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CAPÍTULO II – PERSPETIVA EVOLUTIVA DA COMUNIDADE

2. Promoção da igualdade género na comunidade internacional

2.2. A comunidade internacional e a promoção da igualdade de género

2.2.1. Envolvimento das mulheres nos processos de paz

Chhabra (2006), afirma que as mulheres estão na vanguarda dos esforços para a paz em grande parte do mundo. Uma vez reconhecida a importância do seu papel, as mulheres passaram a desempenhar um papel proativo no processo de negociações de paz, na construção da paz e atividades pós-conflito após o acordo de paz. Quer individual ou coletivamente, as mulheres deram e continuam a dar importantes contributos para a resolução dos conflitos.

São vários os exemplos de conversações para a paz recentes onde as mulheres foram excluídas, mas é também importante referir que algumas das conversações que no início não contavam com a presença de uma mulher, sofreram transformações importantes que levaram à inclusão de mulheres. O caso das negociações nas Filipinas retratado por Ariño (2015), mostra como a sua inclusão não é apenas possível como também desejável devido à força que a sua presença e contribuição aumentam os processos de diálogo. O ano de 2014 foi crucial para o processo de paz das Filipinas, a região de Mindanau. Na região de Mindanau, o acordo final que pôs fim ao conflito armado foi assinado em março de 2014. As mulheres ocuparam posições importantes nas equipas de negociação e a líder da equipa do governo era uma mulher. Em um marco sem precedentes, o acordo foi assinado em nome do governo filipino por uma mulher, Miriam

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Coronel-Ferrer35. Juntamente com a inclusão de mulheres nos grupos de negociação, as organizações de mulheres da sociedade civil também desempenharam, e continuam a desempenhar, um papel crucial no acompanhamento e implementação dos diferentes acordos alcançados, incluindo o acordo de cessar-fogo (Ariño, 2015).

No Paquistão, as mulheres juntamente com crianças e homens participaram em marchas contra a guerra de Kargil. As mulheres ativistas tomaram a liderança dos protestos contra os testes nucleares que foram levados a cabo nas colinas de Xangai, aos quais vincularam a descriminação regional e a negação dos direitos democráticos (Chhabra, 2006).

A um nível global, as mulheres têm tido impactos ativos nos assuntos da paz e do desarmamento. Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 1200 mulheres de países em guerra ou neutros, uniram-se para protestar contra o conflito e criaram a Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade. Desde esse momento, as mulheres em todo o mundo continuaram a seguir o objetivo de contribuir para o desarmamento, a eliminação de armas de destruição massiva e procurar um maior envolvimento nos processos de paz. Graças aos seus esforços, devido à descoberta de malefícios radiológicos no leite materno provenientes dos testes nucleares, contribuíram para a conclusão do Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares em 1963. Mulheres na República Democrática do Congo, Libéria, Ruanda, Somália, Quénia, África do Sul, Sri- Lanka e Sudão basearam-se na sua autoridade moral enquanto mães, esposas ou filhas e pediram o fim do conflito armado. Organizam-se de modo a prevenir que os seus filhos sejam recrutados ou implantados em determinados conflitos e também para saber do seu paradeiro. A Cooperação Nacional de Viúvas de Guatemala, por exemplo, continua com campanhas contra o recrutamento de jovens utilizando várias justificações, incluindo a dependência económica das mães para com os seus filhos. Na Colômbia, as mães, esposas e familiares dos soldados e polícias que são retidos pelas guerrilhas, trabalham com agências do governo e grupos de guerrilha para chegar a acordos humanitários (United Nations, 2002).

Em Burundi, a quota de 30% mínimo de mulheres representantes em gabinetes, assembleia nacional, no senado e no governo local (a partir de 2009 este último), estabelecida na Constituição de 2005, foi alcançada nos dois períodos de eleições pós- conflito. Incluiu a nomeação das primeiras mulheres a atuar enquanto presidente e vice-

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presidente do Parlamento, e também de mulheres a ocupar cargos em ministérios principais – justiça, comércio e relações externas. Esta veio a ser uma grande vitória conquistada pelo movimento transnacional feminino do Burundi pelo seu trabalho árduo na tentativa de incluir as preocupações de género e os direitos das mulheres, primeiro nos acordos de paz e depois na Constituição. Esta foi também uma grande vitória devido ao histórico de constante exclusão das mulheres dos processos de paz, sendo que apenas 5% das representantes eram mulheres (baixo número de mulheres participantes nos processos de paz até então (Domingo, O’Neil & Foresti, 2014).

Segundo a UN Women (2015), nas recentes negociações de paz na Colômbia, as mulheres participaram como conselheiras especialistas do género, negociadoras, enquanto sobreviventes e em delegações de mulheres afetadas pelos conflitos. Vieram a constituir um terço dos participantes sentados à mesa de negociações e 60% de vítimas e especialistas. Os negociadores, de ambas as partes do conflito, encontraram-se com as mulheres afetadas pelos conflitos e ouviram as suas preocupações e necessidades. Duas semanas após a Cimeira Nacional das Mulheres e da Paz, foi alcançado um acordo nas conversações sobre a participação política, aí foi reconhecida a importância do papel das mulheres na prevenção dos conflitos e na sua resolução. O Presidente Santos, num acontecimento sem igual, nomeou duas mulheres para representarem o governo com um grande poder de decisão. Pela primeira vez o processo de paz da Colômbia contou com um subcomité de género e com um acordo final com inclusão do género. Sem precedentes, todas as áreas do acordo de paz contaram com a perspetiva de género.

Nos dias de hoje, mesmo havendo já um alto nível de reconhecimento por parte da comunidade internacional relativo à importância do papel das mulheres e a necessidade de incluí-las, bem como as suas necessidades e contributos em todas as áreas de tomada de decisão nas negociações e acordos de paz, ainda é grande o número de mulheres que são excluídas dos processos formais que conduzem à paz. Todo o processo ligado à implementação da perspetiva de género na realidade internacional, sobretudo a partir da década de 1970, não funcionou de forma efetiva em todos os momentos. Segundo Moura (2005), atualmente, há de facto uma perceção cada vez mais significativa de que é importante olhar para as necessidades das mulheres enquanto grupo alvo de violência, bem como enquanto atores ativos para a construção da paz, porém os números ainda estão aquém dos desejados. Os programas institucionais, como é o caso dos levados a cabo pelas Nações Unidas, continuam a ostracizar o impacto que os conflitos na vida de raparigas e mulheres e propagam relações de poder distintas que contribuem para a

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consecutiva subordinação das mulheres. Por esse motivo, e apesar de todos os esforços por parte da comunidade, os processos de consolidação e construção da paz ainda continuam altamente masculinizados. As mulheres ainda continuam a ser consideradas como vítimas passivas dos conflitos armados e dessa forma, veem ser-lhes negadas oportunidades de atuação nos processos que conduzem à paz.

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CAPÍTULO III – NAÇÕES UNIDAS E A PARTICIPAÇÃO FEMININA NO