1.2 Dialogismo: dimensões para o estudo do sentido
1.2.2 Enunciado – entidade de atualização do discurso dialogizado
Os estudos tradicionais da lingüística colocavam a função comunicativa da linguagem em segundo plano. O pensamento em torno do objeto língua refletia a idéia primeira de que a essência da linguagem se resumia à expressão individual do falante - para este olhar considerava-se a linguagem do ponto de vista do falante, sem considerar seus pares ou participantes da comunicação discursiva, subestimando-se a função comunicativa da linguagem.
Essa perspectiva, adotada como a essência da língua, considera apenas o falante e o objeto de sua fala, desconsiderando a orientação à qual todo o enunciado articula o aspecto dialógico. Este esquema – falante versus ouvinte – ainda hoje é proposto por diversas gramáticas, dando a errônea idéia do falante como ativo no processo da linguagem e o ouvinte como passivo no processo de recepção do discurso. O ouvinte, leitor, percebido como sujeito passivo não corresponde de forma alguma ao participante da comunicação discursiva. A lingüística do século XIX, sem negar a função comunicativa da linguagem, colocou-a como algo secundário, relevando sua essência à expressão individual do homem. Conforme aquela concepção, a língua necessita apenas um falante e seu objeto de fala, não afetando, com isso, a definição de essência da língua.
Os esquemas, que analisam dessa forma a linguagem em uso, representam uma abstração do ato da comunicação. Mas, jamais se pode entender esse fenômeno como real. As relações dialógicas pressupõem uma unidade do objeto, da intenção.
No enfoque monológico, o outro permanece inteiramente apenas como objeto da consciência e não outra consciência. Essa visão foge completamente do núcleo problemático que recupera o processo comunicativo real, e desconsidera a gênese da linguagem – o seu momento sempre novo a cada enunciação e a importância dos pares envolvidos no processo.
A propósito, afirma BAKHTIN (2003, p. 278):
[...] o enunciado pode ser construído a partir de uma oração, de uma palavra, por assim dizer, de uma unidade do discurso (predominantemente de uma réplica do diálogo), mas isso não leva uma unidade da língua a transformar-se em unidade da comunicação discursiva.
O privilégio dado ao estudo das palavras e das frases, desconsiderando a unidade real da comunicação discursiva – o enunciado – acarreta o distanciamento da comunicação discursiva real, suprimindo as questões mais substanciais para o entendimento dos processos que envolvem a
complexidade da comunicação. Reavaliado o esquema citado anteriormente, que colocava a função comunicativa em segundo plano, estabelecido pela forma – ouvinte versus receptor –, permite crítica, na medida em que essa percepção de comunicação esquece de dar ao ouvinte o seu papel fundamental como participante ativo do enunciado, enquanto momento sempre novo, instaurador da não-repetitividade e da presença da negociação a cada enunciação, dependente dos parceiros e da situação extra-verbal.
Um discurso só pode existir, de fato, na forma de enunciações completas de determinados falantes, sujeitos do discurso. A idéia de ouvinte passivo só pode ser considerada como forma de abstração e atualização para uma subseqüente resposta. Mesmo assim, com a previsão do enunciador em relação ao enunciatário, pois todo ouvinte, ao perceber um ato enunciativo dirigido para ele ou para qualquer outra pessoa do discurso, passa a ocupar uma posição responsiva, que pode ser de resposta oral ou não. Toda a compreensão da fala do enunciado, seja este verbal ou escrito, é de natureza responsiva; à medida que o ouvinte toma consciência de um enunciado, responde.
Nas palavras de BAKHTIN (2003, p. 271):
[...] essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante.
Essa natureza decorre do fato incontestável de ser a linguagem inerente ao ser humano, não podendo deste ser desvinculada, pois representa a consciência individual e caracteriza-se como de natureza ativamente responsiva. Para BAKHTIN (2003, 271), a compreensão passiva é apenas um momento abstrato da compreensão ativamente responsiva real e plena. O caráter de responsividade se instaura sempre que a linguagem é um fato concreto, momento da enunciação, momento de percepção da constituição do ser individualmente.
A abordagem dos estudos que envolvem a compreensão da língua, a noção de que a língua como fenômeno concreto e real trabalha com a idéia de discurso, e este só pode existir na forma de enunciados completos, confere determinada estabilidade aos enunciados proferidos. O discurso somente existe em forma de enunciados, os quais se diferenciam quanto ao conteúdo, construção composicional, volume, meio de circulação, e outros fatores que oportunizam diferenças e implicam em semelhanças – essa abordagem se revela profícua no estudo dos gêneros textuais proposto por Bakhtin, que será visto no capítulo seguinte. Mas, de qualquer forma, todo o enunciado, dito isso de forma restrita, apresenta seus limites precisos. Verifica-se que a alternância dos sujeitos do discurso define um primeiro limite ao enunciado, que se representa como uma unidade real. Para se ter idéia da natureza do enunciado, não se pode deixar de entendê-lo como portador de um princípio absoluto, como se fosse uma réplica de outro ou de outros enunciados.
Na análise que objetiva a compreensão do discurso é fundamental a idéia de oração como unidade da língua em relação à distinção presente no enunciado, que se refere à unidade da comunicação discursiva. Essa diferença apresenta como elemento característico o fato de que a oração, enquanto unidade da língua, nunca é limitada ou determinada pela alternância de sujeitos do discurso. Já, um enunciado, emoldurando orações, acarreta novas qualidades à oração, assim como uma perspectiva de análise de outra natureza. Uma análise que leve em conta a oração como unidade lingüística deixará de lado o contexto extra-verbal, e não irá considerar as enunciações de outros falantes. O processo de interlocução ultrapassa a noção da dupla emissor-receptor e coloca a condição fundamental da justaposição e suas implicações para a produção e compreensão de um enunciado; seu referente de análise passa a depender do todo enunciativo, requerendo enunciador e enunciatário como peças indissolúveis no processo enunciativo.
A importância dos reflexos, que consideram a consciência um ato de responsividade constitutiva, para o estudo do enunciado transforma a interlocução freqüentemente ligada a diálogos externos em um ponto de vista a ser estudado como uma visão moderna e pouco explorada na descrição lingüística. Por ora, o objetivo aqui proposto terá como relevância o enunciado enquanto atualização do discurso e as variáveis detectadas na instância enunciativa.
VOLOCHÍNOV (2002, p. 121), ao tratar dos problemas do subjetivismo individualista, coloca a questão da enunciação de forma esclarecedora para os estudos lingüísticos:
O centro organizador de toda a enunciação, de toda a expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo.
Certamente, com essa confirmação determinativa da enunciação, as variantes a serem consideradas em um estudo enunciativo se encontram como puro produto da interação social. Esta interação pode ser resultado de um olhar para a situação mais imediata, ou pode ser o resultado de um contexto mais amplo, que constitui as condições de vida de uma determinada comunidade lingüística. No entanto, de forma nenhuma se pode deixar de considerar essas duas instâncias constitutivas do enunciado.
Não custa refletir, a título de síntese e em conclusão a este capítulo, que um enunciado sempre pressupõe enunciados que o antecedem e o sucedem. Desse modo, nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último. Em uma interpretação, o termo texto não pode corresponder de maneira nenhuma ao todo do enunciado. Nessa direção, retomando sinteticamente o item anterior, visualizar o todo representa a consciência de que nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último.
Conseqüentemente, uma análise que leve em conta somente categorias lingüísticas, desvinculadas da situação enunciativa, tira a palavra da vida que a constitui e que lhe dá sentido, tornando-a objeto, portanto, descentralizando a sua natureza. Para um enunciado não existe apenas uma consciência, existem pelo menos duas consciências que apresentam seus próprios pontos de vista e posições axiológicas. Talvez por isso a língua seja sempre lugar de conflito, uma réplica ao já-dito e também um condicionamento sob a réplica do ainda não dito. A compreensão acarreta não só uma vivência da ação dos outros, mas uma atividade caracterizada como dialógica, uma réplica ativa, uma tomada de posição, uma resposta.
Nessa perspectiva, na resposta sempre ativa do ato de compreensão, a fonte importante para esse estudo se encontra na enunciação. Conforme a metodização proposta por VOLOCHÍNOV
(2002, p. 112), qualquer que seja o aspecto da expressão-enunciação considerado, ele é determinado pela situação social mais imediata, onde dois indivíduos socialmente organizados interagem.
Lógico que sua concepção não descarta a possibilidade de um interlocutor não-real. Isso ocasionaria, com vistas à compreensão, um representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor, inserido na fronteira de uma classe média de uma época bem definida. Por esse viés, a realização do signo social concreto é determinada inteiramente pelas relações sociais, e toda a enunciação é socialmente dirigida, determinada de maneira mais imediata pelos participantes do ato de fala, seguida pelo contexto social mais amplo.
A importância dessas reflexões, com fins de análise lingüística, encontra-se, em princípio, no fato de que é a situação que dá forma à enunciação, sendo, portanto, esse o ponto de partida para uma compreensão enunciativa. A expressão exterior, que pode mostrar matizes muito perceptíveis ou sutis, dependendo da situação, jamais dispensa uma expressão ideológica, através de uma expressão de caráter apreciativo. Assim, o uso da língua parte de uma situação social determinada, organizando um enunciado determinado, definido em função de um contexto social mais imediato, a partir de um horizonte social mais amplo, de onde se estrutura a personalidade de um indivíduo, e através do qual se pode prever a real situação enunciativa dos participantes envolvidos em um processo interacional.
2 O DISCURSO COMO GÊNERO
Um dos principais objetivos de se tratar do estudo de gênero textual, neste trabalho, como Bakhtin o concebera - em um fragmento de texto, que os estudiosos acreditam ter ficado em processo de desenvolvimento -, deve-se ao fato de se ter a pretensão de contemplar concepções que atravessam as obras do Círculo, para uma prática de compreensão responsiva. Mesmo concebendo a leitura do gênero textual tira estável em seu aspecto formal, em graus variados, a compreensão sempre exige do usuário desafio. É, pois, sintomático dos estudos relacionados aos gêneros textuais o fato de se considerar, de forma simplificada, que a questão dos gêneros resulta da maneira como uma sociedade estrutura, institucionalmente, a prática social, em grandes setores de atividade: o religioso, o político, o jurídico, o científico, o jornalístico etc.
Aqui, em consonância com os objetivos deste estudo, interessa, particularmente, expor algumas idéias trabalhadas por Bakhtin, necessariamente relacionadas à impossibilidade de existir comunicação verbal a não ser por meio de algum gênero textual, ou seja, por meio de algum texto, expressão de um gênero, tomando-se o devido cuidado para, ao estudar os discursos que se manifestam e circulam nos lugares sociais, considerá-los na sua totalidade. Essas são considerações básicas para a interpretação de um enunciado e, conseqüentemente, ponto de sustentação para a leitura das tiras da Família Brasil.