PARTE II – A TRIBUTAÇÃO DAS TRANSMISSÕES CAUSA MORTIS NUMA ABORDAGEM
2. Estados que tributam as transmissões causa mortis como rendimento
2.2. Equador
No Equador, as transmissões causa mortis são tributadas pelo impuesto a la renta previsto no Título Primero (artigos 1º a 51º) da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004, que elenca os impostos cuja titularidade cabe ao Estado equatoriano.
143 Os valores em euros foram obtidos considerando o valor da UVT de $ 34.270, fixada para o ano de 2019 pela Resolución nº 56, de 22 de noviembre de 2018 da Dirección de Impuestos y Aduanas Nacionales, e o câmbio operado pelo Banco de Portugal em 30 de abril de 2019.
Todavia, até o ano de 1990, ano a partir do qual foi integrada ao impuesto a la renta – situação que se manteve de forma ininterrupta até os dias atuais – a tributação do fenómeno sucessório era gravada pelo impuesto a las herencias, legados y donaciones144.
A tributação das transmissões geradas pelo fenómeno sucessório foi incluída no imposto sobre a renda em função do acréscimo patrimonial que configura, embora possua taxas independentes e forma de apuração da base de cálculo distinta. Observe-se ainda que a declaração do imposto sucessório é independente da declaração do imposto relativo às rendas (artigos 36º, letra “d” e artigo 40º da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
A extensa redação da letra “d”, do artigo 36º da referida lei, concentra quase a totalidade dos aspetos da incidência do imposto sobre as transmissões causa mortis.
O aspeto material do facto tributário é o incremento patrimonial proveniente de heranças ou legados, sendo o aspeto temporal a data da aceitação da herança ou do legado, seja esta feita de forma expressa ou tácita, isto é, o momento em que a norma determina que ocorreu o aperfeiçoamento da transmissão com o efetivo ingresso dos valores na esfera económica dos beneficiários. Quanto ao aspeto espacial, estão sujeitos ao imposto todas as transferências de bens e direitos localizados no Estado equatoriano, independentemente do lugar do falecimento, da nacionalidade, do domicílio ou residência do de cujus, seus herdeiros ou legatários. Para os beneficiários residentes, também será gravado o incremento patrimonial proveniente de transmissões de bens e direitos existentes no exterior. Nos casos em que o incremento patrimonial originado no exterior foi objeto de imposto em função do mesmo facto, tal montante pago no estrangeiro será tido como crédito tributário e poderá ser utilizado para abater o devido no país. Tal crédito, porém, será limitado ao imposto gerado por tais incrementos patrimoniais no Equador (artigo 36º, letra “d” da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
O sujeito ativo é o Estado, que arrecada e administra o imposto por meio do Servicio de Rentas Internas del Ecuador. São sujeitos passivos as pessoas naturais; as sociedades, nacionais ou estrangeiras, com domicílio no país ou no exterior, bem como as partes a elas relacionadas (artigo 3º, 4º da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004). Os conceitos, para fins tributários, de residência de pessoas naturais e sociedades estão definidos nos artigos 4º.1, 4º.2 e 4º.3 da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004.
São responsáveis pelo imposto devido: os executores testamentários, os representantes legais, os tutores, os procuradores, os curadores, os administradores fiduciários ou fideicomissários, e outros
144 Cindy Gabriela Rodríguez Tapia (2017, p. 61-64). No Equador, a primeira norma gravando as transmissões causa mortis, a Ley de Impuestos Patrióticos, é do ano de 1910. Uma sucessão de leis manteve a tributação como um imposto independente, sendo a última delas a Ley de Impuesto a las Herencias, Legados y Donaciones,de 29 de septiembre 1986, até que, em 1990, com a aprovação do Reglamento General de Aplicación del Impuesto a la Renta, foi agregado ao imposto sobre o rendimento.
envolvidos, em relação aos atos que praticarem em desrespeito às normas legais (artigo 36º, letra “d”
da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
A base de cálculo é obtida subtraindo-se do valor dos bens e direitos que compõem os ingressos – excluídos os legados, para os quais não há valores a deduzir –, as seguintes deduções autorizadas: os gastos com a última enfermidade, com o funeral, com a abertura da sucessão e a publicação do testamento; as dívidas pendentes à época do óbito sobre o património do de cujus, inclusive as tributárias; e os honorários do executor do testamento, desde que comprovados por documentos idôneos e que não tenham sido cobertos por seguros, ou de qualquer outra forma (artigo 36º, letra “e” da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004)
Os bens e direitos que compõem os ingressos tributáveis serão avaliados conforme previsto no artigo 58º do Decreto nº 374, de 8 de junio de 2010 (Reglamento para la aplicación de la ley de regimén tributario interno).
O imposto que incide sobre os ingressos oriundos de transmissões causa mortis tem taxas específicas que são distintas das aplicadas para as rendas oriundas do trabalho e do capital – para as pessoas naturais –, bem como para as que gravam a renda das atividades desenvolvidas pelas sociedades145.
Para os ingressos relativos a heranças e legados, sejam seus beneficiários pessoas naturais ou coletivas, as taxas são progressivas e variam por faixas conforme o montante dos ingressos recebidos, sendo os seus valores atualizados anualmente pelo índice de Precios al Consumidor de Area Urbana. As taxas gerais para o ano de 2019 iniciam com uma faixa sem tributação, para valores até € 64.253,23.
A primeira faixa tributada, para valores acima de € 64.253,23 até € 128.506,46, tem taxa de 5%; a taxa mais elevada, para valores superiores a € 771.065,54, é de 35%; existindo, ainda, taxas intermediárias de 10%, 15%, 20%, 25% e 30%146. Para os beneficiários com relação de parentesco de primeiro grau – filhos e genitores – as taxas aplicadas são reduzidas à metade (artigo 36º, letra “d” da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
Estão isentos os ingressos oriundos de transmissões causa mortis recebidos pelos filhos menores de dezoito anos, e para os que tenham deficiência na porcentagem e proporcionalidade indicadas em lei. Também são isentos os ingressos oriundos de seguro de vida do de cujus, desde que obtidos pelos beneficiários constantes da apólice correspondente (artigo 21º do CC e artigo 36º, letra
“d” da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
145 Para a renda oriunda do trabalho e do capital das pessoas naturais, a tributação é progressiva e varia em faixas com valores diferentes das aplicadas aos ingressos de heranças e legados, embora tenham as mesma taxas; para a renda oriunda das atividades das sociedades a taxa geral é de 25% (artigo 36º, letra “a” e 37º da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004).
146 Os valores são os vigentes para o ano de 2019, convertidos para euro conforme o câmbio operado pelo Banco de Portugal em 17 de julho de 2019.
O artigo 9º da Ley de régimen tributario interno, del 17 de noviembre de 2004 lista uma série de isenções de caráter geral aplicáveis aos ingressos obtidos por meio de transmissões causa mortis, dentre as quais podemos ressaltar as obtidas por instituições do Estado e por empresas públicas reguladas pela Ley Orgánica de Empresas Públicas; por instituições de caráter privado sem fins lucrativos, legalmente constituídas, e que atendam todas as exigências legais para gozar da isenção, sempre que seus ingressos se destinem a seus fins específicos e somente na parte que seja diretamente neles utilizada; e por institutos de educação superior estatais, amparados pela Ley de Educación Superior.
2.3. Os bens jurídicos e a tributação
Apesar de terem optado por tributar o fenómeno sucessório no âmbito do rendimento tanto para pessoas naturais como para pessoas coletivas, Colômbia e Equador, por meio de regras especiais para avaliação dos bens e direitos, baremas específicos para obtenção da base tributável, taxas distintas dos demais ingressos, e isenções específicas, conferem tratamento diferenciado para os ingressos dele provenientes.
Para os beneficiários residentes, o acervo hereditário transmitido é onerado, em ambos os países, independentemente de sua localização. No Equador, quando os beneficiários não forem residentes, o tributo incide somente sobre o património localizado no país. Na Colômbia, os beneficiários não residentes serão gravados apenas em relação às transmissões em que o de cujus tinha residência no país.
A norma colombiana não permite quaisquer deduções ao valor dos bens e direitos transmitidos, enquanto que no Equador, podem ser subtraídas do valor do património destinado aos herdeiros, além das dívidas do de cujus, os gastos com a última enfermidade, o custo do funeral, as despesas com a abertura da sucessão e com a publicação do testamento, além dos honorários do executor testamentário.
No entanto, embora tenha a base tributável reduzida, a taxa aplicada no Equador é mais severa em sua progressividade: inicia com uma faixa de isenção até € 65.295,40 e avança até 35%. Na Colômbia a taxa é fixa em 10%, havendo uma uma faixa de isenção geral de 20% do valor do património transferido, limitado a € 21.650,26; e para cônjuge, ascendentes ou descendentes, um valor fixo de € 32.995,29. Nesse sentido, a tributação no Equador impacta com maior severidade o bem jurídico propriedade.
Na Colômbia, temos ainda isenções para livros, roupas, utensílios de uso pessoal, e o mobiliário da casa do falecido; para um imóvel urbano de propriedade do de cujus destinado à habitação, limitada
ao valor de € 72.797,82; e para um imóvel rural de propriedade do de cujus, também limitada ao valor de € 72.797,82. Importante observar que embora sejam isenções objetivas, todas beneficiam tendencialmente o núcleo familiar, visto que a transmissão, usualmente, é direcionada a ele. Percebe-se, assim, o tratamento preferencial conferido ao bem jurídico família.
No Equador tal situação se repete pela aplicação de taxas reduzidas à metade para ascendentes e descendentes em primeiro grau, pela isenção total para os filhos menores de dezoito anos, e para os que sejam acometidos de deficiência.
Consequentemente, na equação que envolve os bens jurídicos propriedade, família e arrecadação tributária, em ambos os países, temos a prevalência dos bens jurídicos família e propriedade em relação à arrecadação tributária.
Embora sua perceção seja mais sutil, ao beneficiar a propriedade e o núcleo familiar a tributação favorece a concentração do património, prejudicando uma melhor distribuição deste e afetando, por esse viés, o bem jurídico democracia.