• Nenhum resultado encontrado

LOCAL Hospital Unidades de

3.3. PROCEDIMENTOS E INSTRUMENTOS

3.3.2.3. Entrevistas às PCAs

Após a avaliação/selecção feita e no sentido de envolver de igual modo todas as PCAs, independentemente da gravidade do seu quadro linguístico, optou-se por dois tipos de metodologia diferentes, ambas de base qualitativas, com base no grau de gravidade da afasia apresentado na escala de gravidade da BAAL:

 Com as PCAs que apresentavam um grau de gravidade de afasia inferior ou igual a 3 foi efectuada uma entrevista semiestruturada individual (total de 7 elementos da amostra).

 Com as pessoas que apresentavam um grau de gravidade de afasia na BAAL maior que 3 optou-se por efectuar a entrevista em grupo (total de 7 elementos da amostra).

Segundo o Modelo Social, a voz das PCAs deverá ser considerada na investigação, assim como deverão ser usados instrumentos adaptados que permitam essa participação (Rautakoski, Korpijaakko-Huuhka et al. 2008).

Entrevistar directamente as PCAs permitiu ouvir “dos próprios” as suas opiniões e experiências, enriquecendo deste modo o nosso estudo (Parr 1994; Worrall and Frattali 2000; Luck and Rose 2007; Davidson, Worrall et al. 2008). Segundo Carter e Henderson (2005), a flexibilidade das entrevistas semiestruturadas permite aos seus participantes falar livremente de áreas que para si são importantes, partilhar perspectivas e clarificar o seu significado. É contudo um processo que poderá ser difícil de executar, uma vez que a natureza da própria afasia interfere na capacidade que a pessoa tem de comunicar a sua perspectiva, podendo ser necessário recorrer ao uso de estratégias particulares para que ocorra uma comunicação com sucesso (Luck and Rose 2007).

O recurso às entrevistas em grupo, visa do mesmo modo determinar as percepções e opiniões dos participantes nas suas próprias palavras. Permite o encorajamento à interacção num ambiente natural, obtendo-se uma diversidade de opiniões e permitindo ao entrevistador clarificar determinadas questões (Avent, Glista et al. 2005).

Antes da realização das entrevistas e à semelhança do encontrado em estudos que utilizaram uma metodologia semelhante (Davidson, Worrall et al. 2008), foi elaborado para o efeito um guia de tópicos (ver Anexo 12) destinado a guiar a aluna de Doutoramento na exploração das questões consideradas pertinentes para o estudo. O seu conteúdo foi desenhado com base na revisão bibliográfica efectuada e relacionada com a temática em estudo.

Os tópicos explorados nestas entrevistas focaram aspectos relacionados com as consequências do AVC e da afasia ao nível das Funções e Estruturas do Corpo e nos níveis de Actividade e Participação da pessoa entrevistada, nomeadamente:

Quais as alterações ocorridas em termos de Funções e Estruturas do Corpo. Reacções/sentimentos às alterações provocadas pelo AVC. Importância atribuída a essas alterações. Estratégias utilizadas para lidar com essas alterações.

 Qual o impacto do AVC e da afasia nas suas vidas, i.e., quais as consequências do AVC na sua vida do dia-a-dia, quer ao nível das Actividades quer da Participação: Porquê ocorrem estas alterações; Barreiras encontradas; Factores Ambientais ou outros que dificultam a realização das Actividades e a Participação; Facilitadores encontrados.

Satisfação pessoal com o nível actual de Participação.

 O que gostaria de mudar e/ou fazer mais.

Considerou-se importante nesta fase, explorar as consequências dos AVCs e da afasia em todos os domínios sugeridos pela ICF (Corporal, Actividades/Participação e Factores Contextuais), de modo a compreender se efectivamente as PCAs também valorizavam aspectos relacionados com todos os seus diferentes componentes ou se apenas se focavam mais especificamente num deles, nomeadamente nas questões de base mais linguistica.

Foi elaborado um guião de entrevista para as PCAs (ver Anexo 13). Este guião foi concebido de forma a ser “amigável” para a PCA (aphasia-friendly) recorrendo a uma letra maior, frases curtas e simplificadas com realce a negrito das palavras mais importantes das mesmas e a algumas imagens pictográficas, de modo a ser mais facilmente compreendido o seu conteúdo (Luck and Rose 2007; Aleligay, Worrall et al. 2008; Davidson, Worrall et al. 2008). Continha, além da estrutura da sessão, a sequência dos tópicos a seguir durante a entrevista, permitindo à PCA ter uma melhor noção e controlo do estado da situação durante a entrevista.

3.3.2.3.1.Entrevista semiestruturada individual

À semelhança do ocorrido em outros estudos (Croteau, Vychytil et al. 2004; Luck and Rose 2007) as entrevistas semiestruturadas individuais foram efectuadas sem a presença dos F/A, de modo a evitar a sua interferência no desenvolvimento das mesmas. Todas as PCAs foram entrevistadas pela mesma pessoa, a aluna de Doutoramento. Cada entrevista teve uma duração de cerca de 30 minutos.

Com o objectivo de recolher o máximo de informações possíveis, considerando a gravidade da afasia apresentada por estas pessoas e de modo a facilitar os processos de comunicação, recorreu-se à Conversação Suportada (Kagan 1998; Ashton, Aziz et al. 2008).

Neste âmbito foram usadas estratégias como o uso de imagens, gestos, questões escritas, opções de resposta escritas, escalas analógicas de apoio, recurso ao desenho ou ao uso simultâneo de palavras escritas à fala para facilitar a

compreensão e expressão. Foi dado tempo extra de resposta para o processamento verbal e usadas questões de clarificação, recapitulação do que foi dito para confirmação do compreendido e repetição das ideias centrais de modo a facilitar a compreensão (Ashton, Aziz et al. 2008). Foi ainda incentivado o uso da comunicação total pela PCA, de modo a permitir um processo de comunicação facilitado e obter o máximo de opiniões/sugestões possíveis. Procurou-se sempre que necessário incentivar o uso do apontar, do gesto e do desenho, tendo para isso disponível papel e lápis. Incentivou-se ainda ao uso de livros de comunicação, quando existentes e foram preparadas algumas grelhas com opções escritas para possíveis respostas (ver Anexo 14).

Todas as entrevistas (individuais e em grupo) decorreram nas instalações dos HUC e foram gravadas recorrendo para o efeito a uma câmara de vídeo SONY – DCR-DVD306. A gravação foi efectuada com o objectivo de permitir a análise pormenorizada e interpretação posterior de todas as respostas dadas. Mais tarde foram totalmente transcritas.

De modo a complementar os dados obtidos nestas entrevistas sentiu-se a necessidade de elaborar de raiz, dois instrumentos auxiliares que permitissem explorar mais adequadamente as consequências dos AVCs e da afasia na vida diária das PCAs, assim como fazer um levantamento mais exaustivo das Barreiras e Facilitadores por eles encontrados.

Assim, surgiram o Perfil de Actividades/Participação [The Activities/Participation Profile (TAAP)] (ver secção 3.3.2.4.1.) e a Grelha para Avaliação de Barreiras/Facilitadores (GABF) (ver secção 3.3.2.4.2.).

3.3.2.3.2. Entrevistas em grupo

Foram organizados dois grupos, com base na disponibilidade mostrada por cada um dos participantes em se deslocar ao hospital. Os grupos foram constituídos por três e quatro elementos.

Foi utilizada a metodologia de entrevista em grupo, de modo a obter a opinião e percepção de todos os elementos do grupo por palavras próprias. Este método permite também que os participantes interajam entre si de modo a expressar uma variedade de opiniões, proporcionando ao entrevistador a oportunidade de clarificar algumas questões e de se familiarizar com o vocabulário e padrões de pensamento de cada elemento.

As entrevistas em grupo versaram sobre as mesmas questões exploradas anteriormente nas entrevistas individuais, tendo sido utilizado para o efeito o mesmo

guia (ver Anexo 12). As entrevistas em grupo tiveram uma duração entre 55 e 87 minutos.

3.3.2.4. Instrumentos de suporte às entrevistas