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Equac¸˜ao de Weierstraß

3.2 Perspectiva Alg´ebrica

3.2.1 Equac¸˜ao de Weierstraß

Nosso objetivo ´e obter uma descric¸˜ao mais simples de curvas el´ıpticas. Veremos que toda curva el´ıptica sobre um corpok ´e isomorfa a uma curva projetiva plana dada por uma equac¸˜ao c ´ubica de um certo tipo. Tal equac¸˜ao ´e chamadaequa¸c˜ao de Weierstraß.

Teorema 3.2.2. Seja X/k uma curva el´ıptica. Ent˜ao, existem a1,a2,a3,a4,a6∈k tais que X ´e isomorfa a curva projetiva E definida pela equa¸c˜ao

Y2Z+a1XYZ+a3YZ2= X3+a2X2Z+a4XZ2+a6Z3. E mais, podemos escolher um isomorfismo que leva0Eao ponto[0, 1, 0].

Tal teorema ´e consequˆencia direta da seguinte

Proposi¸c˜ao 3.2.3. Seja X/k uma curva el´ıptica com ponto base OX. Ent˜ao:

(i) Existem x,y ∈k(X)tais que o morfismo

φ:X→P2

dado porφ= (x:y: 1)nos d´a um k-isomorfismo entre X e uma curva emP2dada por

E:T2+a1ST+a3T=S3+a2S2+a4S+a6, (∗) com a1,a2,a3,a4,a6 ∈ k e φ(OX) = (0 : 1 : 0). Tais fun¸c˜oes x e y s˜ao ditascoordenadas de Weierstraßpara X.

(ii) Se duas equa¸c˜oes de Weierstraß s˜ao obtidas como acima, ent˜ao uma ´e obtida a partir da outra por uma mudan¸ca de vari´avel do tipo

S=u2S0+r

T =u3T0+su2S0+t com u∈ke r,s,t∈k.

(iii) Se E ⊆ P2 ´e dado por uma equa¸c˜ao do tipo (∗), ent˜ao E/k ´e uma curva el´ıptica, onde o ponto base pode ser tomado como sendo o ponto(0 : 1 : 0).

Demonstra¸c˜ao. (i) ComoXtem gˆenero um, pelo item (c) do Corol´ario2.4.27,`(D) =degDse degD≥0. Em particular,`(n·OX) =nparan≥0.

EmL(1·Ox)temos as func¸ ˜oes constantes e segue que n˜ao existe f ∈ k¯(X)com um polo de ordem um emOX. EmL(2·OX), al´em das func¸ ˜oes constantes, existex ∈k¯(X)que possui um polo de ordem dois emOX. Assim,(1,x)´e uma ¯k-base deL(2·OX). Por um racioc´ınio similar, existey ∈ k¯(X) com polo de ordem trˆes emOX tal que(1,x,y) ´e uma ¯k-base de L(3·OX). A partir da Observac¸˜ao2.4.31, pode-se obter uma ¯k-base (1,x,y)de L(3·OX) comx,y∈k(X).

Com isso, temos quevOX(x2) =−4,vOX(xy) =−5 e segue que(1,x,y,x2,xy)´e uma ¯k-base deL(5·OX). Por´em, emL(6·OX)tamb´em temosy2ex3, completando o conjunto

W ={1,x,y,x2,xy,y2,x3}

de sete func¸ ˜oes em L(6·OX)que ´e linearmente dependente sobre ¯k. Mas, por conta da igualdade dimkspankW = dimk¯span¯kW, segue queW tamb´em ´e linearmente dependente sobrek. Assim, existemα1, . . . ,α7∈ ktais que

α1+α2x+α3y+α4x2+α5xy+α6y2+α7x3=0.

CAP´ITULO 3. CURVAS EL´IPTICAS 3.2. PERSPECTIVA ALG ´EBRICA Temos queα6,α7 6=0 pois caso contr´ario, ter´ıamos uma contradic¸˜ao em relac¸˜ao `a ordem do polo emOXou ao fato de que(1,x,y,x2,xy) ´e linearmente independente sobrek.

Assim, atrav´es da substituic¸˜ao (x,y) 7→ (−α6α7x,α6α27y), os coeficientes de x2 e y3 ser˜ao iguais a um. Dai, para taisxey, o morfismo

φ:X→P2

dado porφ= (x: y: 1)tem imagem em uma curvaEdada por uma equac¸˜ao do tipo (∗) e satisfazφ(OX) = (0 : 1 : 0)por conta das ordem de anulamento dexeyemOX.

Resta mostrar queφinduz um isomorfismo entre curvas lisas. Comec¸amos provando que φ ´e um mapa racional de grau um, ou seja, que[k(X): φk(E)] = 1. Comok(E) = k(s,t), onde s = X/Z e t = Y/Z, segue que φk(E) = k(x,y). Assim, queremos mostrar que k(E) =k(x,y).

A partir dos mapas

φx: X→P1 φy: X→P1 p7→(x(p): 1) p7→(y(p): 1) e do item (a) da Proposic¸˜ao2.3.18conclu´ımos que

degφx = [k(X):k(x)] =2 e degφy = [k(X):k(y)] =3, e conclu´ımos quek(X) =k(x,y).

Agora, vamos provar que E ´e de fato lisa. SeEfosse singular, pela Proposic¸˜ao X, existiria um mapa racionalψ:E→P1de grau um, Dai,ψφ:X→P1seria um mapa entre curvas lisa de grau um e, portanto, um isomorfismo. Mas isto contradiz o fato de que gX = 1 e gP1 =0.

Juntando as conclus ˜oes acima, conclu´ımos que φ : X → E ´e um (k-)isomorfismo entre curvas lisas.

(ii) Se (x,y) e (x0,y0) s˜ao coordenadas de Weierstraß, ent˜ao atrav´es dos isomorfismos φ, as func¸ ˜oesx,x0 correspondem as =X/Z, enquanto quey,y0correspondem at=Y/Z. Ap ´os algumas contas, vemos que paraP = (0 : 1 : 0) ∈ E,vP(s) = −2 e vP(t) = −3. Assim, conclu´ımos quevOX(x) = vOX(x0) = −2 evOX(y) = vOX(y0) = −3 e segue que (1,x,y)e (1,x0,y0)s˜aok-bases deL(3·OX)∩k(X).

Ent˜ao, levando em contas as ordens de anulamento emOX, temos a seguinte identidade

1 x y

= 1 x0 y0

1 r t

α1 β2 α2

paraα1,α2 ∈keβ2,r,t ∈k. Substituindo as express ˜oes dexey0na equac¸˜ao de Weierstraß obtida a partir de(x0,y0), conclui-se que devemos terα31 = α22. Usando a parametrizac¸˜ao u 7→(u2,u3)da c ´uspidey2= x3, segue que existeu ∈ktal queα1 =u2eα2 =u3. Assim, fazendos=β2/u2, obtemos

1 x y

= 1 x0 y0

1 r t

u2 su2 u3

e o resultado segue.

3.2. PERSPECTIVA ALG ´EBRICA CAP´ITULO 3. CURVAS EL´IPTICAS

(iii) SejaE⊆P2lisa, dada por uma equac¸˜ao de Weierstraß

T2+a1ST+a3T =S3+a2S2+a4S+a6.

Note que(0 : 1 : 0)´e um pontok-racional deE. Assim, resta mostrar queEtem gˆenero um.

Temos duas maneiras

• Verificar que a forma diferencial

ω = 1

2y+a1x+a3dx∈E

satisfaz div(ω) = 0 (ver Proposic¸˜ao III.1.5 do [Sil09]). Assim,KE = 0 e sgue do item (b) do Corol´ario2.4.27quegE =1.

• Usar o Teorema de Riemann-Hurwitz 2.4.30 para deduzir o seguinte resultado (ver Exerc´ıcio 2.7 do [Sil09]):

SeX⊆P2 ´e uma curva lisa definida por um polin ˆomio homogˆeneo de graud, ent˜ao gX = (d−1)(d−2)

2 .

Assim, toda curva el´ıptica pode ser ”mergulhada” no plano projetivo e a equac¸˜ao que a define pode ser escolhida como sendo a do tipo descrito no teorema acima. Portanto, na maior parte das vezes, definimos curvas el´ıpticas como curvas planas definidas por polin ˆomios (homogˆeneos) de grau 3. Em muitos casos, damos apenas uma equac¸˜ao afim (em duas vari´aveis) que define uma curva afim emA2mas na verdade, nos referimos aofecho projetivo(ver Definic¸˜ao2.2.8).

Prosseguimos discutindo um pouco mais sobre curvas c ´ubicas planas definidas por uma equac¸˜ao do tipo

E:Y2Z+a1XYZ+a3YZ2= X3+a2X2Z+a4XZ2+a6Z3

coma1,a2,a3,a4,a6 ∈k. Vamos nos referir a elas como¯ (curvas) c ´ubicas de Weierstraß. Destaca-mos que elas n˜ao necessariamente definem curvas lisas.

Em uma c ´ubica de WeierstraßE, temos sempre o pontoO = (0 : 1 : 0)e, de fato, ´e o ´unico ponto na reta no infinitoZ=0. Em volta deste ponto, ou seja, no aberto afimE∩ {Y 6=0},Z´e o ponto(0, 0)da curva afim

z+a1xz+a3z2 =x3+a2x2z+a4xz2+a6z3.

Expandindo o polin ˆomiog(x,y) =z+a1xz+a3z2−x3−a2x2z−a4xz2−a6z3em volta de(0, 0), obtemos

g(x,z) =z+ (a1xz+a3z2)−(x3+a2x2z+a4xz2+a6z3)

e segue quez=0, que corresponde a retaZ=0 emP2 ´e a reta tangente aEno pontoO.

E mais, substituindoz=0 na equac¸˜ao acima obtemosx3 =0 e conclu´ımos queO´e umponto de inflex˜aodeE, ou seja, cuja reta tangente intersectaEcom multiplicidade pelo menos 3 (veja o Problema 3.12 do [Ful08]).

A menos do pontoO, toda c ´ubica de Weierstraß pode ser considerada como o aberto afim Eafim:y2+a1xy+a3y =x3+a2x2+a4x+a6.

O motivo da numerac¸˜ao dos coeficientes ai ´e que atrav´es da mudanc¸a de vari´avel (x,y) 7→

(u2x0,u3y0), obtemosai =uia0iparai=1, 2, 3, 4, 6.

Se chark6=2, 3 podemos simplificar a equac¸˜ao que defineEpara uma da forma y2 =x3+Ax+B.

Neste caso, definimos as seguintes quantidades

CAP´ITULO 3. CURVAS EL´IPTICAS 3.2. PERSPECTIVA ALG ´EBRICA

• coeficientec4= −48A

• discriminante:∆= −16(4A3+27B2)

• j-invariante: j= −1728(4A)3

Elas tamb´em podem ser definidas para uma c ´ubica de Weiestraß qualquer cujas express ˜oes est˜ao na Sec¸˜ao III.1 do [Sil09].

As ´unicas mudanc¸as de vari´avel descritas no item (ii) da Proposic¸˜ao3.2.3que preservam a forma simplificada s˜ao da forma

x=u2x0 y=u3y0

comu∈ k¯. Ap ´os uma tal substituic¸˜ao, temos as f ´ormulas de transformac¸˜ao A0 = A

u4, B0 = B

u6, ∆0 = u12. e segue que j0 =j.

Sobre os poss´ıveis pontos singulares, comec¸amos com

Proposi¸c˜ao 3.2.4. Para toda c ´ubica de Weierstraß, o ponto O= (0 : 1 : 0)´e sempre um ponto liso.

Demonstra¸c˜ao. Segue do crit´erio das derivadas parciais na curva afimE∩U1, ondeU1P2 ´e o aberto afim dos pontos(x:y:z)comy6=0.

Assim, suponha que(α : β: 1)´e um ponto singular de uma c ´ubica de Weierstraß E. Ent˜ao, (α,β)ser´a um ponto singular deEafime segue que

f

∂x(α,β) = f

∂y(α,β) =0, onde f =y2+a1xy+a3y−x3−a2x2−a4x−a6. Assim, expandindo f(x,y)em volta de(α,β), segue que

f(x,y) = 1 2

2f

∂x2(α,β)(x−α)2+

2f

∂x∂y(α,β)(x−α)(y−β) + 1 2

2f

∂y2(α,β)

| {z }

=1

(y−β)2+−(x−α)3.

O termo quadr´atico pode ser fatorado em ¯kem dois termos lineares emx−αey−β, resultando em

f(x,y) = ((y−β)−λ(x−α))((y−β)−λ0(x−α))−(x−α)3

para certosλ,λ0¯k. Estes dois fatores lineares podem ser interpretados com asretas tangentes aEafimno ponto(α,β)(veja a Sec¸˜ao 3.1 do [Ful08]).

Ent˜ao, existem dois tipos de pontos singulares

n ´o: quandoλ6= λ0, ou seja, quando existem duas retas tangentes em(α,β). Um exemplo cl´assico ´e a c ´ubicay2= x3+x2.

c ´uspide: quandoλ=λ0, ou seja, temos uma reta tangente ”dupla” em(α,β). Um exemplo cl´assico ´e a c ´ubicay2= x3.

A seguinte proposic¸˜ao mostra alguns resultados envolvendo c ´ubicas de Weierstraß Proposi¸c˜ao 3.2.5. Sejam E,E0P2c ´ubicas de Weierstraß. Ent˜ao:

3.2. PERSPECTIVA ALG ´EBRICA CAP´ITULO 3. CURVAS EL´IPTICAS

(i) (Crit´erio de Singularidade)

• E ´e lisa se, e somente se,∆6=0.

• E possui n´o se, e somente se,∆=0e c46=0.

• E possui c ´uspide se, e somente se,∆=0e c4=0.

(ii) O j-invariante parametriza as classes de isomorfismo de curvas el´ıpticas no seguinte sentido:

• Se E e E0 s˜ao lisas, ent˜ao elas s˜ao isomorfas (sobrek apenas) se, e somente se, j¯ = j0.

• Para todo j0∈ k, existe uma c ´ubica de Weierstraß lisa E/k¯ (j0)tal que j= j0. Demonstra¸c˜ao. Ver Proposic¸˜ao III.1.4 do [Sil09].

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