3. A REORGANIZAÇÃO SOCIAL DO TRABALHO: PRINCÍPIOS E
3.1 A CONSTRUÇÃO DAS POSSIBILIDADES
3.1.1 A Apreensão da Realidade
3.1.1.4 Entrevista setorial
Após a realização dos questionários com TAEs e chefias, os integrantes do GT Reorganiza puderam realizar o levantamento da real estrutura da IFES e categorizar as atividades dos TAEs em setores/serviços, o que permitiu a realização da etapa presencial e coletiva, denominada entrevista setorial que era um
[...] momento coletivo no qual os TAEs, organizados por grupos de setores ou atribuições similares, podem expressar-se sobre três dimensões temáticas principais: informações básicas do setor; planejamento e avaliação; e comunicação e transparência (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.48).
As entrevistas setoriais foram realizadas entre o dia 15 de abril e 10 de maio de 2013, sendo que foram coletados 87 depoimentos, contando com os obtidos no Projeto Fortalezas. Estas entrevistas começaram a ser realizadas dois dias antes do fechamento dos dados referentes aos instrumentos de obtenção de informações online, e três dias antes da última visita realizada aos conselhos de unidade dos centros de ensino.
É importante se ater a esse espaço temporal das ações, pois, verificaremos que as reuniões setoriais se mostram como o último espaço de aglutinação das forças políticas pela reorganização do trabalho e de esclarecimento desmistificador antes da entrega do relatório final do GT. Esta conotação pode ser notada quando nestas entrevistas
[...] puderam ser discutidas opiniões e experiências de forma ampla e aberta, sem a presença dos servidores em Cargo de Direção. Tratou-se de um momento no qual buscamos “dar voz” aos TAEs (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.69-70). Encontra-se este caráter também no roteiro da reunião setorial quando se aponta que
iniciava-se com a discussão sobre o setor, as atribuições, os usuários, horários de atendimento atual do setor e necessidades para atendimento de 12 horas ininterruptas. Posteriormente, debate sobre planejamento e avaliação, setorial e na UFSC. Finalmente, discussão sobre comunicação e transparência, setorial e da UFSC (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.71).
Para melhor explicar nosso ponto de vista destrincharemos os três pontos temáticos, ou dimensões, descritos no relatório do GT como norteadores da discussão. Primeiro (1) se esperava obter
informações básicas do setor: [que] contém dados relacionados aos horários de funcionamento e atendimento do setor; atividades e competências; usuários atendidos; e considerações sobre a jornada de trabalho de 30h semanais; (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.70).
Esta dimensão da reunião setorial buscava não somente obter as peças faltantes do quebra-cabeça da organização do trabalho naquele momento, mas também apresentar considerações a respeito da jornada de trabalho de 30 horas semanais, desmistificando o discurso dominante das impossibilidades dessa jornada nas IFES.
Segundo (2) se pretendia conseguir
traduzam como o TAE encontra-se inserido no processo decisório, se se sente/é valorizado e reconhecido em seu potencial; expressa a cultura do setor quanto ao seu constante aprimoramento; e envolvimento dos usuários nestes processos; (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.70).
Logo, este tema/dimensão da reunião setorial acabou por racionalizar os antagonismos gerados pela divisão hierárquica do trabalho e da ideologia que coloca os de “cima” como melhores capacitadas. Por meio desta racionalização se demonstrou a crise gerada pela personificação da autoridade85 no processo de trabalho e a subvalorização necessária dos de “baixo” para manter o sistema intacto, apesar de flexível.
E não só isto, mas demonstrou a exploração da ausência de conteúdo democrático quando se privam os trabalhadores e usuários do setor das decisões que são feitas pelos de “cima” desde o planejamento (ou falta de) do processo de trabalho; e a impossibilidade de auto- organização nos setores de trabalho, por mais limitada que ela pudesse se apresentar.
A última dimensão (3) era a
comunicação e transparência: procurou apresentar o enriquecimento profissional que ocorre na troca de experiências entre servidores docentes e TAEs e setores da UFSC; e aborda a forma como a comunicação interna e externa é realizada (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.70).
Este tema se conecta diretamente aos anteriores, uma vez que a falta de comunicação e transparência é inerente ao modo de divisão do trabalho atual sob os imperativos do capital, já que comunicação e transparência, de fato, são instrumentos democratizantes e não podem ser utilizados sem prejuízos à ordem hierárquica.
Podem, no entanto, ser apresentadas sob suas formas 85 Para um debate aprofundado sobre a Crise de Autoridade ver o livro de
mistificadoras de participação e transparência que, como apontado por Mészáros (2004), estão sob a forma de “consultas que são imediatamente descartadas se forem contrárias ao poder dominante”.
Segundo o relatório do GT:
Cada uma destas dimensões norteadoras foi composta por subtemas que orientaram a discussão. Cabe destacar que, embora não de forma explícita nestas dimensões temáticas, buscamos abordar, também, o processo de participação do TAE no seu setor e na UFSC (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.70).
Assim como a discussão da participação do TAE foi importante para este processo de consciência, os ditames de não participação ou limitação desta também o foram, já que não havia como o status quo86 se manter impassível diante dos movimentos de aglutinação das forças pró- reorganização do trabalho. Como sintoma de que a ordem hierárquica não estava aquém desses movimentos políticos, indicamos a seguinte informação presente no documento analisado:
[…] em diversos momentos, alguns TAEs foram impossibilitados de participarem do momento no qual teriam essa oportunidade, devido às condições administrativas e políticas dos setores aos quais estão lotados (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.75). Mesmo com esses impeditivos inerentes ao antagonismo hierárquico e portanto previsíveis, ao se realizar a avaliação do instrumento de pesquisa o GT aponta que
baseados no princípio da isonomia e participação, as entrevistas setoriais foram realizadas de modo a atingir todos os TAEs da UFSC (com exceção daqueles em cargo de direção). Percebemos um 86 Entendemos o status quo como o conjunto metabólico próprio da
interesse grande e uma necessidade latente dos trabalhadores de serem ouvidos, dialogarem, trocarem experiências, e contribuírem para a melhoria do atendimento aos usuários, na Universidade (REORGANIZA UFSC: ISONOMIA PARA TODOS, 2013, p.75). Por fim, podemos avaliar que o instrumento de pesquisa (analisado neste subitem) alcançou suas metas tanto quantitativamente, com relação a participação de TAEs, como qualitativamente, com a aglutinação de forças em torno da propositura de reorganização do trabalho com implantação da jornada de 30 horas semanais e democratização da IFES.