1.2 TRAJETÓRIA PERCORRIDA
1.2.1 Entrevistas e questionários realizados com professores e agentes
Como mencionei, no final de 2006, pude regressar a Timor, onde permaneci por dois meses. Na ocasião não havia um problema de pesquisa, por não ter ainda um projeto de pesquisa delineado, mesmo assim saí a campo.
Sendo assim, tive de me centrar na busca de informações gerais sobre a educação do país, utilizando-me dos relatos orais, onde os professores e outros agentes da educação contatados que possuíam experiências bem diversificadas especialmente em relação às marcas que carregam principalmente associada ao tempo em que se tornaram sujeitos da educação, puderam falar de suas trajetórias educacionais. Demartini referindo-se ao uso desta técnica em uma de suas pesquisas afirma: foi “preciso ir mais longe do que tradicionalmente se tem realizado e fazer surgir novas informações onde elas poderiam estar guardadas, isto é na
memória dos que vivenciaram os problemas educacionais em épocas remotas”.
(1999, p. 34).
Mas, já com um interesse especial na questão da formação de professores, fiz algumas entrevistas mais diretivas abordando este tema e visitei o departamento responsável. Não procedi nas entrevistas sempre da mesma maneira, em algumas deixei que eles falassem mais livremente e em outras fiz perguntas que não foram homogêneas em todas, exatamente em virtude da diversidade dos sujeitos já mencionada. Mas, no geral, elas objetivavam que eles descrevessem a própria formação, e discorressem sobre a educação nos períodos históricos distintos e também como viam a cooperação internacional para a educação no país emergente.
A partir desses relatos eu pretendia conhecer o contexto histórico mais abrangente e esperava que daí pudesse suscitar de forma mais patente o meu problema de pesquisa, o que de fato se concretizou posteriormente.
Não houve nenhuma resistência para a concessão dos relatos, todos eles pareceram sentir-se honrados por terem sidos escolhidos para falarem, um professor até mencionou que normalmente só se busca ouvir quem está nos cargos de poder e ponderou que as bases é que têm melhores condições de apontar os reais problemas da educação.
Eu estou muito contente por você ter vindo nos perguntar estas coisas, porque se a senhora for ao chefe da educação então todas as coisas estariam bem, problemas não existiriam. Os problemas são muitos, coisas boas é que não há. Por isto, estou contente, porque você está vindo de baixo para cima; se viesse de cima, então de lá as coisas estariam todas bem, talvez não houvesse problema, mas como você está vindo na base, podemos falar dos problemas. (...)6 (PPI)
Outro professor, ao terminar o relato, se dispôs a conceder nova entrevista, caso julgasse necessário. Tendo em vista que o abordei sem ter agendado previamente, ele considerou que poderia contribuir melhor tendo uma preparação prévia.
A primeira entrevistada foi uma professora já conhecida e que eu sabia que era uma das mais respeitadas da comunidade. Na ocasião ela dava aulas em uma escola secundária católica, hoje acumula também a função de diretora, que chamarei de PPT (Professora do Período de Timor – como país independente).
6 Ne’ebe hanesan hau mós kontente tebes ita mai huso hanesan ne’e, tamba se karak señora ba’a chefe edukasaun buat hotu-hotu d’ak, a’at la iha, a’at barak liu, d’ak maka la iha, tamba hau hatene ita, tamba ita husi kraik ba leten, husi leten maka mai, entaun husi leten buat hotu-hotu di’ak, karik buat ida la iha, maibé ita husi kraik ne’ebá leten ida ne’e maka hau ható problema (...) (tradução nossa)
Confesso que me surpreendi quando ela disse ter cursado apenas até a quinta série na época de Portugal. Com a invasão indonésia, ela e sua família permaneceram três anos no mato e depois deste tempo, mesmo retornando à capital ela não quis dar continuidade aos estudos devido à obrigatoriedade da língua imposta pelo país invasor, pois só pretendia fazê-lo se fosse em língua portuguesa, o que não era mais permitido. Depois que o país ficou independente, tornou-se professora. Por ocasião da primeira entrevista ela estava fazendo um curso oferecido pelo governo em cooperação com Portugal, denominado de bacharelato.
Outro professor entrevistado, que será chamado de PPP (Professor no Período de Portugal), foi professor primário desde a época de Portugal. Ele concluiu o ensino primário em uma escola católica e pretendia continuar os estudos para seguir a carreira eclesiástica, todavia, como órfão, não tinha condições de pagar por eles. Então, ajudado por um padre, fez o curso de professor catequista que tinha duração de um ano; depois disto chegou a dar aulas em Dili e depois foi enviado para o interior do país. No período indonésio, não pôde continuar lecionando, retornando ao posto a partir da restauração da independência.
O último professor entrevistado, denominado de PPI (Professor no Período da Indonésia), teve toda sua educação no período da invasão indonésia; tem o nível técnico em agricultura e, ao concluir o curso, fez um treinamento de três meses em Kupang7 para tornar-se professor, função que exerce até os dias de hoje.
Os demais timorenses entrevistados são outros agentes da educação no país:
um era, na ocasião, superintendente da educação de um distrito que denominarei de AE1 (Agente da Educação - 1º), um pró-reitor da universidade Nacional e mestre em lingüística, AE2 (Agente da Educação - 2º), e o último era funcionário do Centro de Formação de Professores, AE3 (Agente da Educação - 3º).
Além destes, entrevistei um professor estrangeiro, que denominarei de CI (Cooperação Internacional), responsável na época por um programa de cooperação entre o seu país e Timor-Leste para a formação de professores.
Depois desta primeira fase de levantamento de dados, passados quase quatro anos e estando já a pesquisa mais direcionada, voltei a campo. Trazia comigo ideais bem mais elevados do que o tempo disponível me permitiria, que era realizar uma pesquisa visando o levantamento do perfil dos professores que contemplasse
7 Capital de Timor-Oeste, pertencente à Indonésia.
todos os 13 distritos de Timor. Ainda fiz uma tentativa enviando questionários (Anexo A) por intermédio de um funcionário do Ministério da Educação para serem entregues aos superintendentes da educação de cada distrito e, consequentemente, aos professores, mas infelizmente não tive retorno. Sendo assim, pessoalmente apliquei os questionários a alguns professores que escolhi aleatoriamente8. Este mesmo questionário apliquei em formato de entrevista direcionada e gravada àqueles que preferiram desta forma. A questão da quantidade necessária de questionários ou de sujeitos entrevistados para desvelar o problema de pesquisa que se pretende é sempre algo que deixa o pesquisador em situação de muita incerteza; para tentar dirimi-la usei o conceito de “ponto de saturação” de Bertaux, que é o momento em que já se disponibiliza de informações suficientes sobre determinado aspecto; isto só é possível através de uma análise permanente (Lang et al. 1998, p. 13). Foi analisando as entrevistas e questionários que fui coletando que percebi que não havia mais nada novo, os sujeitos entrevistados apontavam sempre para a mesma direção, fazendo-me perceber que já dispunha das informações necessárias.