3 REVISÃO DE LITERATURA
3.6 ENVOLVIMENTO E ENGAJAMENTO PARENTAL
O envolvimento e o engajamento parental referem-se às atividades de interação e participação dos pais na vida de seus filhos. Com relação ao termo envolvimento, a definição mais utilizada na literatura sobre o termo remete ao conceito de Lamb et al. (1985), que o definem partir de três dimensões: acessibilidade (presença e disponibilidade do pai para com a criança, sem que ocorra interação direta entre eles), interação (engajamento ou contato direto com o filho em cuidados e atividades compartilhadas como brincadeiras ou lazer) e responsabilidade (papel que o pai exerce garantindo cuidados e recursos para a criança como levar o filho ao médico ou participar de reuniões na escola).
Já o termo engajamento é recente na literatura psicológica, portanto, ainda pouco utilizado especialmente pela literatura nacional e foi originalmente introduzido nos estudos sobre paternidade, visto que as mudanças sociais abriram caminho para a conceituação do engajamento de cada um dos pais, sendo que o envolvimento da mãe já era estudado há anos. A equipe ProsPère (http://www.graveardec.uqam.ca/prospere/) sediada no Québec (Canadá) e formada por pesquisadores de diversas áreas que se dedicam ao estudo da paternidade, adota o termo engajamento paternal como sinônimo de envolvimento paterno e o conceitua como a participação e a preocupação contínua do pai com a criança (Dubeau et al., 2009). Assim, o termo engajamento é definido como a participação e a preocupação contínua do pai biológico ou substituto, acerca do desenvolvimento e bem-estar físico e psicológico de seu filho. O engajamento se exprime de diferentes formas e se desenvolve passo a passo a sua maneira:
- Pai em interação: presença do pai para com a criança, direta ou indireta.
- Pai que cuida: compartilha as tarefas cotidianas. - Pai afetuoso: gestos e palavras que tranqüilizam e encorajam.
- Pai responsável: realiza tarefas para o desenvolvimento da criança.
- Pai provedor: promove apoio financeiro para as necessidades da criança.
- Pai evocativo/significativo: pai que pensa na criança (Dubeau et al., 2009, p.75, tradução livre). De acordo com Lamb (1997), a partir da década de 70 muitas pesquisas passaram a investigar a natureza e a extensão das interações pai-filho e, para isso, são conceituados termos como o envolvimento e o engajamento paterno. Depois de tentar acessar o fenômeno da paternidade, os termos passam a ser estendidos também para o estudo da maternidade e, para a comparação da interação de pai e mãe no cuidado com os filhos.
Em levantamento bibliográfico entre os anos de 2000 e 2010, Gomes, Bossardi, Crepaldi e Vieira (2010, artigo não publicado) investigaram a incidência de artigos científicos na literatura nacional e internacional, sobre esta temática, indexados nas bases de dados, LILACS, MEDLINE, Science Direct, SciELO e Pepscic. Utilizando como descritores os termos envolvimento paterno, engajamento paterno, paternal involvement, paternal engagement, father engagement, engagement paternel, os autores verificaram que há um número maior de pesquisas com o termo envolvimento ou involvement do que com o termo engajamento ou engagement. Confirmando que o termo engajamento ainda é novo e pouco explorado na investigação da paternidade.
Assim, confirma-se a existência dos três termos utilizados para investigar o comportamento paterno, que de acordo com as definições e discussões na literatura estão interligados. Para o presente estudo, concorda-se com as definições já existentes e propõe-se investigar o envolvimento e o engajamento como sendo a participação e a interação parental com os filhos. O termo investimento aparece como pano de fundo para compreensão dos resultados, pois supõe-se que um alto engajamento dos pais com os filhos pode aumentar as chances de sobrevivência da espécie.
A participação parental e, principalmente, a paterna, vem sendo definida pela intensidade do relacionamento com a criança (quanto tempo o pai gasta com a criança), pela natureza da relação com a criança (o que o pai faz com a criança) e pela qualidade do relacionamento com a criança (como o pai faz com a criança). Metodologicamente, as pesquisas utilizam de meios quantitativos e qualitativos. No que se referem aos quantitativos, muitos instrumentos são criados para acessar o comportamento da mãe com a criança e poucos permitem acessar o pai (Dubeau et al., 2009).
Para pesquisar o pai, a equipe ProsPère desenvolveu e validou a partir de uma amostra de 468 pais, um questionário sobre o engajamento paterno (QEP) (Paquette, Bolte´c, Turcottea, Dubeau & Bouchard, 2000), o qual também será utilizado nessa pesquisa. Para Dubeau et al. (2009), adotar uma visão multidimensional do engajamento permite uma análise mais aprofundada das diferenças que possam existir entre os pais (homens), mas também entre as mães e pais sob diferentes formas de engajamento. O QEP contém sete dimensões, que assim como no estudo de Bandeira (2009), permitem identificar diferentes formas de engajamento: suporte emocional, abertura ao mundo, cuidados básicos, jogos físicos, evocações, disciplina e tarefas de casa.
Diversos estudos têm enriquecido a investigação sobre fatores associados ao envolvimento paterno. Desse modo, algumas pesquisas centram-se nos determinantes do envolvimento, mas referem que existem muitas lacunas sobre como está se dando o engajamento paterno e quais são efetivamente os determinantes que o influenciam (Falceto et al., 2008; Feldman, 2000; Lamb, 1997; Pettit et al., 2007; Pleck, 1997; Saraff, & Srivastava, 2009; Schoppe-Sullivan et al., 2008; Silva & Piccinini, 2007; Souza & Benetti, 2008; Turcotte & Gaudet, 2009).
O engajamento familiar humano tem sido tema de interesse de pesquisadores por suas características aparecerem em todas as culturas e também pela influência que exerce no desenvolvimento das pessoas (Vieira & Prado, 2004). Em levantamento bibliográfico nas bases de dados sobre o tema que envolve o pai e a paternidade, no período de 2000 a 2007, Souza e Benetti (2009) encontraram 263 artigos internacionais e 90 artigos nacionais. As publicações internacionais englobaram 136 artigos qualitativos, 85 teóricos e 42 quantitativos.
Os Estados Unidos, a Inglaterra e o Brasil, apresentaram produções durante todo período avaliado, demonstrando significativa contribuição com o tema. Dubeau, et al. (2009) sugerem que a investigação sobre as especificidades de pai e mãe no cuidado aos filhos e no desenvolvimento dos mesmos ainda é um campo pouco explorado. As diversas pesquisas sobre o tema marcam que as mães tendem a se envolver mais do que os pais em tarefas domésticas e de cuidado aos filhos. São necessários novos estudos para compreender as mudanças nas relações parentais e o impacto delas para a família e para a sociedade (Borsa & Nunes, 2011).
Pesquisas evidenciam modificações dos papéis parentais como a entrada da mulher no mercado de trabalho e a maior participação paterna nos cuidados com os filhos e nas tarefas domésticas (Saraff & Srivastava, 2009, Silva & Piccinini, 2007; Wagner et al., 2005). O aumento da participação da mulher no mercado de trabalho é apontado como um fator
que levou os homens a assumirem maiores responsabilidades dentro do lar. O trabalho fora de casa diminui o contato da mãe com seus filhos e o pai que antes passava a maior parte do tempo fora de casa para garantir o sustento familiar, é chamado ao encontro de um contato mais direto com as crianças. Ainda que ocorrendo em escala bem menor que a esperada ou desejada, a participação e o envolvimento do pai no cuidado com os filhos e nas funções do lar estão sendo evidenciados, mesmo sendo a mãe identificada como a principal responsável pelo cuidado e pelas tarefas de casa (Bossardi, Gomes, Vieira, & Crepaldi, 2013; Jablonski, 2010). Paquette, Carbonneau, Dubeau, Bigras e Tremblay (2003) referem que os estudos empíricos relacionados ao envolvimento têm revelado que o pai é menos envolvido do que a mãe, em todos os aspectos da parentalidade, exceto jogos físicos.
Esses resultados vêm ao encontro da pesquisa de Jablonski (2010) que investigou com vinte membros de casais urbanos de classe média como vem se dando a negociação de tarefas dentro do lar face às novas demandas impostas pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres dizem caber a elas o maior fardo das tarefas e responsabilidades domésticas e com os filhos e qualificam a participação dos maridos como um fator positivo e bem-vindo. A disparidade na divisão de tarefas, não faz as mulheres perceberem tal fato como um problema e uma fonte de conflitos, o que demonstra a força da influência de modelos parentais tradicionais no que diz respeito aos papéis de gênero.
Na busca de identificar tipos de parentalidade de acordo com algumas variáveis, um estudo utilizando o QEP com 468 famílias biparentais canadenses revelou que o pai está mais envolvido com a disciplina e menos com suporte emocional. Foram reveladas diferenças significativas entre as médias das dimensões do instrumento. A jornada de trabalho do pai também apresenta resultados significativos, quanto mais o pai trabalha menos se envolve em cuidados básicos. Quanto maior o número de filhos, menor envolvimento em suporte emocional, cuidados básicos, jogos físicos e evocações. Quanto mais velho é o pai, menos ele realiza abertura ao mundo, jogos físicos e evocações (Paquette et al., 2000).
Relações entre envolvimento e coparentalidade foram estabelecidas em famílias de crianças em idade pré-escolar, por meio de um estudo longitudinal com 112 casais biparentais. Um ano depois do primeiro contato, os pais respondem sobre seu envolvimento em atividades de brincadeira e de cuidado com a criança focal e o comportamento da coparentalidade foi observado durante interações triádicas. Foram encontradas associações entre envolvimento e coparentalidade, de modo
que o envolvimento teve efeito sobre a coparentalidade. Os resultados sugerem a importância dos fatores contextuais no estudo das relações coparentalidade-paternidade (Rongfang & Schoppe-Sullivan, 2011).
Em um estudo envolvendo 182 famílias biparentais Kotila et al. (2013), investigaram o envolvimento, de acordo com os conceitos de Lamb et al. (1985), em termos de engajamento positivo, responsabilidade, rotina nos cuidados com a criança e acessibilidade. Pais e mães completaram diários onde relatavam o tempo que passavam com as crianças em dias da semana (ou dias em que cumpriam jornadas de trabalho fora de casa) e nos finais de semana (ou dias que não teriam que cumprir jornadas de trabalho fora de casa).
Com relação ao engajamento positivo, as mães interagiram mais do que os pais tanto nos dias de semana, quanto nos finais de semana. Nos finais de semana, as mães aumentaram ainda mais o seu engajamento e também a diferença de horas que passavam com a criança em comparação ao pai. Sobre a responsabilidade, nos dias de trabalho fora de casa, as mães também apresentaram maior índice do que o pai, por outro lado, nos dias sem trabalho fora de casa, não foram encontradas diferenças de responsabilidade entre pai e mãe (Kotila et al., 2013).
No que se refere aos cuidados diários com o filho, as mães passaram significativamente mais tempo envolvidas do que os pais e, os pais, apesar de se envolverem mais em atividades diárias com a criança nos finais de semana do que nos dias de semana, esse aumento não foi suficiente para superar as diferenças com a mãe. Nos dias de semana, as mães demonstraram-se mais acessíveis em comparação ao pai, mas as diferenças entre os sexos não se confirmaram em dias em que os pais não possuíam jornada de trabalho fora de casa (Kotila et al., 013).
Na tentativa de examinar a trajetória de pais e mães durante os primeiros novos meses de vida das crianças e seu envolvimento positivo em atividades com os filhos, Lang, Schoppe-Sullivan, Kotila, Feng, Dush, e Johnson (2014) examinaram 178 casais de famílias biparentais. Os resultados foram divididos pelos dias em que há trabalho fora de casa e os dias em que não há. Mães dispensam significativamente mais tempo do que os pais no engajamento com os filhos em ambos os dias, de trabalho e nos quais não trabalham fora de casa durante os nove meses de vida da criança (aos 03, 06 e 09 meses). Mas o pai, aumentou seu envolvimento com o passar do tempo, relativamente na mesma proporção em que a mãe aumentou o dela.
O envolvimento é visto como um fenômeno multidimensional e, portanto, deve ser investigado por meio de diferentes instrumentos que possibilitem abordar os diversos fatores que este construto abarca. Dentre
os fatores são destacadas as atividades referentes ao envolvimento direto e indireto e também as responsabilidades com o lar, como as tarefas domésticas e providenciar recursos financeiros. Acredita-se que tal abordagem fornecerá informações gerais e específicas sobre o envolvimento e a interação com os filhos, bem como outros aspectos relevantes como a relação com a mãe e a criança (Dubeau et al., 2009; Paquette, Eugène, Dubeau, & Gagnon, 2009; Schoppe-Sullivan, McBride, & Ringo Ho, 2004; Simões et al., 2010).
Diante do exposto, este trabalho propõe investigar variáveis que podem exercer influência na participação do pai. Propõe caracterizar o envolvimento paterno e identificar a relação com determinantes da paternidade como as características do pai (idade, renda, escolaridade, jornada de trabalho, personalidade), características da criança (idade e sexo) e as características da família (relacionamento conjugal e presença da mãe). Pretende-se contribuir com o conhecimento sobre como tais variáveis influenciam no desenvolvimento paterno e qual é efetivamente o papel da mãe para inserir o pai neste contexto, já que para alguns autores (Gaunt, 2008; Goetz & Vieira, 2009; Monteiro et al., 2010; Schoppe- Sullivan et al., 2008) cabe à mãe promover a inserção do pai no contexto, encorajando-o e dando apoio para que ele interaja com a criança, o que significa possibilitar que o pai fique mais tempo sozinho com o filho e se envolva mais com o cuidado dele.
Como fator determinante do envolvimento paterno e materno, o relacionamento conjugal será estudado nessa pesquisa e será descrito nos últimos capítulos dessa revisão bibliográfica. No capítulo a seguir aborda-se a interação ou relação pais-crianças, que está relacionada ao envolvimento, mas como remete o próprio conceito, se refere às atividades propriamente ditas (diretas e bidirecionais) que os pais realizam com as crianças. Este conceito será utilizado para embasar o estudo observacional que será utilizado por este estudo, na tentativa de contemplar a multidimensionalidade e complexidade do fenômeno, por meio de diferentes instrumentos e técnicas.
Dentre as dimensões do envolvimento proposta por Lamb et al. (1985), a interação será definida a seguir, enfocando principalmente os estudos observacionais e as relações estabelecidas entre as variáveis de interesse nesse estudo.
3.7 INTERAÇÃO PAIS-CRIANÇAS E ESTUDOS OBSERVACIONAIS