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3. Análise dos Podcasts

4.2. Entrevistas e Edição

Foram realizadas cinco entrevistas, das quais quatro foram usadas no episódio piloto.

Nossa primeira entrevista foi com Jorge Lopes, 25 anos, estudante de História e pertencente a Associação Social e Cultural de Couto de Esteves, concelho onde está localizado os Amiais. Ele nos deu uma perspectiva mais historiográfica sobre o local, relatando a origem do nome Amiais, a primeira vez que ele aparece em algum registro oficial e também o que motiva alguém tão jovem a querer registrar a história de seu lugar. Ele diz:

Sim, eu desde pequeno sempre gostei de história e fui... Gostei particularmente de investigar ou ter curiosidade na história local, na história de Couto de Este-ves e depois mais tarde foi que fiz a licenciatura de arqueologia na universidade do porto. (Jorge Lopes)

Depois entrevistamos Natália Braga, que é Presidente da Liga dos Amigos e Naturais de Couto de Esteves. Seu relato é muito mais ligado as festas do local, princi-palmente as desfolhadas que aconteciam na eira comunitária dos Amiais durante a sua

infância. Escolhemos a eira comunitária como local onde o episódio se passara, os ruí-dos de lá serão os centrais. Porém, devido a qualidade do sinal de telefone no lugar onde Natalia se encontrava ser precária, optamos por não inserir sua entrevista no podcast pois a qualidade do áudio ficou muito comprometida.

Depois de Natália, entrevistamos Sérgio Soares. Ele é presidente da junta de freguesias de Couto de Esteves. Sua fala é muito mais institucional e, de certa forma, se recusou a entrar em um registro mais emocional enquanto falava do local. Sua entrevista será usada para introduzir os problemas do local, como as diferentes opiniões sobre a barragem.

Com a eira comunitária e os espigueiros, que são o símbolo da freguesia por-que durante séculos as populações dessa região viviam a volta do cultivo do milho. Para alimentação da população e dos animais que produziam leite. Esse leite era vendido às cooperativas e era a principal fonte de rendimento da po-pulação dessa região. Então sobreviviam, trabalhavam e viviam do rendimento do leite. Cerca de 30 anos pra cá, com os cortes das cotas leiteiras, as pessoas começaram a abandonar os terrenos, começaram a procurar outros meios mais urbanos, outros imigraram e as aldeias da região especialmente os Amiais en-traram em declínio da população e perderam muita população... Então é de certa forma uma aldeia envelhecida e desertificada. (Sérgio Soares)

A seguir foi a vez de Mario Silva, único entrevistado que não nasceu na região, mas que se mudou para lá depois de casado. Professor e presidente da Associação Cultural e Social de Couto de Esteves, ele foi nossa entrevista mais longa, durando cerca de uma hora. Ele dá a perspectiva de alguém que não é daquele lugar, mas que acabou se apaixonando por ele.

Está terra é de facto acolhedora e agarra-nos, e agarra-nos mesmo, não é? E pra mim é ótimo viver aqui, eu gosto de outras regiões do país, gosto muito do lugar onde nasci, mas não trocaria Couto de Esteves, não trocaria aqui o nosso Couto, os Amiais, toda essa zona... adoro viver aqui, adoro esse contacto com a natureza, isso não tira anos de vida, viver aqui dá anos de vida, faz-nos viver mais uns aninhos. (Mario Silva)

Finalmente, nossa personagem principal é Ana Maria Silva, natural dos Amiais, mas hoje vivendo na Suíça. Ela nos conta a história de sua vida, desde a infância naquele lugar, a adolescência, sua mudança para outro país e a perspectiva de voltar para sua terra algum dia.

Eu tenho muitas emoções lá, isso é verdade que tenho... Muitas mesmo, muitas boas, muitas menos boas... Era chamado um beco sem saída, era tudo muito duro... Era uma aldeia muito trabalhosa. Lembro-me bem que aquilo antes da barragem ser feita tínhamos terrenos que iam até o rio Vouga, lá ao fundo... E aquilo eram tudo terras cultivadas, havia muitos sítios onde nenhum trator ia, tudo tinha que ser carregado as costas, a cabeça... as uvas e o milho e... e ervas e pronto, era bastante manual, bastante duro. Desse tempo eu não tenho saudades, para ser sincera eu não tenho saudades, pois fui bastante sacrifi-cada lá, meu pai faleceu muito cedo, eu tinha apenas 16 anos e fiquei sozinha com a minha mãe, tenho um irmão mas ele já estava imigrado... Foi uma vida... foi um período muito difícil... Mas depois pronto, decidi imigrar porque as coisas complicaram-se. A gente vivia da venda do vinho, do milho, do centeio, do fei-jão, todas essas coisas que produzíamos, a gente vendia, no entanto tudo co-meçou a ficar muito reduzido, ficou muito desvalorizado, nosso vinho que na altura era o vinho americano deixou de ter saída, digamos que já não podería-mos contar com isso, não é? E o leite também... a cooperativa fechou, quer dizer houve bastante coisas que deixaram de dar para podermos viver aí a partir desse momento pensei em sair e vir a procura de uma vida melhor que eu acho que é o que todos os imigrantes pensam. (Ana Maria Silva)

Com as entrevistas gravadas, partimos para o processo de transcrição de acordo com o método sugerido por Glass e Abel (1999), ouvimos as entrevistas em sua totali-dade, sem pausar, anotando o que considerávamos interessante e deixando de fora o que não nos soava encaixar no tema do episódio, realizando assim uma pré-edição no papel.

Depois de todas as entrevistas transcritas, partimos para a elaboração do roteiro, costurando as falas dos entrevistados de forma a contar uma narrativa coerente sobre os Amias.

Conseguimos manter um formato parecido com o elaborado e apresentado no capítulo anterior, com algumas diferenças. Não conseguimos deixar um momento maior de paisagem sonora pois não tínhamos muitos ruídos ambientes dos Amiais e nem a possibilidade de ir para o local gravar estes sons.

Também tivemos dificuldades em evocar imagens mais claras e dinamizar as entrevistas da forma como conseguiríamos se estivéssemos de verdade nos Amiais, po-rém, a possibilidade de entrevistar pessoas a distância acabou por colaborar com a rea-lização do episódio já que nos possibilitou entrevistar Ana Maria, que acabou se tornando nossa personagem principal.

Ela é um exemplo que viveu os problemas sociais e econômicos descritos por Sergio, o presidente da junta de freguesias. Ela também age de contraponto a visão romântica e apaixonada do professor Mario ao descrever seu lado mais sofrido. Além de ser tia de Jorge. Ela acaba costurando todas as entrevistas em uma união, usamos tam-bém algumas falas dela para comentar as dos outros participantes.

O roteiro elaborado pode ser consultado nos anexos deste trabalho.

Com o roteiro, partimos para a primeira etapa de edição do podcast, separando as falas e colocando-as em seus lugares, montando uma narrativa. Depois das falas em seus respectivos lugares, limpamos as falas de vícios de linguagem e silêncios maiores, mantendo alguns lá ainda para dar uma ideia de realismo e tempo de emoção. Gravamos a narração e adicionamos ao episódio.

Na última etapa, escolhemos as trilhas musicais que compõem os episódios, sendo todas elas livres de direito autoral ou com uso autorizado para obras de terceiros.