2. CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO DISCURSIVA:
2.2 Envelhecer em tempos de fluidez e liquidez
Os critérios da avaliação da idade, da juventude ou da velhice, não podem ser os do calendário. Ninguém é velho só porque nasceu há muito tempo ou jovem porque nasceu há pouco. Somos velhos ou moços muito mais em função de como pensamos o mundo, da disponibilidade com que nos damos curiosos ao saber, cuja procura jamais nos cansa e cujo achado jamais nos deixa imovelmente satisfeitos. Somos moços ou velhos muito mais em função da vivacidade, da esperança com que estamos sempre prontos a começar tudo de novo e se o que fizemos continua a encarnar só no nosso sonho eticamente válido e politicamente necessário.
Percebe-se no texto de Freire (1995) que a idade tem várias faces, tornar-se velho, mais velho ou menos velho é uma questão ligada ao modo de pensar e a disposição de sempre estar pronto a recomeçar. Há vários caminhos, que se delimitarão no decorrer das trajetórias, para aqueles que estão iniciando o
processo do envelhecimento na era da modernidade líquida10.
Sabe-se perfeitamente que uma das maiores preocupações do ser humano é desvendar os segredos da longevidade. Como prolongar a própria vida? Como lidar com o caráter multidimensional da existência e suas consequências biológicas e sociais?
Pode-se inferir que, na sequência da vida, primeiro vem o descompromisso da infância, depois o sonho da adolescência, os objetivos e conquistas da vida adulta e, finalmente, o medo e as incertezas da velhice. Já está tudo predeterminado para que, ao longo dos anos, se possa passar por todos esses ciclos, com poucas mudanças de indivíduo para indivíduo. É exatamente no final dessa longa caminhada que o ser humano sente-se mais solitário, precisando de assistência social e familiar. Porém a sociedade ainda não está preparada para orientar as pessoas em estado de velhice.
O Brasil é conhecido por ser um país jovem e de jovens, porém os últimos dados do IBGE desmentem essa propaganda. A preocupação com a qualidade de vida e a possibilidade de proporcionar um curso superior aos filhos leva os casais a terem apenas um ou dois filhos. Com isso, reduz-se o número de crianças, aumentando proporcionalmente o de adultos.
A contrapartida é a busca da receita da longevidade, prolongando a idade madura (normalmente entre 35 e 45 anos), pois é nessa faixa etária que as pessoas começam a correr atrás do tempo. Informam-se sobre calorias, refeições balanceadas, pesquisas de especialistas, dicas, fórmulas e tudo mais que garanta ao indivíduo as chances de manter o que resta da juventude. Para retardar a terceira idade, fazem caminhadas exaustivas, exercitam a saúde mental, procuram dormir bem, tomam uma taça de vinho diariamente, enfim,
10 Termo cunhado por Bauman (2001) que designa o momento em que as inúmeras esferas da sociedade contemporânea (vida pública, vida privada, relacionamentos humanos) passam por uma série de transformações cujas consequências esgarçam o tecido social. Faz com que as instituições percam a solidez e se liquefaçam, tornando-se amorfas, paradoxalmente, como líquidos. É um tempo do desapego, da provisoriedade e do processo da individualização; tempo de liberdade e ao mesmo tempo de insegurança.
seguem todos os mandamentos para assegurar qualidade de vida a qualquer preço, em busca de uma vida longa e saudável.
Mudanças nas leis da aposentadoria elegem um grupo bem mais novo como sendo o dos aposentados. Contudo a preparação física e mental dessa clientela garante um bem estar diferente do de séculos anteriores. Há uma queda no índice de mortalidade da geração mais velha e, com isso, aumenta a sobrevida da população idosa.
Num país onde o culto da juventude é primordial, conviver com o oposto não é fácil: o idoso é discriminado e visto como economicamente inativo. Mas a sociedade contemporânea criou uma dialética, porque esses inativos estão na ativa, presentes no cotidiano, no mercado de trabalho, nas faculdades, no trânsito, na internet e várias outras situações, cada vez mais atuantes e até mesmo constituindo outras famílias.
Estudos recentes mostram que os termos e os conceitos para definir a velhice não são muito específicos, pois alguns definem o envelhecer a partir de 35 anos, visto que é o início, segundo a ciência, do declínio da juventude.
Hoje, na modernidade líquida, surgiram novas nomenclaturas: senilidade,
terceira idade, melhor idade, boa idade, estado de velhice, o novo idoso, longevidade, entre outros. Pode-se afirmar que não é apenas uma questão de nomes ou sinonímias, mas ações comportamentais, mudanças que alteram toda uma história de vida, costumes e crenças.
Segundo a revista Vida e Saúde (ano 71, nº 07, p.30):
O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), em 2025, existirá 1, 2 bilhão de pessoas com mais de 60 anos, sendo que os muito idosos (com 80 ou mais anos) constituem o grupo etário de maior crescimento. No Brasil, os idosos representam contingente de quase 15 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (8,6% da população brasileira). Nos próximos 20 anos, a população idosa no Brasil poderá ultrapassar 30 milhões de pessoas.
Com isto, são necessárias mudanças de atitude por parte da sociedade, a fim de que o idoso tenha saúde e possa viver cada dia melhor.
Percebe-se, após leituras como essa, que há lacunas na informação e surgem interrogações sobre a vivência dos idosos e as transformações por eles enfrentadas. Por essa razão, tenta-se compreender a complexidade de tal
assunto, ou seja, como é o discurso sobre o envelhecer após tantas mudanças na atual sociedade. Seria pertinente aceitar o artigo acima como um dado estatístico e assustador em relação à nova população brasileira que forma o contingente dos idosos na contemporaneidade?
Diante dessa questão, pode-se supor que não existe uma equalização, visto que a proporção da população acima de 80 anos também tem aumentado muito. E isso significa que, dentro desse grupo de idosos, com 60 anos ou mais, assegurado pelo Estatuto do Idoso, surge outra clientela, formada pelas pessoas com mais de 80 anos.
Diante desses dados de que a população brasileira de 60 anos ou mais sofreu um acréscimo determinante, paralelamente temos uma diminuição da fecundidade, o que leva a algumas transformações radicais do comportamento em âmbitos sociais, culturais, econômicos, políticos e comportamentais. Urge reivindicar procedimentos imediatos por parte dos governantes, que não sabem como agir, pois alegam que não estão preparados para essa situação, e realmente não estão.
Percebe-se, nos noticiários e na mídia em geral, que há indícios de uma relação entre a política e uma ação social, como a criação do Estatuto do Idoso. Dentro dessa perspectiva, pode se perceber em sites como o aqui analisado que se pretende mostrar um modelo para o envelhecimento saudável, o qual também aparece nas propostas feitas pelos governos, como a ampliação da rede de cobertura dos serviços e programas de atenção à população idosa. Há cobranças, sim, de órgãos governamentais para que a sociedade mude a maneira de pensar e agir em relação ao tratamento da questão do envelhecimento.
Pode-se observar que a pretensão é de que o cidadão da terceira idade, melhor idade ou boa idade exerça aquilo que é seu direito constitucional, que tenha garantida a busca da qualidade de vida, a construção de significados próprios na criação e reorganização de seu espaço, que tenha assegurado o direito de viver bem, consigo e com o outro. No caminho da reconstrução, buscam-se outros conceitos, na imbricação entre pessoas, instituições, sistemas sociais e juízos de valores.
Costuma-se usar o termo senilidade como sinônimo de velhice, no entanto senilidade significa um processo patológico que pode surgir como resultado do envelhecimento, mas não é um componente do envelhecimento. Costuma-se até qualificar todo velho de senil – uma comprovação da falta de informações sobre essa etapa da vida do indivíduo. Já senescência indica o processo de envelhecer. Assim, a senilidade é um processo patológico; a senescência, um processo normal.
GERONTOLOGIA – estudo do envelhecimento – é um termo criado por Metcknicoff, em 1903, para designar a especialidade que estuda o processo fisiológico do envelhecimento. A palavra gerontologia origina-se do grego: gero (velho) e logia (estudo, conhecimento). Em 1909, Nascher introduziu na literatura médica o termo geriatria, estudo clínico da velhice. Definindo, a geriatria é a parte da gerontologia que estuda os aspectos patológicos da velhice. (BACELAR, 2002, p. 32 e 33)
Ao observar os termos técnicos em relação à velhice, velho, senilidade, descobre-se que algumas definições e terminologias são antigas, porém estudar o velho e seu comportamento social, cultural, religioso e familiar é um fenômeno recente. Esta pesquisa evidencia que somente no final do século passado alguns estudiosos começaram o olhar para o idoso de forma diferente. Graças a mudanças na maneira de ver esse cidadão, de se propor a ele uma nova maneira de se comportar perante a sociedade, no desenvolvimento científico e tecnológico da medicina na área do envelhecimento, parece surgir uma nova realidade para o idoso, alguém não mais incapaz, mas alguém que pode viver a fase do envelhecimento com maior qualidade.
No site em análise há um novo conceito do processo de envelhecimento, uma novidade a ser absorvida e administrada a curto prazo. E há também proposição de novos comportamentos em relação ao grupo da terceira idade (estipulada em 65 anos nos países mais desenvolvidos e 60 anos, nos países em desenvolvimento, como o Brasil), ou seja, tais comportamentos seriam tanto do sujeito que envelhece quanto daqueles que estão ao seu redor. O envelhecer não seria mais um tempo de passividade, doenças e depressão, pois àquele que envelhece cabe mudar a forma de pensar e agir, perceber que mesmo com todos os problemas inerentes a idade, o sujeito pode por meio da Ciência e da tecnologia encontrar meios para tornar sua vida melhor e mais saudável.
Em vista disso, é possível observar outro fenômeno: a maior sobrevida de pessoas acima dessa faixa etária. Consequentemente elas buscam novos significados para sua existência e a garantia de uma qualidade mínima de vida. Quem sabe a busca desses seres humanos enquanto parceiros da terceira idade, idosos, ou qualquer outro nome que lhes deem, seja um pouco mais positiva do que foi sua existência. Talvez eles possam amenizar o ciclo que se encerra, da mesma maneira como o iniciaram, com sonhos e com dignidade. O site em análise se mostra entusiasta dessa postura, pois afirma que só depende de cada sujeito uma vivência mais digna e feliz, para tanto bastaria uma nova postura diante da vida.
No entanto, sabe-se que os problemas existem e sempre existirão na terceira idade ou para aquele que envelhece. É sabido que a vida do idoso é marcada por dificuldades físicas, biológicas, sociais, psicológicas, financeiras e outras, que ainda existe culturalmente preconceito em relação ao velho: ninguém quer envelhecer, ninguém quer ser chamado de idoso ou velho. E que a vida, nessa fase, para ser digna e mais feliz geralmente ocorre apenas para as pessoas de classes mais favorecidas que tem acesso a planos de saúde melhores, a uma aposentaria mais abastada, a tecnologia e a todas as coisas que todos deveriam ter acesso.
Desde o começo da vida, podem surgir noções e parâmetros no sonho de encerrá-la dignamente, com a mesma escala de valores apreendida na infância, não importando se foi no século XIX, ou na modernidade líquida.
O sucesso da busca da felicidade, propósito declarado e motivo supremo da vida individual, contínua a ser desafiado pela própria forma de persegui-la. (A única forma pela qual esta pode ser perseguida no ambiente líquido moderno). A infelicidade resultante justifica e vigora a política de vida autocentrada. Seu produto final é a perpetuação da liquidez da existência. A sociedade líquido-moderna e a vida líquida estão trancadas num verdadeiro moto contínuo. (BAUMAN, 2005, p. 20).
Se já temos valores preestabelecidos em relação ao envelhecimento, fazem-se necessárias, neste momento, para interagir com o discurso apresentado, algumas fundamentações sobre a modernidade líquida.
O termo “modernidade líquida” tem, para algumas pessoas que o conhecem, uma ideia negativa, no entanto não é bem assim. O termo tem seu lado interessante, visto que apresenta uma situação paradoxal, indicando uma sucessão de movimentos e reinícios, sem uma forma fixa e já conhecida.
O homem da terceira idade tem seus conceitos e valores dentro de um patamar, para ele já encerrado, finito. Porém a sociedade não aceita nem acolhe esse ser envelhecido, porque obrigatoriamente existe um discurso implícito de pertencimento, o qual exige que o idoso pertença a um grupo, mas também que não perca sua independência. Isso mostra a relação paradoxal que vive o indivíduo na atualidade, isto é, ao mesmo tempo em que precisa ser indivíduo deve pertencer ao grupo e não há como ser indivíduo e social ao mesmo tempo. Tudo isso angustia o ser da contemporaneidade, no caso específico do ser que envelhece ao mesmo tempo em que precisa assumir sua condição de ser envelhecido, tem que se assumir também em condições de vida que são características do ser jovem, portanto, o sujeito vive num constante paradoxo: ser ou não ser idoso.
Desse modo pode-se pensar em uma espécie de (re)significação dos ciclos da vida humana, uma necessidade de tomar posse de seu lugar, considerando que tudo é muito momentâneo e efêmero, que a modernidade líquida nos impõe uma rapidez que nos transforma em algo diluído pela velocidade. É possível, então, partir do pressuposto de que, em função dessa fluidez, o homem que está caminhando para a terceira idade tem marcas na pele, no corpo e também na alma e por outro lado é apresentado pela mídia como alguém que não aparenta nenhum processo de envelhecimento.
Como exemplo, podemos identificar na pintura de Arcimboldo (Milão -1527-1593) pertencentes ao Maneirismo dos séculos XVI e XVII a representação do velho na imagem de um rosto construído a partir de elementos da natureza como raízes, troncos, folhas, frutos e etc. Percebe-se que a representação da velhice é disfórica como um tempo em que as coisas perdem o viço das cores vibrantes e são substituídas pelo tom sóbrio, escuro, sugerindo o desgaste, a estaticidade, sem flexibilidade e a falta de dinamismo. Na tela de Arcimboldo, o rosto representa o inverno que corresponderia à velhice tem-se a imagem de um ser sério, com um olhar que parece olhar para um ponto distante, tudo isso construído sob um fundo escuro somado aos
galhos e raízes secas em destaque e simula a pele envelhecida, desgastada e sem viço do ser idoso, tudo é simulado numa aura de sobriedade, como se pode notar na figura 1.
Fig. 01 – “O Inverno”, Giuseppe Arcimboldo.
Fonte: <http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=1683>
Diferentemente, no site em análise o rosto do ser que envelhece é mostrado com cores vibrantes, numa aura de dinamismo e alegria.
Fig. 02 – Foto de um rosto de um homem maduro no site Maisde50. Fonte: <http://www.maisde50.com.br>
Na foto do site em análise, embora não seja uma tela, retrata um ser na velhice e o jogo das cores ocorre de maneira bem diferente, o fundo claro com o branco e a pele num tom avermelhado sugere dinamismo, vibração e um posicionamento bem diferente do visto nos séculos XVI e XVII, ou seja, uma fase muito mais ativa e dinâmica do que a anterior.
Percebe-se assim que, com esse novo discurso, o sujeito tem que ser abrangente, ter uma visão ampla para estar inserido num ambiente tecnologizado, caso contrário será excluído. Parte-se do pressuposto de que em uma sociedade líquida, o cidadão da terceira idade precisa ser ao mesmo tempo velho e novo, dinâmico, ver além e estar além de seu tempo, caso contrário, será como um objeto que pode ser descartado ou substituído a qualquer momento.
Com essa fragmentação, se assim se pode dizer, resta ao homem da terceira idade adaptar-se ou perecer. Parafraseando Bauman (2005), antes a sociedade tinha valores fixos, relacionamentos estáveis e isso passava confiabilidade para as pessoas. O pai era o responsável único pelo orçamento doméstico, a mulher cuidava da casa e organizava tudo em função do bem estar da família, as crianças estudavam apenas, o avô tinha a voz da experiência, de decisão e poder. Mas ninguém pode ignorar que isso só acontecia nos meios sociais privilegiados, na classe pobre, pai, mãe e filhos, todos trabalhavam duro e muitas crianças não podiam estudar. Ser velho significava entrar numa fase de maturidade, como ocorria na natureza, momento em que os frutos que não são colhidos, caem e servem de adubo para que um novo processo se inicie momento de estaticidade, falta de flexibilidade e quietude, tudo isso sob a aura da sobriedade e do recolhimento.
Tal visão parece ser substituída por uma imagem do ser que envelhece mais dinâmica, muito mais próxima da atividade, da flexibilidade, do movimento diferente daquilo que de certa forma já estava estabelecido na memória.