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O processo de Envelhecimento não deveria se limitar ao estudo de uma faixa etária específica. A velhice não é uma categoria natural e, sim, socialmente construída. O ciclo biológico do ser humano, que envolve o nascimento, o crescimento e a morte, considerado fato universal, também possui seu aspecto social, cultural e histórico que se diferencia nos diferentes contextos ambientais. Entender o Envelhecimento como fato do desenvolvimento humano deve superar as categorias de idade.

Para Debert (2006), a idade não é um dado da natureza, nem um princípio naturalmente constitutivo de grupos sociais. As grades de idade variam de acordo com a cultura e a periodização da vida implica um investimento simbólico, elaborado por meio de rituais, que não são os mesmos em todas as sociedades. Para a Antropologia, o estudo desse tema considera o viés cultural, que classifica e divide a vida em etapas. Já a Psicologia focou por muito tempo, por meio das teorias do desenvolvimento as fases da infância e da adolescência, somente voltando seu interesse para velhice, após a década de 50.

Para Neri (1995), a Psicologia do desenvolvimento não tinha lugar para o Envelhecimento. A falta de uma perspectiva evolutiva estagnou os avanços científicos da área sobre o tema e a velhice estava ligada a um caráter involutivo do homem.

Neri (1995) explica que, entre 1900 e 1940, as teorias do desenvolvimento compartilhavam concepções enraizadas na tradição organicista-evolucionista (Darwin e Stanley Hall) e descreviam princípios baseados em estágios ou fases de vida. A autora evidencia que, colocar a ciência a serviço dos ideais de progresso dominantes, justificou a valorização da infância, o foco na diminuição da mortalidade infantil, no aumento da produção e necessidades sociais vigentes.

Tura, Carvalho e Bursztyn (2014) ao concordarem com essa ideia, argumentam que a infância significa o futuro, o cuidar e o ensinar, e a velhice significa o passado, a memória e, também, o cuidar. Porém, a criança, o adolescente, o adulto e o velho têm diferentes papéis sociais. O adulto está no topo do desenvolvimento humano, é quem melhor representa o modelo de sociedade industrial e a lógica financeira e tecnológica vigente. Para os autores, é necessária uma recriação da velhice, uma revisão da própria curva da vida e do papel de cada etapa.

A compreensão do Envelhecimento envolve o estudo de toda nossa trajetória de vida e não apenas de uma faixa etária específica, visto que é definida culturalmente. Os desafios emergentes na compreensão do Envelhecimento, quando associados ao conceito de desenvolvimento, implicam novas questões com relação ao tema. Superar as perspectivas teórico-metodológicas vigentes pode significar um avanço do conhecimento nesse campo de investigação (WITTER E BASSIT, 2010).

Para Neri (2012), dizer que o Envelhecimento e o desenvolvimento humano são processos concorrentes significa considerar as mudanças evolutivas que envolvem perdas e ganhos. Isso requer um grande esforço para explicar o que se desenvolve, o que se mantém e o que se perde nesse processo para entender sua relação com as intervenções sociais, científicas e tecnológicas implicadas no Envelhecimento.

Como percebemos, abranger a velhice como parte do desenvolvimento passou a ser um dos grandes desafios para a Psicologia do Desenvolvimento. Podemos, inclusive, inferir se não houve desinteresse da ciência com o tema, uma vez que estudar a velhice não correspondia às necessidades demandadas pelos modelos de produção. Isso, somente aconteceu mais tarde, num processo de transição que incluiu a velhice como parte do desenvolvimento humano.

Segundo Neri (2013), nesse processo de transição ocorreu o surgimento de teorias de desenvolvimento que ampliaram os modelos clássicos (de estágio, crescimento e ciclo de vida). No grupo das teorias de transição destacam-se: a teoria do desenvolvimento da personalidade de Erikson (1959) e a teoria social- interacionista de Neugarten, Moore e Lowe (1969). São consideradas de transição porque substituem a ideia de linearidade por concepções mais dialéticas do desenvolvimento ao longo de toda a vida, incluindo o processo de Envelhecimento.

Erikson (1959) propôs a teoria da personalidade ao longo da vida numa sucessão de oito fases. As fases do desenvolvimento humano de Erikson são caracterizadas por crises psicossociais, tarefas evolutivas e qualidades do ego que permitem a modificação de vivências

e comportamentos ao longo do desenvolvimento. A oitava fase, da velhice – integridade do ego x desespero – é caracterizada pela qualidade de sabedoria do ego e envolve tarefas de autoaceitação, elaboração sobre legado espiritual, cultural e sobre a morte.

Em relação às teorias de desenvolvimento e velhice, Neri (2012) também destaca o aparecimento de abordagens contemporâneas, associadas ao paradigma de desenvolvimento ao longo da vida: a teoria de desenvolvimento ao longo do curso de vida (life span), de Baltes; a teoria de seletividade socioemocional de Carstensen; a teoria de controle primário e secundário de Heckhausen e schulz; e a teoria de eventos críticos de Diehl. Aqui, será de nosso interesse a abordagem do curso de vida, como veremos a seguir.

Entre 1987 e 2014, Paul Baltes e seus colaboradores difundiram inúmeros estudos sobre o Curso de Vida – uma orientação para compreensão do desenvolvimento humano. Nessa perspectiva, o desenvolvimento se dá num processo que ocorre por todo curso de vida, contrapondo-se aos modelos teóricos do desenvolvimento largamente conhecidos. Com destaque para o conceito de ontogênese (desenvolvimento do ser), esta orientação pressupõe que, em todas as fases (infância, adolescência, adultez e velhice) ocorrem processos adaptativos de continuidade e mudança (GÜNTHER e BORGES, 2014).

Segundo Neri (1995), nessa perspectiva flexível e dialética, o desenvolvimento é resultado de uma série de eventos normativos e não normativos. Os normativos são de origem ontogenética (biológica e histórico-cultural) e os não normativos referem-se àqueles que não podem ser previstos como idênticos para todas as pessoas, ou no mesmo tempo, tendo em vista sua ocorrência idiossincrática. “A velhice é vista como uma experiência heterogênea, que comporta ganhos e perdas e é determinada por um amplo espectro de variáveis em interação” (p. 26).

Desse modo, o desenvolvimento humano não se encerra com o fim do crescimento somático e envolve perdas e ganhos durante todo o ciclo de vida. Com base nas mudanças da capacidade adaptativa, o ser humano se desenvolve considerando as regularidades, diferenças e similaridades entre as pessoas e a plasticidade individual do desenvolvimento. Estes são princípios reconhecidos que assinalam a complexa relação entre os fatores endógenos e exógenos do organismo que influenciam o desenvolvimento humano (GÜNTHER E BORGES, 2014).

Günther e Borges (2014) explicam três funções gerais do desenvolvimento humano na proposta de Baltes e Baltes (1990) e Baltes (1997) e perspectiva de Curso de Vida: o crescimento, a manutenção e a regulação de perdas. Durante o desenvolvimento, a pessoa utiliza estratégias adaptativas de seleção, otimização e compensação (SOC): Seleciona

domínios que correspondem as suas habilidades e demandas ambientais para obter satisfação; Otimiza seus recursos por meio dos engajamentos que melhoram suas condições e respostas físicas; e Compensa suas capacidades que foram diminuídas abaixo das condições esperadas.

Neri (1995) também realça outras funções e características relacionadas às estratégias de adaptação. As mudanças etárias são vistas em várias classes de mudanças ontogenéticas e históricas e o Envelhecimento é caracterizado por uma complexidade de processos de desenvolvimento contínuo. A autora apresenta as principais preposições da teoria do curso de vida sobre o desenvolvimento:

a) O desenvolvimento ontogenético ocorre por todo o curso de vida e envolve processos de mudanças genéticas em todos os momentos do ciclo vital. Nenhum período tem proeminência sobre outro;

b) O desenvolvimento é multidirecional e possui processos de crescimento e declínio sobrepostos que se dão em ritmos e períodos diferentes no curso de vida. As mudanças assumem várias direções e envolvem perdas e ganhos com adaptações constantes;

c) A proporção de perdas e ganhos sofrem alterações ao longo de toda vida e possui variabilidade, potencialidade e limites individuais consideráveis. O desenvolvimento é marcado pela plasticidade, ligada às condições sócio-históricas, demarcada por períodos coincidentes entre as pessoas, os grupos etários e as gerações;

d) A natureza das condições afeta o desenvolvimento individual e dos grupos etários. Os cursos de vida resultam da interação dialética entre os sistemas de influência, gradação de idade, contexto histórico e eventos não normativos (fora do esperado – crises);

e) O desenvolvimento humano é multideterminado e multifacetado, assim sendo relevante o conhecimento interdisciplinar (NERI, 1995).

Witter e Bassit (2010), por meio da perspectiva do curso de vida, consideram que o Envelhecimento é pautado por um pressuposto em que estão envolvidas experiências diversificadas e que estas envolvem aspectos biológicos, sociais, históricos e culturais que dão sentido às histórias de vida como recurso metodológico importante para o tema. As experiências de vida permitem apreender tanto as formas pelas quais as pessoas e grupos sociais envelhecem, como os diferentes contextos implicados.

Quando consideram os aspectos históricos e culturais, Rutz e Hamdan (2013) também realçam que durante toda a vida as pessoas levam tempo aprendendo diversas tarefas psicológicas importantes para a adaptação social. As fases da vida trazem crises normativas que são entendidas entre competências e demandas sociais. Assim, ao longo de todo o desenvolvimento, as pessoas respondem ao ambiente por meio de estratégias de enfretamento

dessas crises, aprendendo competências e habilidades de acordo com as demandas psicossociais. Para entender o desenvolvimento psicossocial é preciso considerar a qualidade e diversidades de fatores envolvidos nessas relações.

Os indivíduos utilizam diversos processos para regularem o desenvolvimento ao longo do curso de vida. Esses mecanismos também auxiliam os idosos a enfrentarem desafios perante às novas demandas, de forma que alcancem seus objetivos. Khoury e Günther (2008) realçam que os processos de auto-regulação do curso de vida são conhecidos na literatura por meio de termos como auto-eficácia, resiliência, competência, controle pessoal, entre outros. Também discutem os conceitos de controle primário e controle secundário. No controle primário, o indivíduo busca adaptar o ambiente as suas necessidades e no controle secundário se adaptar ao ambiente. Esses processos são fundamentais para a compreensão do desenvolvimento humano da infância à velhice.

A capacidade de moldar o ambiente à sua vontade, de transformá-lo, adaptando- o às próprias necessidades e projetos é o que essencialmente distingue o homem dos outros animais [...] Entende-se que controle primário e controle secundário são dois processos complexos, ambos envolvendo ação e cognição, os quais se distinguem em função do objetivo/finalidade do indivíduo: adaptar o ambiente a si ou adaptar-se ao ambiente. O controle primário diz respeito a esforços de realização, dirigidos à concretização de metas. O controle secundário se constitui em esforços de adaptação a situações percebidas como incontroláveis ou difíceis de controlar. A função do controle secundário é, portanto, compensatória. Por um lado, o controle secundário auxilia o indivíduo a lidar com perdas ou fracassos e, por outro, preserva a crença em sua capacidade (potencial) para exercer o controle primário, a despeito das adversidades (KHOURY E GÜNTHER (2008), p. 151).

Segundo Günther e Borges (2014), na maturidade desenvolvemos diversas expressões de continuidade e mudanças. Do mesmo modo que ocorre uma transição, vivemos a continuidade de um ciclo anterior.

Com relação à perspectiva do curso de vida, Neri (1995) realçou as ideias de Baltes de que o Envelhecimento compreende um processo de transformação do organismo em diferentes épocas e para diversas partes e funções. Esse processo ocorre em ritmos diferentes para os indivíduos e envolve elementos biológicos, genéticos, ecológicos, psicológicos e socioculturais que se interagem. O desenvolvimento inclui a prescrição de papéis e normas etárias que desempenham funções fundamentais na aprendizagem de expectativas sociais e individuais ligadas às funções reguladoras e críticas de adaptação.

Por fim, a partir dessas considerações, pensamos que o Envelhecimento e o desenvolvimento podem ser compatíveis por meio de investimentos científicos e tecnológicos. Estes, por sua vez, podem contribuir para o entendimento do processo da velhice, de forma a assegurar que o potencial e a autonomia não sejam comprometidos, ampliando o desempenho de vida do idoso.

2 DIREITOS HUMANOS E A PESSOA IDOSA

O debate científico sobre Envelhecimento e sua relação com os Direitos Humanos e a Cidadania ainda está em expansão. Possivelmente, por se tratar de um tema que envolve uma complexidade de variáveis não investigadas em alguns campos de estudo. Vimos no primeiro capítulo que, grande parte das pesquisas, surgiu de disciplinas relacionadas à área de saúde e que este tem sido um dos enfoques, quando se propõe investigar as experiências de idosos no mundo e no nosso país.

Os temas de Direitos Humanos e Cidadania também são complexos e têm caráter interdisciplinar. Muitas vezes, os interesses em determinada área ou demanda surgem incentivados pelas violações. No caso do idoso, as pesquisas (Faleiros, 2007; Neri, 2007; Giacomin, 2012) têm demonstrado que o aumento da população idosa no mundo, assim como acontece no Brasil, tem sido uma dos principais motivos de incentivo a sua investigação.

Neste capítulo, veremos que o aumento populacional não pode ser visto como um fenômeno simplificado e restrito. As dificuldades enfrentadas pelos idosos caracterizam uma realidade que ainda não é compreendida pela sociedade e pelos governos. Envelhecer passou a ser um desafio que envolve o indivíduo, a família, o poder público e toda a sociedade. A garantia de Direitos Humanos e de Cidadania para o Envelhecimento passou a ser uma prioridade.

O alcance desses direitos requer da sociedade um novo modo de lidar com a velhice. Um país que ainda desvaloriza seus idosos precisa discutir mais os problemas e soluções que atingem a todos. Este capítulo pretende apresentar a evolução dos Direitos Humanos e da Cidadania da pessoa idosa, por meio de uma síntese do panorama que envolve a questão do idoso.

Nosso objetivo é apresentar como o debate sobre o Envelhecimento humano tem se manifestado no mundo e no Brasil. Quais as questões principais dos estados e da sociedade diante do crescimento populacional e dos “lugares” que as pessoas idosas ocupam nas relações sociais e políticas? Apresentamos parte da pauta de Direitos Humanos para longevidade e suas influências na promulgação de leis, voltadas para defesa da Cidadania no Envelhecimento. Por fim, encerramos com a exibição do cenário de políticas públicas para velhice e as reflexões acerca deste tema.