Eu: O grupo Kamchatka cita que o espetáculo Kamchatka surgiu a partir de um workshop ministrado por você. Como foi o processo criativo que originou esse espetáculo?
Adrian Schwartzstein: O grupo emergiu de um workshop de teatro de rua que fiz em 2006 no Festival de Poblenou em Barcelona, como exercício final, fizemos o que depois se converteu em um espetáculo, depois de muitos ensaios, testes, fracassos e investigação constante de como criar personagens verdadeiros e que tiveram com o público uma relação direta...
Eu: Na sua opinião, quais foram os elementos fundamentais para a criação desse espetáculo? A.S.: Os elementos básicos são o trabalho de grupo, a escuta e a concentração, essa é a técnica, mas também a generosidade de deixar que outra pessoa proponha e, sobretudo, ser coerente com a história, um grupo de emigrantes. O que procuram? Comida, casa, família, uma sociedade nova para descobrir...
Eu: O que você considera que seja a base desse espetáculo?
A.S.: A chegada de um emigrante a outro lugar, distante, onde os códigos sociais são totalmente diferentes. Pensava muito nos meus avós, que no início do século XX emigraram para a Argentina de países muito diferentes da Europa Oriental, quer pelo idioma, pelo clima e pelos costumes...
Eu: Na sua opinião, o que é a “presença” para um ator?
A.S.: Ser verdadeiro, ou seja, aquele que não está atuando e sim está vivendo (e fazendo viver) essa experiência, por mais simples que seja. Mas, ao mesmo tempo, pensar no que está fazendo, qual será o efeito que os 8 provocarão na rua, algo que eu chamo “a inteligência do ator”, que domina bem (manipula) o público, o espaço, o timing e, sobretudo, entende e sabe carregar a proposta (quase todo o espetáculo é improvisado).
Eu: Qual a importância do “aqui e agora” para o ator dentro de um processo criativo?
A.S.: É fundamental pensar no aqui e agora: o ator tem que imaginar que acaba de chegar, desembarcar no lugar da atuação depois de uma longa jornada desde Kamchàtka e, a partir de estímulos externos, mover-se por essa nova dimensão e geografia em que está imerso nesse momento... O que faríamos, qualquer um de nós, se uma nave espacial nos raptasse e nos deixasse em outro planeta!
Eu: Fale um pouco sobre a relação, no espetáculo, entre estruturas preestabelecidas e improvisação.
A.S.: A estrutura estabelecida é o trabalho de grupo dos Kamchàtkas, a escuta entre eles. Quem propõe, toma a responsabilidade de levar o grupo e, a todo momento, pode este trocar de lugar com outro membro do grupo, que tem uma proposta mais coerente e direcionada a conseguir comunicar uma ação, por exemplo: ver alguém em uma varanda ou janela e verificar que é fácil subir ali, é seguro e que a pessoa se comunicou com eles... Isso acontece bastante, portanto ações como esta estão na bagagem artística e lógica do espetáculo, a forma e o resto variam a cada vez, mas há um dramaturgia onde, depois de anos, os atores sabem como reagir ou provocar reações segundo a proposta!
Eu: Qual a importância do jogo nesse espetáculo?
A.S.: Repito que não se atua, se É, ou seja, o ator tem que acreditar que é de verdade um emigrante e, antes de sair, imaginar-se em jornada.
Eu: Qual a importância da escuta para os atores?
A.S.: Esta é a base de Kamchàtka, o mais importante, a escuta, 100% escuta!
Eu: Qual foi a relação desenvolvida entre os atores, técnica e treinamento na construção deste espetáculo?
A.S.: Quantidade de improvisações, saídas para a rua, exercícios com finalidades tão diversas como: AJUDAR O PRÓXIMO... E, em cada espetáculo, ter alguém observando de fora, anotando as coisas que, em nossa opinião, no espetáculo que está sendo realizado são boas e, sobretudo, as ruins...
Eu: Qual a relação entre silêncio e presença?
A.S.: São 8 em cena, mas são 1+1+1+1+1+1+1+1 = 8, oito individualidades que juntas formam um grupo forte e compacto... Portanto, a presença é muito forte...
O não falar, esse silêncio, esse “não entendo o seu idioma”, provoca no público o desconcerto. A aproximação do desconhecido provavelmente provoca rejeição (é normal), mas, sobretudo, provoca generosidade.
Eu: Houve a intenção por parte de vocês de se construir uma narrativa no espetáculo?
A.S.: Sim, claro que sim, para mim, embora pareça que nada acontece, tem que haver uma história nesse nada acontece, a espera, a imobilidade. Ainda mais nessa sociedade histérica, isso é um forte e teatral contraste.
A.S.: Sim, tinha que haver um sentido e um objetivo, a relação ator-público, onde essa pessoa realiza ações às vezes muito simples e banais, com uma sensação de fazer algo grande... Finalmente, depois de tudo, cada coisa nesta vida pode ser algo fundamental!
Eu: Podemos ver que a sintonia entre os atores durante o espetáculo é muito grande. Como foi a preparação para se chegar a essa sintonia?
A.S.: Horas e horas de trabalho conjunto, de ver além da vista e escutar além dos sons... Ter a capacidade de visão e escuta em 360 graus... Exercício atrás de exercício, o grupo aprendeu a abrir horizontes...
Eu: Como os atores lidaram com o corpo durante a preparação para o espetáculo?
A.S.: Aquecimento físico, primeiro, exercícios de coordenação, dominar o espaço, a mala... Enfim, toda uma série de exercícios para que o corpo e a mente trabalhem em uníssono. Eu: Você diria que os atores desse espetáculo desenvolveram um estado de recepção com relação ao meio que os cerca?
A.S.: É como se ativassem uma antena invisível e, sobretudo, às vezes parece que veem em raios X, a energia é, muitas vezes, tão alta que os resultados são surpreendentes, inclusive para eles mesmos!
Eu: Quais os elementos de trabalho que não podem faltar a um ator em um espetáculo como esse?
A.S.: Muitíssima generosidade e capacidade de escuta.
Eu: Na sua opinião, o que é fundamental para que um ator alcance a “presença”?
A.S.: No primeiro exercício, no primeiro dia de minha oficina de teatro de rua, trabalho fisicamente a presença do ator, o equilíbrio entre seu corpo e os outros, sua pessoa e o espaço e, certamente, o conhecer seu corpo e seus limites para poder atuar sem “medos”.