5 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS
5.2 Indicadores de Metodologias Ativas
5.2.6 Equilíbrio entre Atividades Individuais e Coletivas
O equilíbrio entre atividades individuais e coletivas ocorre quando ambas devem ser desafiadoras, criativas, promover a curiosidade, o interesse de realização por parte do aluno, a colaboração, assim como hão de ser contextualizadas ao seu cotidiano. Especificamente em atividades de grupos, o professor deve delegar a autoridade aos alunos, planejar atividades que todos do grupo necessitem uns dos outros e considerar a natureza da atividade.
A aprendizagem ativa requer um planejamento diversificado que mescle o tipo de aula, atividade, metodologias, bem como os instrumentos avaliativos. Se o objetivo é ativar a aprendizagem, o docente pode propor atividades individuais e coletivas, desde que haja um objetivo a alcançar e tenha consciência da importância de cada uma.
Dos quatro professores investigados, três deles mesclaram atividades individuais e coletivas (P2, P3 e P4) em registros no diário de campo ou na entrevista. E, desses três, apenas um, P4, explicou a sua concepção acerca dos dois tipos de atividades e somente também um, P3, a respeito das atividades em grupo, respectivamente, conforme a seguir.
Evento 36 (Entrevista realizada no dia 25/10/2017).
Pesquisadora: Uma das avaliações da sua disciplina foi o desenvolvimento de um modelo dinâmico de simulação aproximado da realidade utilizando o software Stella, bem como uma oficina utilizando o simulador C-Roads, sendo o primeiro realizado individual e o segundo em grupo. De que forma essas atividades favorecem a aprendizagem o aluno?
P4: […] com relação ao objeto da avaliação, eu preciso saber se o estudante aprendeu alguma coisa, por isso tem o caráter individual. Ele tem que comprovar que ele aprendeu, porque, quando tá trabalhando em grupo, é muito fácil você se maquiar em cima dos colegas. Então, ele vai ter essa participação individual pra mostrar pra que que ele está ali e o que ele está fazendo, tá. E na avaliação em grupo, é a interação dos sistemas, porque a gente trabalha com sistêmica, então a gente tem que ver a sua parte mediada no todo, tá. Então isso é muito importante. Que ele tenha aí esse caráter também de compreender que a decisão que ele tá trabalhando é uma tomada em grupo, né. Isso aí com relação à nota final. Se ele conseguiu fazer, chegou num patamar de conhecimento e eu sei que ele conseguiu aplicar esse conhecimento com um fim maior, que é a decisão final, o consenso. Claro que o computador vai fazer o consenso do modelo, tá. É o consenso de grupo discutido. É uma tendência a partir de uma discussão anterior, mas a resposta vem do modelo, tá. E com relação ao aprendizado, realmente parte desse princípio que individualizando vai ter o caráter que eu fiz, tá. E ele analisando em grupo vai ter importância que o que eu fiz vai ter a resolução de um problema não é só meu. Então, eu acho que esse é o pontinho que ….né.
Para P4, a atividade avaliativa individual demonstra que foi o aluno quem fez, que ele foi o autor da ação reflexiva. Já numa atividade de grupo, P4 tem consciência de que um aluno pode se beneficiar do saber do outro, não tendo, portanto, como diagnosticar com precisão quem foi o autor da produção intelectual. Ao equilibrar os dois tipos de atividades, o professor precisa deixar claro para o aluno o objetivo da atividade e o que espera dele como elaborador de seu conhecimento.
Pode esclarecer que, individualmente, estão em jogo a iniciativa pessoal, o interesse atualizado e instigante e a produtividade cumulativa e sistemática. Já na atividade em grupo, apesar da dificuldade de todos colaborarem de maneira igual, o grupo precisa saber que a finalidade pode ser a troca de ideias, tomada de decisões, definição de acordos e desacordos, debate, consenso e atitudes diferentes (quando assuntos polêmicos).
Destaca o fato de que, em grupo, a tomada de decisão é fundamental, mostrando saber que a resolução final deve levar em consideração o consenso, possibilitando a negociação de posições. Essa negociação envolve, segundo Lee e Tan (2004), dois movimentos recursivos
quando discute a colaboração na PBL: o dialético com o outro e um reflexivo com o eu. A fala de P4 caminha nessa direção de recursividade, de comunhão com o outro e com o sistema (ao mencionar a interação dos sistemas).
Especificamente sobre as atividades serem em grupo, P3, destacou:
Evento 37 (Entrevista realizada no dia 30/10/2017).
Pesquisadora: Uma das avaliações de suas disciplinas foi o desenvolvimento de um projeto a ser realizado em grupos. De que forma o trabalho em grupos e com projetos favorece a aprendizagem do aluno?
P3: Primeiramente eu quis fazer em grupo, né, porque eles teriam que gastar dinheiro pra montar os protótipos do que eu pedi na disciplina. Então, em grupo eles conseguiriam reduzir o custo. Então, esse era um fator preponderante. E segundo, é, eles também poderiam trocar ideias. […] poderiam completar, completar o conhecimento do outro. […] Então essa, essa experiência em grupo funcionou pra mim na graduação e eu creio que é interessante pra eles.
Pelo exemplo de P3, a concepção de atividade em grupo como divisão (não de tarefas, mas de valor monetário) chega a ser mais importante do que o espírito de aprender colaborativamente (que veio em segundo plano). Tal ideia chega a ser contraditória num espaço formativo, pois as atividades, inicialmente, devem possuir valor intrínseco (fazer sentido para o aluno).
Mesmo que a ideia do professor para a realização da atividade em grupo não tivesse a concepção inicial de colaborar, P3 compreende que funciona como frisou ao final de sua fala: “[…] essa experiência em grupo funcionou pra mim na graduação e eu creio que é interessante pra eles”. No evento mencionado, houve transparência do real objetivo da atividade para o aluno.
Ainda sobre esse trecho, P3 compara as práticas docentes do tempo em que fora aluno com as práticas docentes atuais na qualidade de professor, validando a ideia de que a forma como se ensina é a mesma daquela com que se aprende, ou seja, se P3 aprendeu por meios tradicionais, o seu modo de ensinar será de modo tradicional. Se funcionou para ele, como aluno, funcionará para seus alunos, ideia que nem sempre poderá ser validada em razão das variáveis do processo educativo: contexto, aluno, recursos etc.
Volta-se para a segunda ideia de P3, sobre a atividade em grupo possibilitar a troca de ideias. Se a atividade também teve esse propósito, questiona-se, no papel de professora, pesquisadora e autora desta tese: uma atividade em grupo deve ter como finalidade a interação e integração dos alunos ou a concretude da atividade? Por exemplo: “completar o conhecimento
do outro”, fala de P3 (ação com finalidade de interação e integração) ou de completar uma ação específica, a montagem do protótipo (concretude da atividade)?
Nas metodologias ativas, os dois elementos devem ser considerados para que haja envolvimento dos discentes com a sua aprendizagem. Primeiro: a ação a ser desenvolvida, visando a alcançar o objetivo traçado, a construção de novos conhecimentos. Segundo, o estabelecimento de relações sociais, podendo este objetivo ser obtido por meio de atividades individuais ou em grupo. Se individual, havendo senso da ideia partilhada, do espírito coparticipativo, da escuta sensível e da fala negociada, sendo o outro fundamental para a conclusão da atividade.
A seguir, a caracterização dos estágios da gestão pedagógica na prática dos professores investigados, quando as metodologias ativas foram utilizadas, sendo este o terceiro objetivo específico desta tese.