• Nenhum resultado encontrado

PARTE III – ELES

CAPÍTULO 3: FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PESQUISA

3.1 Equilíbrio e desequilíbrio

3.1.5 Equilíbrio emocional

O fundador da psicologia formativa, Stanley Keleman (1992, p. 76), discute a respeito desse tema afirmando que aspectos emocionais influenciam na questão do equilíbrio físico. Ele reflete sobre o quanto a postura ereta influencia em nossas emoções. Nos lembra que no mundo animal a maioria dos bichos, especialmente dos mamíferos, andam com as quatro patas no chão, deixando expostas as partes duras e fortes do seus corpos, enquanto as partes moles estão protegidas, próximas ao solo. No caso dos seres humanos isso não acontece. Ao invés de irmos ao mundo

67 Esta separação entre “mundo interno” do indivíduo e “mundo exterior” é uma separação didática, uma vez que os indivíduos estão interagindo constantemente com o seu meio, tanto do ponto de vista da matéria - recebendo alimentos e oxigênio do meio externo - quanto aprendendo e recebendo informações. Dessa forma pode-se dizer que mundo interno e mundo exterior um tanto quanto indistinguível, pois não podemos afirmar com certeza o que é parte da nossa “essência” e o que é resultado das trocas com o meio.

protegidos, com nosso abdomens projetados para o solo, nos deslocamos com o peito e vísceras expostas. Isso nos torna, segundo Keleman, mais aptos a nos relacionar com o ambiente e também nos permite encontros mais íntimos, pois quando tocamos com o nosso corpo no corpo de outras pessoas, as partes macias e sensíveis também se encontram. Vale lembrar que para muitas outra espécies de mamíferos, oferecer a barriga é sinal de afeto e submissão. Dessa forma, para Keleman (ibidem) ficar em pé é mais do que uma simples postura. É antes de tudo um evento social e emocional. Keleman diz que “ A postura ereta é um impulso genético que, entretanto, requer uma rede social e interpessoal para se realizar” (KELEMAN, 1999, p. 76).

No entanto, essa forma ereta pode ser alterada por questões psíquicas. Keleman (ididem) nos diz que nosso organismo é provido de um mecanismo de defesa chamado “reflexo do susto”, que tem a finalidade de lidar com emergências ou pequenos períodos de alarme. Nessas situações, nós paramos, prendemos a respiração e mudamos a postura. Se a ameaça desaparece, nós voltamos a agir normalmente. Contudo, se a ameaça é grave ou se recusa a desaparecer, Keleman afirma que o padrão de susto se aprofunda. Nossa tendência natural é lutar ou fugir. Porém, existem situações onde não é possível nem lutar, nem fugir - como por exemplo quando uma ameaça recorrente ou agressão ocorre dentro do seio da família - e nesses casos, Keleman afirma que as posturas ligadas ao reflexo do susto não reduzem e acabamos por nos encolher e colapsar. Se a reação persistir ou aumentar, ela pode se tornar parte contínua da nossa estrutura e personalidade.

Keleman (idem) afirma que, durante a passagem da infância para a vida adulta, os indivíduos estão sujeitos tanto à agressões vinda do meio externo quanto de fontes internas e emocionais. As fontes internas aparecem, segundo o autor, quando o sujeito passa por uma determinada experiência emocional que é maior do que aquilo que o indivíduo é capaz de suportar. Estas situações podem ser desde um susto quando bebê - tal qual uma luz apagada quando a criança não está esperando, um barulho, etc. - até, mais tarde, uma briga ou discussão mal resolvida com amigos e parentes quando a criança ou adolescente já está em fase de socialização. Podem vir, também, de situações econômicas ou das relações nas escolas, no trabalho, e muitas outras, pois cada indivíduo reage de uma forma diferente a cada um desses eventos.

A intensidade (ou gravidade) da ameaça, a frequência, o número de vezes e a fonte também interferem no modo como o indivíduo reage e modifica a sua postura. Nessas situações, nós podemos tencionar o corpo, nos afinar, curvar as

costas ou nos encolher. Podemos também estabelecer uma postura mais “armada” e desafiadora, que nunca relaxa. Essas alterações da postura mudam a forma como estruturamos nosso equilíbrio, pois mudamos a forma como os encaixes de ossos, órgãos e músculos se estabelecem, obrigando o organismo a se realinhar e reorganizar para manter o equilíbrio. Quando nos encolhemos, entortamos a coluna para frente, forçando a lombar, as costas, o pescoço e as pernas, aumentando o gasto de energia para manter o corpo em pé, sustentando a falta de encaixe. Se inflamos o peito e erguemos o queixo, por outro lado, projetamos a cabeça para trás e forçamos o abdome e as pernas a compensar o peso lançado para a retaguarda. Neste cenário, Keleman diz (idem, p. 77) que já não estamos mais plenamente pulsáteis e eréteis.

Essas mudanças na forma interferem diretamente no modo como andamos, respiramos e sentimos o mundo. Ela também altera nossa autoimagem e consequentemente, tanto essas mudanças físicas quanto de imagem, interferem em nossos sentimentos e em nossa forma de lidar com o mundo. Quando cronificadas, estas posturas podem levar a estados emocionais graves.

A agressão à forma, quando persistente, tende a mantê-la como uma postura defensiva permanente. Contudo, o ideal é que o corpo não permaneça paralisado em uma única forma, pois isso impede que o organismo flua por suas várias formas e organizações possíveis, bem como, tais formas permanentes exigem gastos de energia desnecessários, pois o corpo está se equilibrando de maneiras mais difíceis, além de que, o corpo está gastando energia para defender-se de uma situação de perigo que já não está mais lá.

Dessa forma, trabalhar o organismo no sentido de devolver ao indivíduo a sua mobilidade física e motilidade emocional é importante para que o ser humano possa estar disponível e preparado para lidar com pessoas e ambientes novos. Quanto mais disponível o corpo estiver, mais facilmente ele se adaptará a pessoas,

lugares, situações novas, podendo estar mais presente em cada situação, tornando- se mais saudável em sua vida emocional e mais apto a participar da vida coletiva.

3.2 Cultura da Participação e cultura do espectador ou equilíbrio e