar e/ou melhorar nos ambientes. O material visual consiste em um conjunto de imagens fotográficas de móveis para dormitório, amostras de revestimentos e paleta de cores.

Segundo Reys e Lay (1995), é necessário definir os traços físicos a serem observados e como serão utilizadas as informações obtidas para que seja feita a escolha das técnicas de registro. Para o registro das entrevistas aplicadas, a técnica utilizada foi a anotação verbal, auxiliada pelo uso de gravador, de forma que não se perdessem informações relevantes durante o processo de entrevista.

3.4.2.2.2.1 Critério de seleção de material visual para entrevista

As imagens foram relacionadas aos ambientes estudados. Para o dormitório, foram selecionadas fotos com diferentes tipos de mobiliário, com distintos acabamentos e a paleta de cores. Para a sala de estar, foram selecionadas amostras de tecidos para revestimento de estofados e a paleta de cores. O critério da escolha das imagens e revestimentos foi a observação do tipo de mobiliário encontrado em dormitórios e salas de estar de instituições e a experiência profissional da pesquisadora em atendimento ao público idoso referente à escolha de mobiliário residencial. Como exemplo, utilizou-se a imagem de um dormitório padrão, geralmente composto por cama de solteiro, criado mudo, roupeiro pequeno e poltrona (Figura 3.18). Essa imagem foi apresentada aos idosos para justificar os itens que foram mostrados na sequência. De acordo com essa imagem, foram selecionadas fotos reais de móveis, segundo os materiais utilizados (madeira, metal e estofamento) e o estilo formal (Figura 3.19).

Figura 3.18: Imagem de um quarto, com mobiliário geralmente utilizado em dormitórios institucionais. Fonte: da autora.

a) b)

c)

d)

Figura 3.19: Imagens do mobiliário apresentadas aos idosos: a) opções criado mudo; b) opções de roupeiro; c) opções de poltronas; d) opções de camas. Fonte: Google, 2016

Os móveis mais representativos na sala de estar em instituições são sofás e poltronas. Portanto, foram escolhidas três amostras de tecidos para revestimentos caracterizadas por diferentes texturas, o veludo (de textura mais aveludada), um impermeável (de textura mais áspera) e um couro sintético (de textura mais fria), todos em cores neutras (Figura 3.20). Os idosos eram convidados a tocar nestes revestimentos.

a) b) c)

Figura 3.20: Imagens dos três tipos de revestimentos apresentados: a) impermeável; b) couro sintético e c) veludo. Fonte: da autora.

Quanto à escolha das cores, foi feito um procedimento anterior: um estudo piloto com o método visual, por meio de imagens de ambientes de dormitório e sala de estar com diferentes nuances de cores nas paredes. Observando essas imagens, os idosos deveriam escolher os ambientes em ordem de preferência. No entanto, neste estudo verificaram-se algumas dificuldades: (i) encontrar imagens de ambientes

reais sem que os elementos componentes interferissem na avaliação (presença de janela, plantas, entre outros); (ii) imagens com boa resolução que pudessem ser impressas em um tamanho adequado para idosos com limitação visual; (iii) os idosos acabavam escolhendo mais pelo conjunto do ambiente do que pelas cores na parede. Por este motivo, priorizou-se mostrar diretamente uma paleta de cores aos entrevistados.

A seleção da paleta de cores foi condicionada à faixa etária de participantes da pesquisa e ao local de aplicação. Quanto à faixa etária, considerou-se que, no processo de envelhecimento, a percepção da cor pode ser alterada, pois um dos órgãos mais afetados é o responsável pela visão, especialmente por estar exposto a ações externas e internas, como poeira, luz, doenças, entre outros, ao longo dos anos (MENDES, 2008). Diante disso, as imagens foram impressas em tamanhos grandes, com várias nuances de cores, com diferentes tipos de claridade e saturação (Figura 3.21). Quanto ao local de aplicação, considerou-se o uso nas paredes da instituição, pois é a partir delas que geralmente se mudam as cores. Também é neste local que se encontram as aberturas, quadros e outros elementos que compõem a ambiência. Por serem emoldurados pelas cores das paredes, esses elementos podem ser destacados e transformados a partir dessa mudança.

A paleta foi definida abrangendo diferentes matizes com claridades variadas e escolhidas a partir do sistema cromático internacional Natural Color System (NCS). Resultou na paleta cromática que se verifica abaixo:

Figura 3.21: Paleta cores. Fonte: da autora

3.4.2.2.2.2 Procedimentos de aplicação da entrevista

As entrevistas ocorreram, preferencialmente, no período da tarde. Optou-se por este turno em função das recomendações das Instituições. Segundo os funcionários, os idosos geralmente não gostam de receber visitas, nem de mudanças na rotina durante a manhã. É o horário que acordam, tomam banho e se preparam para o

almoço. Já no turno da tarde, logo após a sesta, eles estão mais receptivos e dispostos.

Ao aceitar o convite para participar da entrevista, era solicitado ao idoso que escolhesse o local que se sentisse mais à vontade. Alguns optaram por serem entrevistados no seu próprio dormitório, outros na sala de estar, corredores ou varanda. As entrevistas duraram em média quarenta minutos, embora algumas chegassem próximo a duas horas.

O número de idosos institucionalizados que participaram das entrevistas semiestruturadas foi reduzido pela dificuldade de encontrar pessoas sem comprometimento cognitivo e funcional e pela pouca disponibilidade de participação. Por esses motivos, decidiu-se por aplicar o poema dos desejos aos idosos não residentes em ILPI´s.

3.4.2.2.3 Poema dos desejos e o método visual: recorte de revistas

A intenção de usar o poema dos desejos foi a possibilidade de desvendar, através de declarações espontâneas que compõem um conjunto de informações ilustrativas, um perfil representativo dos desejos e demandas do conjunto de usuários de um determinado ambiente, como uma ILPI, por exemplo.

O método poema dos desejos, neste trabalho, foi adotado para identificar quais atributos (cores e tipo de iluminação) e elementos (móveis, quadros e outros objetos decorativos) do ambiente ligados à preferência estética são importantes para os idosos não residentes em instituições, considerando os ambientes - focos do estudo - o dormitório e a sala de estar.

Segundo Del Rio et al (1999), a identificação do imaginário coletivo em relação àquele contexto experienciado pelos usuários, a partir dos “poemas”, contribui para a construção do que seria a imagem ideal do ambiente (DEL RIO et al, 1999 apud RHEINGANTZ et al., 2009)

Considerando os estudos que evidenciam uma forte dificuldade de os idosos se expressarem, o método foi efetivado de duas formas: escrita e por meio de montagens das imagens recortadas.

Na primeira, a pesquisadora foi até o CETRES, e,durante uma tarde, explicou aos idosos de três oficinas distintas o objetivo do trabalho e entregou a cada um dos interessados duas folhas A4 impressas, cada uma com a seguinte frase: “Se eu morasse em uma instituição de longa permanência para idosos, EU GOSTARIA QUE MEU QUARTO FOSSE...” e “Se eu morasse em uma instituição de longa permanência para idosos, EU GOSTARIA QUE MINHA SALA FOSSE...”. Foi solicitado que cada idoso levasse a folha impressa para casa e trouxesse de volta em uma semana. Nela, escreveriam livremente seus desejos e colocariam a identificação do sexo e da idade. As folhas foram distribuídas para vinte idosos, dos quais dez trouxeram de volta.

A segunda forma de aplicação do método foi realizada da seguinte maneira: a pesquisadora entrou em contato com o grupo de idosos do CETRES quinze dias antes da aplicação para explicar os objetivos da pesquisa, como seria feita e a data da aplicação do método. Neste momento, foi feito o convite para quem tivesse interesse em participar. O convite foi feito em duas oficinas do CETRES, de Estudos sobre o Envelhecimento Humano e de Contação de Histórias.

Participaram da dinâmica oito idosos, dois homens e seis mulheres. No dia da dinâmica, ocorrida durante a manhã, os idosos foram recebidos com um café em uma primeira sala (Figura 3.22). No momento em que todos haviam chegado, a pesquisadora explicou como seria realizada a dinâmica. Neste momento, para surpresa da pesquisadora, os idosos começaram a questionar diversos pontos em relação a moradias institucionais, curiosidades sobre rotinas e atividades realizadas. Posteriormente, eles foram convidados a se deslocar para a sala ao lado, onde o material para a dinâmica já estava montado. Ali, foram estimulados, pela pesquisadora, para que seguissem com seus questionamentos, que foram anotados.

Figura 3.22: Recepção dos idosos para apresentação do método. Fonte: da autora, 2018.

Para que fosse possível realizar a tarefa nas duas horas propostas, foram levados três grupos de imagens previamente recortadas: uma para quartos, outra para sala e um terceiro para recantos. As imagens foram recortadas, buscando abranger a maior variedade possível de estilos e cores. Formam levadas também revistas de arquitetura de interiores para que os próprios idosos pudessem recortar imagens que lhes agradasse. Essas imagens foram distribuídas em quatro mesas que comportavam dois idosos cada.

Cada participante recebia duas folhas de cartolina tamanho A2, onde poderia colar as imagens preferidas. Cada mesa tinha uma fita adesiva de cor diferente para fixar a imagem na cartolina (para facilitar a identificação dos grupos), uma tesoura e canetas coloridas para anotação de informações (Figura 3.23). Foi solicitado que, após a colagem das imagens, os idosos escrevessem nos painéis a justificativa para suas escolhas.

c) d)

Figura 3.23: Poema dos desejos com recorte de revista: a) disposição do material utilizado antes da chegada dos idosos; b) material utilizado na aplicação do método c) e d) idosos

montando os painéis. Fonte: foto da autora, 2018

A partir das colagens e dos desejos escritos obtidos com a aplicação do método poema dos desejos, foi obtido o imaginário coletivo desses ambientes (Figura 3.24). Todos os painéis elaborados pelos idosos participantes encontram-se no Apêndice D.

a) b)

Figura 3.24: Exemplo dos painéis elaborados por uma das participantes: a) dormitório, b) sala de estar. Fonte: Foto da autora, 2018

De modo geral, a tabela 3.4 mostra os grupos e quais métodos foram aplicados.

Tabela 3.4: Grupos estudados. Fonte: da autora, 2018.

Grupos Oficina de estudos sobre envelhecimento humano GRUPO 1: Idosos Institucionalizados Grupo 2: Idosos não institucionalizados

Métodos aplicados

observação comportamental e anotações feitas pela

pesquisadora

entrevista semiestruturada

poema dos desejos por

escrito com recorte de revistas

Número de