5.3 Aspectos metodológicos da pesquisa
5.4.2 Entrevistas semiestruturadas de história de vida
As entrevistas semiestruturadas de história de vida aos assentados pesquisados tiveram formulação de questões/tópicos e não de roteiros específicos. Nas visitas prévias, algumas características singulares nos possíveis entrevistados foram percebidas (a exemplo de comunidades com agricultores que nasceram e vivem até hoje no mesmo lugar, que chegaram de sítios vizinhos ou que vieram de zona urbana). Escolheu-se esse tipo de entrevista, pois o foco, como o próprio nome diz, é a trajetória de vida das pessoas, como é viver no campo desde que nasceu ou como é viver na cidade e agora passar a viver no campo (algumas famílias sem-terra vieram das periferias urbanas em busca de uma vida melhor no campo), o que torna possível resgatar sua história, seus conhecimentos vividos, suas experiências, suas amizades e conflitos. Totalizou-se 14 (quatorze) entrevistas de histórias de vida.
Segundo (Alberti, 2004) na História Oral não se pode dizer com precisão quantos depoentes foram ouvidos para garantir o valor do resultado da pesquisa. O entrevistador para de realizar as entrevistas quando atinge seu ponto de saturação e chega o momento em que as entrevistas acabam por repetir-se, seja no conteúdo ou na forma como se constrói a narrativa. A história de vida proporciona um resgate de suas memórias. Segundo Ferreira (2000) memória é a construção do passado pautada por emoções e vivências, onde os eventos são lembrados à luz da experiência subsequente e das necessidades do presente. Para Nora (1993) memória é um fenômeno alimentado pelas lembranças do indivíduo que vivenciou algo, mas um fenômeno marcado por um embate constante entre as lembranças e o esquecimento, entre o passado e o presente.
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Enquanto método, a História Oral enfatiza a importância de se partir do local em que o entrevistado ocupa no grupo e do significado de sua experiência. Defende que pessoas que participaram, vivenciaram e presenciaram fatos ou situações ligadas ao assunto em estudo podem fornecer depoimentos e informações relevantes, importantes e significativas para a questão (ALBERTI, 2004). Segundo Jovchelovitch e Bauer (2002), a entrevista de história de vida deve ser preparada considerando-se as fases e especificidades a seguir:
a) Preparação: formulação de questões/tópicos e não de roteiros, como nas entrevistas comuns. Preparação do ambiente.
b) Iniciação: apresentação, esclarecimentos, formulação do tópico inicial da narrativa e definição sobre meios auxiliares (gravador, câmara, registro escrito, etc.).
c) Narração central: usar apenas encorajamentos verbais para a continuidade da narrativa (“e então?”). Não interromper. Observar sinais não verbais para finalizar cada seção ou parte.
d) Perguntas: não julgar ou comentar a narrativa. Não discutir contradições e muito menos perguntar “por quê?” Deve-se apenas perguntar “O que aconteceu então?”. e) Conclusão: parar de gravar ou anotar. Agradecer e/ou agendar nova oportunidade para
continuar. Se necessário, fazer anotações complementares à gravação logo depois da entrevista.
A aplicação do questionário do diagnóstico das vulnerabilidades (social, econômica, hídrica, tecnológica, ambiental, política e cultural) foi realizado no decorrer de 2016. As entrevistas temáticas e de história de vida foram realizadas a partir de janeiro de 2017. Das 15h00 às 17h30, no decorrer da semana e no final de semana, das 09h00 às 11h30, quando os moradores foram abordados em suas próprias residências.
Para as entrevistas de história de vida e temáticas utilizou-se a metodologia da História Oral, considerando que, na pesquisa de História Oral, não se deve realizar indiscriminadamente o maior número possível de entrevistas, se a simples quantidade puder por si só garantir a qualidade do acervo produzido. O critério levado em conta na História Oral é qualitativo, e não quantitativo, o número de entrevistados deve ser suficientemente significativo para viabilizar os resultados (ALBERTI, 2004). Para as vulnerabilidades, foram aplicadas entrevistas semiestruturadas com questionários (contendo perguntas fechadas e abertas) de diagnóstico social, econômico, ambiental, político e cultural das comunidades rurais pesquisadas. Foram considerados os seguintes critérios para escolha dos entrevistados:
Ser maior de 18 anos; Trabalhar na agricultura;
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Residir no assentamento há mais de cinco anos; Priorizar as famílias mais antigas das comunidades.
Naquelas entrevistas onde se utilizou a História Oral como metodologia, o ideal foi escolher entrevistados dispostos a revelar suas experiências de maneira franca e aberta, e além de informações particularizadas, com uma visão coletiva a respeito do universo estudado. Para identificar quais os “bons entrevistados”, foi realizado um conhecimento prévio do objeto de estudo recorrendo às fontes secundárias, à documentação primária e algumas entrevistas curtas de caráter exploratório. Primeiro, para conhecer o papel de cada grupo, e segundo, para identificar quais as pessoas que nesses grupos se destacam em função das questões que se pretendia investigar ao mesmo tempo. Essas informações prévias foram úteis no processo de escolha dos entrevistados (ALBERTI, 2004).
Segundo Ferreira (2000), a História Oral possibilita conhecer uma historicidade local singular visto que os pesquisados ocupam historicamente um tempo e um espaço. Ou seja, permite trazer à tona dados relevantes do cotidiano dos entrevistados, que talvez por outra fonte não se conseguisse. Assim, há de se considerar que o sujeito não está “mentindo”, mas ressignificando o que foi vivido em conformidade com seus valores e expectativas de papel vivido no presente.
A fim de obter informações diversificadas sobre os aspectos sociais, políticos, econômicos e ambientais dos grupos em estudo, e para dispor de dados capazes de ajudar na construção da pesquisa, todas as informações obtidas por meio das entrevistas aos representantes dos órgãos e dos moradores das comunidades terão caráter sigiloso, sendo utilizadas apenas para fins da pesquisa, não oferecendo qualquer risco de constrangimento uma vez que a participação de cada um dos participantes se deu de forma voluntária.