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Episódio 3 – discutindo a conotação no interior do texto

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6 PRÁTICAS INTERATIVAS DE LEITURA

6.1 Interagindo com o Texto ―Muito cedo para decidir‖, de Rubem Alves (Anexo 1)

6.1.3 Episódio 3 – discutindo a conotação no interior do texto

O cerne deste episódio é a conotação existente na expressão ―comunhão de bens e comunhão de males‖ empregada pelo cronista para exemplificar que assim como no casamento, na profissão também fazemos ―eterna comunhão de bens e de males”.

(01)Professora: No texto, o autor diz que:“naquele tempo, sim, casamento era decisão irremediável, para sempre, até que a morte os separassem eterna comunhão de bens e comunhão de males...” Qual seria a melhor tradução para essa expressão no contexto? (02) Rômulo: Comunhão de bens porque eles juntavam o bem de cada um , eu acho, de males porque eles tinham de conviver com os defeitos daquela pessoa para o resto da vida. Sei lá...

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(03) Professora: Sandra, você interpretou de outra maneira? (04) Sandra: Concordo com a resposta dele, eu acho que é isso.

(05)Melina: Nem tanto professora, em relação à comunhão de males, a pessoa não tem só de conviver com o defeito do outro, naquele tempo eles iam conviver com quem eles não gostavam, ou melhor nem conhecia e... eram obrigados a conviver um com o outro, hoje se a gente aceita a conviver com os bens e os males pelo menos já conhecemos a pessoa, temos essa liberdade...

(06)Joyce: Para mim, comunhão de males está associada à falta de amor, de carinho, como se fossem uma obrigação, tipo... obrigados a você dar esse carinho a alguém que você não gostava e a de bens é... assim eles iam conviver sem usufruir dos bens até porque eles não fizeram essa escolha.

(07)Professora: Sim, muito bem, aí vocês conseguiram identificar as consequências que surgirão, se outrem fizerem uma escolha por nós. Você Júlia, o que você compreendeu? (08)Júlia: A comunhão de males não era tão bem aproveitada na comunhão de bens, porque se eles não se gostavam não tinham um aproveitamento bem...bem...(Rsss)como eles iam dividir o bem? O mal ia ficar maior do que o bem.

(09)Lucas: Eu penso que a comunhão de bens é o conceito de amor, paz e harmonia é...entre as pessoas, e a comunhão de males é o ódio, é a dúvida, o desespero, vamos dizer assim... é um desprezo entre as pessoas.

(10)Professora: Tá, mas quando você diz entre as pessoas, é importante que retomemos ao texto e percebamos que esta comunhão está relacionada ao matrimônio, está se referindo a dois seres que se unem para partilhar as suas vidas. E trazendo para o lado profissonal é o conviver com a profissão escolhida também nesse âmbito de males e bens. Por isso que o cronista chama a atenção para a decisão da escolha profissional, porque como ele diz na profissão não há como se descasar. Você gostaria de contra-argumentar o que Lucas falou, Rômulo?

(12)Rômulo: Porque... Como eu falei, antigamente, as pessoas casavam muito cedo, não tinham o direito de fazer suas escolhas, casavam muito jovem, não sabiam se aquela pessoa ia ser o ideal pra você e mais na frente, quando você tiver certa idade, então você tinha de conviver tanto com as qualidades quanto com os defeitos.

(13)Professora: Tá, e onde fica a comunhão de bens?

(14)Rômulo: De bens, é a questão de você juntar os bens de cada um.

(15)Professora: Sandro, vamos ouvir a sua análise em relação a essa relação de comunhão de bens e de males.

(16)Saulo: Cheguei à conclusão de que em partes é isso mesmo a maioria do pessoal está falando a comunhão de bens e de males na referência do texto é mais a cumplicidade que deve haver entre o casal, a comunhão não só material, mas também sentimental que deve haver entre as duas pessoas tanto de bens quanto de males e... na profissão é você saber que vai haver também essa comunhão de males e bens, se a gente escolher aquela o que a gente gosta sem que as pessoas decidam por nós, vamos ser bem sucedido e vamos conviver mais em comunhão de bens do que de males.

(17)Professora: Muito bem, vocês conseguiram fazer uma análise interessante, porque quando nós falamos comunhão de bens numa sociedade capitalista, o que se pensa imediatamente é na questão material, riquezas. Essa comunhão de males é você conviver com o outro sem gostar, percebemos que, no texto, o casamento é mostrado como algo arranjado, arrumado, os jovens não escolhiam era uma promessa desde quando eram pequeninos. Isso gera uma angústia, uma insatisfação. O que era muito comum na nossa sociedade no séc. XIX. Avançamos muito nesse aspecto, hoje os casais se unem se houver uma afinidade entre

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eles. No texto, o autor faz referência ao casamento de antigamente como algo irremediável, assim como hoje, não é fácil ingressarmos em uma profissão e depois se desligar dela.

Nesse espisódio, os alunos não se mostraram muito à vontade para participar da temática, ficaram meio intimidados para falar e os que interigiram estavam meio inseguros e presos aos argumentos dos colegas, é o que evidenciamos nos turnos 02 e 04. A resposta de Sandra (turno 04) não mostra nenhuma reflexão sobre o seu ponto de vista acerca do questionamento, porém reconhecemos que a pergunta feita, no turno 03, não foi instigativa suficientemente para motivar a referida aluna a formular sua argumentação e desenvolver a sua competência comunicativa. Como essa prática de ensino estava ancorada na ação comunicativa, competiu ao professor estimular o estudante a construir sua argumentação, desenvolver seu potencial de concordância e/ou discordância sempre em busca de um consenso.

Na visão habermasiana, no agir comunicativo partimos da ideia de que todos os participantes são atores capazes de se justificarem, e que os sujeitos agindo comunicativamente assumam posições racionalmente motivadas para as exigências da validez, assim os atores supõem reciprocamente que de fato agem a partir de razões justificadas. Nos atos de fala dos turnos 05 e 06, as participantes fazem uso da linguagem para validar o seu ponto de vista, mas sem anular as respostas dos sujeitos anteriores, no entanto tentando dar validade à sua argumentação. Nesse sentido, Habermas (1999), afirma que com a força ilocucionária de uma emissão, um falante pode motivar um ouvinte a aceitar a oferta que perpassa o seu ato de fala, e com ele contrair um vínculo (Bilding) racionalmente motivado.

Isso significa que quando o sujeito faz uso da fala tem uma pretensão de legitimar a sua proposição por meio de argumentos, no intuito de que o ouvinte aceite o que ele diz. Portanto, Habermas enfatiza que se o participante age sobre o ouvinte no intuito de manipular, há uma mudança no ato ilocucionário e a ação de fala se volta para a ação teleológica, predominando a relação meios-fins e não a comunicação intersubjetivamente compartilhada. O autor amplia a sua reflexão acerca da intencionalidade dos atos de fala, que se resume basicamente em dois tipos de ações: o agir comunicativo (orientado ao entendimento) e o agir teleológico (orientado ao êxito).

Dessa forma, o professor como mediador e interlocutor no processo ensino/aprendizagem, deve intervir sempre que for pertinente para que os participantes do ato de interação não imponham o seu ponto de vista como se eles fossem o ―dono do saber‖.

Nos turnos 10, 13 e 15, intervimos no sentido de reforçar as respostas dos alunos, bem como motivar a participação de outros sujeitos e, no turno 17, fizemos o feedback na intenção de fazer uma reflexão da expressão que estava sendo discutida com o fator ―profissão‖, já que estávamos analisando numa óptica conotativa. ―O docente deve evitar intervir sempre como ―a última palavra‖ em sala; deve ouvir e respeitar também a recepção do texto pelo aluno, certamente determinada em grande parte por um horizonte de expectativa estética e ideológica peculiar‖ (JOBIM, 2009, p. 122).

Concluímos que os alunos analisaram a questão mais voltados para a visão denotativa do que a conotativa, uma vez que a primeira exige menos esforço de interpretação, ao passo que a segunda requer dos alunos uma compreensão ―extratextual‖, ou seja que o leve a pensar em um contexto mais amplo. Mas também reconhecemos que a investigação deve ser mais motivadora para uma participação e interpretação eficaz. Conforme Habermas, a dificuldade de entendimento não está nos detalhes, mas no princípio.

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6.1.4 Episódio 4 – identificando a argumentação e os recursos argumentativos

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