2. A Natureza da Ciência e a Gravitação
2.4 Epílogo
Utilizamos episódios relativos às pesquisas de Einstein com a Gravitação para ilustrar alguns elementos da Natureza da Ciência e a insuficiência de uma metodologia, ou de metodologias, para analisar a produção de conhecimento científico. Não temos dúvida de que seria possível fazer análises semelhantes com vários outros episódios da evolução da física, e utilizando outros epistemólogos.
A ciência é uma atividade essencialmente humana e, como tal, não pode se restringir a um conjunto de regras fixas, que impossibilitariam seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, deve-se cuidar, principalmente no âmbito escolar, para que uma iconoclastia em relação à ciência não se transforme em uma imagem inadequada às avessas, ou seja, em uma visão de que a ciência é um conjunto de apostas, uma mera tentativa e erro, um simples subjetivismo em relação ao que vemos ao nosso redor.
A ciência é, sim, uma busca objetiva do conhecimento, ao menos a mais objetiva possível, com resultados que atestam sua força, mas isso não significa que sigamos um método específico bem delimitado, uma receita infalível, para tal (Moreira e Ostermann, 1993, Silveira e Ostermann, 2002, Silveira e Peduzzi, 2006). Ao contrário do que possa parecer em um primeiro momento, estas não são colocações mutuamente excludentes. Os cientistas
cometem erros, mas, em vez de se atrapalhar com esses erros, eles dançam ao redor deles, e geralmente usam esses próprios erros como degraus e atalhos para alcançar a sua meta. O caminho errático, imprevisível, por que [...] seguem nas suas caminhadas desafia a lógica e em
geral parece totalmente incompreensível, e, ainda assim, no fim leva a um resultado perfeitamente sensível e lógico (Ohanian, 2009, p. 406).
Sempre há que se começar por algum lugar e, neste sentido, não é difícil acomodar a importância histórica até mesmo do empirismo empedernido. Sempre queremos chegar mais perto de uma suposta verdade e, a menos de uma ou outra exceção, os pensadores que se propõem a entender a atividade científica o fazem de forma séria e compromissada, o que deveria servir de alerta quando pretendemos (e devemos) julgá-los por qualquer improcedência (por sua vez assim julgada por nós), por qualquer limitação em suas argumentações. Essas limitações sempre existirão. Cabe a nós permitirmos a progressão de nossas ideias, e produzirmos cada vez mais teorias o mais objetivas possível (seja em relação à natureza ou às próprias tentativas de entende- la), ficando alerta quanto à possibilidade de cairmos no (frequente) erro de assumir um guia heurístico como verdade última. Algumas ideias de Feyerabend podem ser particularmente revigorantes nesse sentido, mas no geral seria contraproducente negar uma racionalidade à ciência, uma vez que não se conhece forma de conhecimento mais auto-reguladora. Mesmo que essa racionalidade seja atribuída a posteriori, como pretende Lakatos, temos com a epistemologia deste último uma potente lanterna para trazer luz ao caos da compreensão humana.
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