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6 METODOLOGIA DA PESQUISA EMPÍRICA

6.3 SUJEITOS DA PESQUISA

6.4.2 Entrevistas semi-estruturadas

Antes de realizar as tarefas de leitura e compreensão, os sujeitos foram entrevistados a fim de confirmar os dados inseridos nos questionários, especialmente o tempo de aprendizagem de cada língua, e a resposta à pergunta aberta. Em seguida responderam perguntas sobre o uso que fazem atualmente de cada língua no seu cotidiano, e sobre as impressões pessoais que possuem acerca das distâncias entre elas. Estas informações estipularam as distâncias percebidas, ou psicotipológicas, vinculadas a valores subjetivos, mais tarde contrastadas às distâncias linguísticas objetivas, para efeito de nossa análise. Também durante a entrevista, solicitou-se aos participantes que estimassem sua exposição geral a cada uma de suas línguas, utilizando porcentagens.

Quão distantes um aprendiz crê que as suas línguas se encontram umas das outras parece ter um impacto sobre o que ele tenderá a transferir mais entre essas línguas, ou como ele permitirá que elas influenciem umas às outras. Como explicado na seção 4.3 desta tese, Kellerman (1983) cunhou o termo psicotipologia (em inglês psychotypology) para se referir a essa percepção subjetiva, e ela tem sido considerada por linguistas que se ocupam do multilinguismo individual um fator importante entre os que influenciam a transferência interlinguística (CENOZ, 2001;

DE ANGELIS e SELINKER, 2001; RINGBOM, 2001). O Quadro 2 apresenta as relações genéticas entre as línguas de cada participante e o alemão, bem como as relações psicotipológicas estabelecidas por eles. Durante a entrevista, cada participante estipulou distâncias subjetivas entre suas próprias línguas, de acordo com as impressões construídas ao longo do tempo sobre semelhanças e diferenças.

Muitas vezes o aprendiz credita uma similaridade entre línguas que não encontra sustentação nos sistemas formais das mesmas. Esse efeito de similaridade, a nosso ver, parece ser desencadeado pelas experiências pessoais com as línguas e com o processo de sua aprendizagem.

Na coluna das relações genéticas, a cor verde sinaliza as línguas que pertencem ao grupo das línguas germânicas, juntamente com o alemão, e a cor vermelha indica outros grupos lingüísticos. As relações psicotipológicas estabelecidas pelos sujeitos da pesquisa, na outra coluna, aparecem marcadas com as mesmas cores, sendo que o verde mostra percepções individuais que conferem

com as relações linguísticas genéticas, enquanto que o vermelho aponta ligações subjetivas que formalmente não apresentam parentesco. As relações que aparecem marcadas em vermelho nesta coluna, portanto, sinalizam impressões que contradizem os relacionamentos genéticos entre as línguas.

102 Com base em Ethnologue – Languages of the World, disponível em http://www.ethnologue.com/home.asp.

8 Inglês – Germânica

18 Inglês – Germânica

É difícil ligar o Francês ao Alemão, o Francês é mais próximo do Latim. comentadas, os participantes expressaram suas percepções como sendo iguais às da classificação formal em famílias linguísticas, especialmente considerando as relações entre o alemão e o inglês. Cerca de 40% das opiniões emitidas, no entanto, demonstram que os sujeitos encontram também entre as línguas geneticamente mais distantes elementos que as assemelham, e vêem a possibilidade de interação entre elas. A análise dos dados tratará de relacionar as distâncias psicotipológicas às manifestações de influências interlinguísticas observadas nas tarefas registradas nos protocolos verbais.

Os sujeitos manifestaram-se sobre as distâncias psicotipológicas durante a entrevista, através das perguntas: Como suas outras línguas se relacionam com o alemão? Que distâncias você vê entre elas? Preferimos não incluir esta questão no questionário para oferecer aos participantes uma chance maior de se expressarem com relação à questão, ao invés de oferecer apenas as opções “semelhantes” ou

“diferentes” a serem assinaladas. Em vista das declarações apresentadas, consideramos relevante ressaltar, neste momento, que essa maior liberdade de expressão permitiu que os sujeitos encontrassem outras maneiras de referir-se às distâncias percebidas entre suas línguas. Deduzimos desses dados que, apesar dos fatores genéticos, tipológicos e psicotipológicos restringirem manifestações de

influências interlinguísticas, aprendizes multilíngues comparam e utilizam todas as suas línguas, de maneiras diferentes, sejam elas formalmente relacionadas ou não.

Os participantes de nossa pesquisa não pareciam sentir-se confortáveis em excluir essas possibilidades. Mesmo tendo consciência das distâncias linguísticas objetivas, e considerando-as importantes, encontram meios pelos quais as línguas formalmente consideradas distantes também se relacionam entre si, e cujos processos de aprendizagem afetam uns aos outros. Em pesquisa realizada em anteriormente (BRITO; SANTOS, 2010), em que entrevistamos falantes de mais de uma língua residentes nas cidades de União da Vitória, Paraná e Porto União, Santa Catarina, observamos que os falantes multilíngües identificam-se com cada uma de suas línguas, reconhecendo-as como partes constitutivas de si mesmos, ao mesmo tempo em que estabelecem diferenças na utilização que fazem de cada uma. Neste sentido, também é interessante observar os resultados da pesquisa de Hall et al.

(2009) que, contradizendo a hipótese postulada, revelam que nem sempre os termos interlinguísticos cognatos e pertencentes a línguas geneticamente relacionadas são a primeira opção no processamento lexical dos aprendizes. Tais resultados levaram os autores a rever os princípios do modelo que desenvolveram, chamado metaforicamente de “parasítico” (cf. seção 3.4), concluindo que há mais fatores envolvidos durante a ativação de formas lexicais do que características genéticas e os termos cognatos derivados delas. Na maioria dos casos estudados pelos autores, o fato dos termos serem cognatos não se revelou como o principal fator gerador de suposições por parte dos aprendizes, apesar das semelhanças formais entre termos das diferentes línguas constituírem um fator significativo e que contribui para a integração na rede lexical.