A B C D E F H 1 !*i • V ! r - . ! i 1 , 2 l i l i 1 ! { i i 1 I 1 i 1 I ! i i i i 1 B ! í B í í C ! ! £ * í E ! ! ____ í G í ! S ! i I I 1 ! t i 1 I ! í 1 1 1 ! 1 11 ] 1 | 1 í | i 1 t 1 I 1 \ 1 1 1 1 f | • _ • - . _ 1 1 1 I 1 1 1 1 i 1 1 1 1 1 \ t 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ( 1 1 1 1 1 I 1 1 I | o- 1 •- • — > 1 1 1 1 1 1 1 i 1 I I I i ! 1 1 t Í { 1 l i l i ! í 1 t 1 1 I 1 1 i ! 1 !4 ! i 1 i i t i i ! 1 !2 ' í > i 1 i í \ \ « ■» • I I ‘ ! • O . . , I l i > 1 \ 1 ! ! l i 1 U í I 1 S 1 1 I ! I I I I I I I I I I I I
1 3 1 - T r a n s p o r t a d o r de C o r r e i a A - F r e n t e d e t o n a d a s e n d o r? - A l i m e n t a d o r - q u e b r a d o r " c arregada" o - C e n t r o de f o r ç a B - F r e n t e d e t o n a d a 4 - C o m p r e s s o r C - F r e n t e d e t o n a n d o 5 - L o a d e r D - F r e n t e s e n d o f u r a d a ó - S c h u t t e - C a r E - F r e n t e c o r t a d a 7 - P e r f u r a t r i z F - F r e n t e s e n d o c o r t a d a
a
- C o r t a d e i r a G - F r e n t e e s c o r a d a H - F r e n t e s e n d o e s c o r a d a A d i s p o s i ç ã o do s p a r a f u s o s . e p r a n c h a s da m a d e i r a no teto, toma e s t a figuras i i í > ! ! t í 1 1 ! t ! ! l i ! t I ! t ! Na m a i o i r a das m i n a s n á o e x i s t e um e s t u d o e a c o m p a n h a m e n t o d a s c a r a c t e r í s t i c a s do teto para fins de m a i o r s e g u r a n ç a . No l e v a n t a m e n t o t é c n i c o f e i t o em set e m i n a s da re giã o, a p e n a s uma a p r e s e n t a v a e s t u d o d as c a m a d a s do teto e c o n t r o l a v a a s u s t e n t a ç ã o do teto por c á l c u l o s e f e t u a d o s pela e n g e n h a r i a de minas, ( Fundacentro, 1995). Os r i s c o s n e s t e setor, c o m o em o u t r o s da m i ne raç ão, e x i s t e m em a ltas t a x a s p o r q u e n ã o se e l i m i n a m as c o n d i ç õ e s que os provocam, ou n ã o se i m p e d e m f a l h a s h u m a n a s com m e c a n i s m o s e m e d i d a s m a t e r i a i s que e x e r ç a m b l o q u e i o dos e r r o s e dos ato s falhos. Os c u s t o s das m e d i d a s m a t e r i a i s i m p e d i t i v a s dos r i s c o s são poupados, e t r a n s f e r e - s e a e l i m i n a ç ã o d o s m e s m o s às m e d i d a s e r eg r a s de s e g u r a n ç a d e p e n d e n t e s de a t o s de v o n t a d e e de p e r c e p ç ã o dos tr a b a l h a d o r e s .Na i n s p e ç ã o r e a l i z a d a nas m i n a s pela F und ace ntr o, e n c o n t r a m o s no r e l a t ó r i o c o n s i d e r a ç õ e s a r e s p e i t o da e f i c á c i a ou n ã o das m áscaras. A i n s p e ç ã o a f i r m a q ue "e mb o r a as dua s m a r c a s de r e s p i r a d o r e s (usadas na s c a r b o n í f e r a s ) p o s s u e m C e r t i f i c a d o s de A provação,
f r e q u e n t e m e n t e o b s e r v a m o s que os f i l t r o s para r e p o s i ç ã o n S o e r a m f o r n e c i d o s pelos fa br i c a n t e s . A s s i s t i m o s , i n c l u i s v e , a c o n f é ç ã o de f i l t r o s para s e r e m d i s t r i b u í d o s a o s m i n e i r o s , do i s por j o r n a d a de tr abalho, q u a n d o er a m c o r t a d o s f i l t r o s nc* formato n e c e s s á r i o . A r a z ã o disso, s e g u n d a a e q u i p e de s e g u r a n ç a da m i n e r a d o r a , e s t a v a no fato de qu e a f o r n e c e d o r a dos f i l t r o s o r i g i n a i s n ã o d av a c o n t a da d e m a n d a para fazer a entrega, p o d e n d o d e m o r a r a té 60 d i a s a p ó s a en comenda. A c r e d i t a m o s qu e a r e p o s i ç ã o de f i l t r o s d i f e r e n t e s d a q u e l e s f o r n e c i d o s co m o c o n j u n t o do r e s p i r a d o r inval ida o C e r t i f i c a d o de A p r o v a ç ã o do m e s m o ... D e v e ser r e g i s t r a d o q u e f ora m o b s e r v a d o s m i n e i r o s f a z e n d o uso de r e s p i r a d o r e s c o m b arb a c r e s c i d a , a s s i m c o m o v á l v u l a s d e f e i t u o s a s em s e us e q u i p a m e n t o s . E e v i d e n t e q u e tais fatos, se n ã o i n v a l i d a m t o t a l m e n t e a p r o t e ç ã o d o e q u i p ame nto , d i m i n u e m c o n s i d e r a v e l m e n t e a sua e f i c i ê n c i a " . (Fundacentro, 1985. L e v a n t a m e n t o , A n á l i s e e R e c o m e n d a ç ò e s do EPI para us o n a s m i n e r a d o r a s . p. 30-1). i e "D f u r a d o r de frente recebe vibra^ftes pelo c o r p o i n t e i r o
q u a n d o o p e r a com as p e r f u r a t r i z e s . E sta s i t u a ç ã o m e r e c e ser i n v e s t i g a d a . D e v e - s e m e n s u r a r as v i b r a ç b e s p o r q u e e l a s c a u s a m d i v e r s a s a l t e r a ç & e s no o r g a n i s m o humano". ( F u n d a c e n t r o , 1985). ^ Q u a s e t o d â s as p r a t i c a s r e l a t i v a s a d e t o n a ç ã o a p r e s e n t a m i n s e g u r a n ç a e i r r e g u l a r i d a d e s na s m i n a s de C r i c i ú m a . Q u e m d e n u n c i a é a F u n d a c e n t r o a t r a v é s da e q u i p e t é c n i c a que v i s t o r i o u as m i n a s de c a r v ã o da região. As f a l h a s estão d e s d e o p r e p a r o dos explo siv os, seu a r m a z e n a m e n t o no sub sol o, a f o rma de t ransporte, a c o l o c a ç ã o n o s furos, o t r a t a m e n t o d a s sobras, a a u s ê n c i a de s i n a l i z a ç ã o s o n o r o / l u m i n o s a pra p r e ve nir a queima; a v i s t o r i a da q u e i m a q u e n ão é seg ura na i d e n t i f i c a ç ã o de f og o falhado. 17’’ A l g u m a s d a s s u g e s t õ e s feitas p ela F u n d a c e n t r o q u a n d o da
i n s p e ç ã o e m 1 985 sobre c o n d i ç õ e s de s e g u r a n ç a d a s m i n a s de c a r v ã o de C r i c i ú m a m o s t r a m as g r a v e s f a l h a s e x i s t e n t e s ;
"As c a r g a s e x p l o s i v a s d e vem ser m a n t i d a s no s u b s o l o para u so.de, n o m áxi m o , d oi s turnos". - "S emp re q u e ho u v e r m u d a n ç a s d e d e p ó s i t o de e x p l o s i v o s , o s e r v i ç o a u x i l i a r d e v e r á f a z e r u ma limpeza para e v i t a r f u t u r o s a c i d e n t e s ; . - "0 O p e r á r i o que d e s e m p e n h a e s t a a t i v i d a d e (o qu eim a d o r ) d e v e r e c e b e r o c u r s o de "cabo de fogo" para se r é g u l a r i z a r pera nte as n o r m m a s " . - "Não r e a l i z a r a p r e p a r a ç ã o d o e s t o p i m com a e s p o l e t a j u n t o ao d e p ó s t i o de e x p l o s i v o s " . )Mina E s p e r a n ç a p. 52-9)'. - " N o t o u - s e que o o p e r á r i o t r a b a l h a v a s o z i n h o na detonaç ão. D e v e a t u a r em d u p l a " . - "Os e x p l o s i v o s d e v e r ã o ser e s c o r a d o s
t r a n s p o r t e d e e x p l o s i v o s s e x p o s t o s c o m e q u i p a m e n t o m o v i d o a m o t o r de c o m b u s t ã o interna". - "Nos l ocais de a r m a z e n a g e m de e x p l o s i v o s e a c e s s ó r i o s no s u b s o l o c o n s t a r ã o p l a c a s com d i r e t r i z e s "E P R O I B I D O FUM AR" e
" E X P L O S I V O S " q u e pos s a m ser o b s e r v a d o s por t o d o s que t e n h a m a c e s s o (NR 19)". (m.Poço 9). - "F azer c o m qu e as s o b r a s de e x p l o s i v o s v o l t e m ao d e p ó s i t o ant.es da d e t o n a ç ã o ”. - " I ns tal ar um s i s t e m a de s i n a l i z a ç ã o s o n o r o / l u m i n o s a para a v i s o de f ren tes s e n d o d e t o n a d a s " . - " P r o m o v e r c u r s o s de cabo de fogo ao s e m p r e g a d o s r e s p o n s á v e i s p el o u s o de e x p l o s i v o s " . (M. P r ó s p e r a p. OC.V
JUsJ ) B ■
A CBCA, por ex emplo, uma mina que e n t r o u em f a l ê n c i a em 1987, e foi a s s u m i d a pelo sindicato, r e f l e t i a a p é s s i m a s i t u a ç ã o da e mpresa, ta mb ém nas c o n d i ç õ e s p r e c á r i a s de s e g u r a n ç a . A s c o n s e q u ê n c i a s da d e c a d ê n c i a da e m p r e s a vão a l é m d o s a s p e c t o s e c o n ô m i c o s e f i n a n ce iro s; r e f l e t e m - s e em um a l t o i n d i c e de a c i d e n t e s de trabaxlho, alta r o t a t i v i d a d e , i n s a t i s f a ç ã o total n a s p r á t i c a s de trabalho. A d e n ú n c i a d e m i n e i r o s de v á r i a s m i n a s de q u e há o c a s i õ e s em q u e t r a b a l h a m c o m f a r ó i s das m á q u i n a s apaga dos , ( c h e g a r a m a a m a r r a r n e s t a s m á q u i n a s as l â m p a d a s de uso pes soal ) é c o n f i r m a d o pela i n s p e ç ã o de s e g u r a n ç a das m i n a s .
"Foi e n c o n t r a d o m á q u i n a s com fa rói s q u e i m a d o s e q u e b r a dos". ( F u n d a c e n t r o , 1985, P r ó s p e r a p . 27)
A v a l i a ç ã o d o pessoal t é c n i c o c o n s t a t o u a i n s e g u r a n ç a do s i s t e m a e l é t r i c o nas minas;
Os c a b o s d e a l t a t e n s ã o nas m i n a s de poço d e s c e m para o s u b s o l o " p e l o s furos da sondagem, por o n d e t a m b é m d e sce um f l u x o de á g u a " (M. Próspera, e C C U ) ou d e s c e m atr a v é s da g a l e r i a p a r a l e l a á principal" ... e "os fios de e n e r g i a 2 2 0 v para i l u m i n a ç ã o sã o fixados, n o teto da g a l e r i a p r i n c i p a l em t r a v e s s a s de m a d e i r a e e s t ã o d e s p r o t e g i d o s " (M.A. de L u c c a e ou - Ou tra s). "Nos fios de b a i x a t e n s ã o r e t i r a - s e o i s o l a m e n t o para d e r i v a ç õ e s e l é t r i c a s e n ã o se os is o l a m a p ós o uso" (M. Próspera) "As e m e n d a s do s c o n d u t o r e s de e l e t r i c i d a d e n ã o se e n c o n t r a m e m boas c o n d i ç õ e s ... fios p i s o t e a d o s pelos m i n e i r o s c o m risco de choque" ( M e t r o p o l i t a n a ) . Há d e s c u i d o n o uso de m e d i d a s p r o t e t o r a s no s e r v i ç o de? m a n u t e n ç ã o d a s i n s t a l a ç õ e s elét ric as. D e s l i g a - s e uma c h a v e de f o r ç a e se c o l o c a uma placa de avisos "Não ligue, em m a n u t e n ç ã o " ... "0 c e n t r o de força n ã o e stá
1985.).
1 A c o n s t a t a ç ã o d o s t é c n i c o s sobre a s i t u a ç ã o d o s c a b o s c o n d u t o r e s de e n e r g i a e l é t r i c a adverte;
-- "As e m e n d a s d o s c o n d u t o r e s de e n e r g i a e l é t r i c a náo se e n c o n t r a m em b oa s co ndi ç õ e s ; hâ fios p i s o t e a d o s p e l o s m i n e i r o s com r i s c o de choque; há c a b o s mal r e c u p e r a d o s q u a n d o d e s c a s c a d o s " . (M. E s p e r a n ç a p. 20-3). - "Na b o b c a t n ã o e x i s t e o m e c a n i s m o de r e c o l h i m e n t o do cabo; q u e m e f e t u a e st a f u n ç ã o é o cabista» A b o b c a t ao r e a l i z a r o trajeto, e s t i c a o cabo, pelas par ede s da mina, m e s m o c o m o a u x i l i o do cab ist a, pode exi s t i r o p i q u e ... C a s o h aja um c o n d u t o r d e s c a s c a d o , em c o n t a t o co m a á g u a a c u m u l a d a no solo, os r i s c o s de um p ossível c h o q u e se t o r n a m i min ent es" . ( M i n a - P o ç o 9). - "A c o m u n i c a ç ã o d o s m i n e i r o s co m o o p e r a d o r d e b o b c a t é f eita a t r a v é s do b a l a n ç o de
la mparina" (CCU - 2.11).
• Em r e l a ç ã o á c o r r e i a t r a n s p o r t a d o r a os t é c n i c o s de s e g u r a n ç a da F u n d a c e n t r o r e g i s t r a r a m v á r i a s p r á t i c a s i n s e g u r a s c o m o por exemplo; a) u t i l i z a ç ã o i n a d e q u a d a da c o r r e i a para t r a s n p o r t e de pessoal? b) o pes soa l da p r o d u ç ã o usa pás e a l a v a n c a s de ferro para d e s o b s t r u i r o m i n é r i o , com a c o r r e i a em movime nto ; as c o r r e i a s e s t á o d e s p r o t e g i d a s em p o n t o s como no ta mbo r de retor no, nos po n t o s de t r a n s m i s s ã o . d e força m e c â n i c a . A d i s t r a ç ã o d o s t r a b a l h a d o r e s n e s t e s pontos pode o c a s i o n a r a c i d e n t e s , s i t u a ç ã o a g r a v a d a pela d i s t â n c i a e n t r e as c h a v e s de d e s l i g a m e n t o da c o r r e i a (de 200 a 300m) em c a s o de e m e r g ê n c i a . 0 r e l a t ó r i o ■d a . F u n d a c e n t r o a l e r t a para a n e c e s s i d a d e de s i n a l i z a r e i l u m i n a r os c r u z a m e n t o s de c o r r e i a que em a l g u n s p ontos da mina P r ó s p e r a por e x e m p l o está m u i t o baixa e mal iluminada. A c o r r e i a p a r e c e um fio sus pens o. I g u a l m e n t e b aixo é o a c e s s o d a s p e s s o a s no e n c o n t r o das c a l h a s c o m a c o r r e i a t r a n s p o r t a d o r a .
3 Os m i n e i r o s d e n o m i n a d o s foguistas, q u e lidam c o m e x p l o sivos, tem e x p e r i ê n c i a no trato com os m e s m o s m a s não tem f o r m a ç ã o e s p e c í f i c a c o n f o r m e e x i g e as N o r m a s R e g u l a m e n t a d o r a 6, da P o r t a r i a 3214, e n o r m a s i n t e r n a c i o n a i s a c e i t a s pelo M i n i s t é r i o do T ra b a l h o . V e j a - s e a n ota a n t e r i o r (16) em que a F u n d a c e n t r o s u g e r e c u r s o s de c a b o de fogo aos e m p r e g a d o s r e s p o n s á v e i s pelo uso de e x p l o s i v o s .
O P e r i g o e o M e d o .
“Na lina tea euitas funpSo. Tes o furador, tea o queisador, tea o que trabalha cora explosivos, esses tudo ai sào serviço perigoso.'
O r isco no t r a b a l h o é real e frequente. E c o m u m o c o n c e i t o de que a e s f e r a do t r a b a l h o in c o r p o r a o perigo, o
risco, c o m o a lg o q u e lhe é pr ópr i o » 0 p eri go e s t a r i a m a t e r i a l i z a d o no e s p a ç o , n a s má q u i n a s , nas e n g r e na gen s, n os e q u i p a m e n t o s . 0 p e r i g o a p a r e c e a s s i m c om o q uase um ser,
c o r p o r i f i c a d o , a m e a ç a n d o a i n t e g r i d a d e física e mental do tr a b a l had or» P a r e c e q u e o pe r i g o c r e s c e com as d i m e n s õ e s d a s m á q u i n a s e o r i sco a u m e n t a co m a a m p l i d ã o do espaço» E s t a p o s t u r a tende a a s s u m i r o p e r i g o no t r a b a l h o co m o o r i g i n a d o e x c l u s i v a m e n t e da te cno l o g i a . E n e c e s s á r i o i n t r o d u z i r o c o n c e i t o de o r g a n i z a ç ã o da p r o d u ç ã o para t rat ar d e s t e a s s u n t o pois o m e s m o e s t á v i n c u l a d o à a d m i n i s t r a ç ã o e o r g a n i z a ç ã o geral do t r a b a l h o e da produção. E est a que ordena, ad apt a e c o n t r o l a a a p l i c a ç ã o da t e c n o l ogi a, c o n d i c i o n a e def ine a r e l a ç ã o do h o mem com as m á q u i n a s e o e s p a ç o de trabalho.
A o r g a n i z a ç ã o da p r o d u ç ã o d ev e ser e n t e n d i d a n£io no s e n t i d o r e s t r i t o a p e n a s ao seu e s p a ç o i n d u s t r i a l „ A o r g a n i z a ç ã o ou a e s t r u t u r a da p r o d u ç ã o c o m p r e e n d e r i a o e s p a ç o do m e r c a d o de t r a b a l h o c o m p e t i t i v o , a i n s t a b i l i d a d e do emprego, a a b u n d a n t e m ã o de o b r a nã o q u a l ifi cad a; a b r a n g e o c a r á t e r as s i s t e n c i a l e b u r o c r á t i c o do s s i n d i c a t o s e sua i n e f i c á c i a ou p r o i b i ç ã o em i n t e r f e r i r nas c o n d i ç õ e s de s e g u r a n ç a , a i n c a p a c i d a d e e s t r u t u r a l dos ó r g ã o s do M i n i s t é r i o do T r a b a l h o de f i s c a l i z a r e co b r a r da s e m p r e s a s c o n d i ç õ e s de s e g u r a n ç a e o c u m p r i m e n t o da l e g i s l a ç ã o
t r a b a l h i s t a e p r e v i d e n c i á r i a . T o d o s e s t e s s ão c o m p o n e n t e s da e s t r u t u r a de trabalho, i n s e r i d o s n u m a c o n j u n t u r a p o l í t i c o - e c o n ô m i c a q u e c o n d i c i o n a m a s e g u r a n ç a do t r a b a l h o e s u b m e t e m o t r a b a l h a d o r a o s r i s c o s (Cohn, A . , 1 9 8 5 , 75). 0 pe r i g o a l i m e n t a d o por todo um s ist e m a p r o d u t i v o e x t r a - f á b r i c a s n%o é v i s t o c l a r a m e n t e , e isto ref orç a a t e n d ê n c i a de a t r i b u í - l o à "natur eza " próp ria das m á q u i n a s e d a s i n s t a l a ç ó e s i ndu s t r i a i s .
Na e s f e r a do t r a b a l h o o p e r i g o é e x t e r i o r ao i n d i v í duo, e co m f r e q u ê n c i a li g a d o ao p o s t o e por isto i n d e p e n d e da v o n t a d e do tra b a l h a d o r . Nêto raras v e z e s o p e r i g o é c o l e t i v o c o m o n o s d e s a b a m e n t o s , n a s e x p l o s õ e s , nas p o e r i a s s u sp ens as. M e s m o q u a n d o o r i s c o é p e r son ali zad o, pode ter c o n s e q u ê n c i á s s o b r e o g r u p o de t r a b a l h a d o r e s , c o m o no s c a s o s de c h o q u e s e l é t r i c o s , q u e d a de pe d r a s e t r a n c a m e n t o de v agon eta s, o n d e a s e g u r a n ç a de um d e p e n d e do t r a b a l h o d o s outros. P r o c u r a - s e e l i m i n a r o r i s c o a t r a v é s de m e d i d a s è r e g r a s de s e g u r a n ç a . ü r e s u l t a d o ê q u a s e s em p r e uma p r e v e n ç ã o f a lha e in c o m p l e t a . Os i n v e s t i m e n t o s na á rea de s e g u r a n ç a sã o em geral ra c i o n a d o s , e os i n v e s t i m e n t o s na p e s qui sa de n o v a s t é c n i c a s e m e c a n i s m o s de p r o t e ç ã o ao t r a b a l h o n ã o a c o m p a n h a m o d e s e n v o l v i m e n t o e os r e s u l t a d o s t e c n o l ó g i c o s da área da pro d u ç ã o . A p o l í t i c a de p r e v e n ç ã o de a c i d e n t e s c o n c e n t r a - s e s o b r e as p r á t i c a s do t r a b a l h a d o r e d e l e g a a ele, q u a s e só a ele, a r e s p o n s a b i 1 idade de e l i m i n a r o risco, i m p o n d o - l h e r e g r a s d i s c i p l i n a r e s e e x i g i n d o d e l e a t o s de s u b m i s s ã o e o b e d i ê n c i a . Tal p o l í t i c a tem por base a t o s de v o n ta de. E st e t i p o de p r e v e n ç ã o tende a ser i n c o n t r o l á v e l e mui to v u l n e r á v e l . E f i c a z e s são as m e d i d a s de p r o t e ç ã o c o l e t i v a s que e l i m i n a m os ri sco s e a f a s t a m o perigo a t r a v é s de m e i o s e e q u i p a m e n t o s m ate ria is, r e d u z i n d o as c o n d i ç & e s i nse gur as. M e d i d a s d e s s a o r d e m seriam, por exemplo, a i n s t a l a ç ã o de e x a u s t o r e s p o t e n t e s que s u g a s s e m toda a po e i r a s uspensa, ou o us o de a p a r e l h o s r a s t r e a d o r e s
q u e d e t e c t a s s e m a p r e s e n ç a de e x p l o s i v o s n ã o d e t o n a d o s nas f r e n t e s d e s m o n t a d a s , e n t r e o u t r a s m e d i d a s m a t e r i a i s possíveis'. E s t a s m e d i d a s são s u b s t i t u í d a s por no r m a s de e f e i t o moral, per s o n a l i z a d a s , ou por e q u i p a m e n t o s de p r o t e ç ã o indiv idu al (EF'I). Com e s t a s medidas, o r is co não é e l i m i n a d o , o pe r i g o p e r s i s t e 1 . H<* c a s o s em que as própr ias r e g r a s d i s c i p l i n a r e s e p r e v e n t i v a s s ã o b u r l a d a s pela a d m i n i s t r a ç ã o do trabalho, t endo em v i s t a a t i n g i r m e t a s de p r o d u ç ã o , ou em a l g u m a s m i n a s tais m e d i d a s n ã o e x i s t e m 2 . Os m i n e i r o s p e r t e n c e m á c a t e g o r i a pr o f i s s i o n a l m a i s e x p o s t a ao s ris c o s r e l a c i o n a d o s â i n t e g r i d a d e física. Os d a d o s s o b r e a c i d e n t e s t í p i c o s c o m p r o v a m e st a afirmaçêfo3 . Os r i s c o s n a s m i n a s a t i n g e m d i r e t a m e n t e o c o r p o d os i n d i v í d u o s c o m a m e a ç a s de muti 1 izaçâío, es m a g a m e n t o , i n t o x i c a ç ã o , escoria çÊJ es, fr aturas, e l e t r o c u s s ã o , m o r t e vio len ta, d oen ç a s p r o f i s s i o n a i s . As c a u s a s do d a n o f í s i c o p ode m s er explosão, d e s a b a m e n t o , c h o q u e - e l é t r i c o , p o e i r a intensa, g a s e s tóxicos, etc .
Os r i s c o s e p e r i g o s se e n c o n t r a m em t odo o e spaço s u b t e r r â n e o d a s minas, sob f o r m a s d i v e r s a s e g e n e r a l i z a d a s , e s o b fo r m a s e s p e c í f i c a s em cad a posto de t r a b a l h o e nas v a r i a d a s i n s t a l a ç ó e s e m á q u i n a s de serviço. Os ri sco s e x i s t e m d e s d e a e n t r a d a pela g a i o l a ou galeira, n o s postos de sustençêro, do teto, de furáçêro e d e s m o n t e d a s frentes, de l i m p e z a da s frentes, até nos s e r v i ç o s de a p o i o e de m a n u t e n ç ã o . O s r i s c o s pa ssa m a ser o l h a d o s c o mo in evitáveis, c o m o f a t a l i d a d e s . "As ped ras p ode m se s o l t a r e cair", c o n c l u e m eles. A m a i o r i a dos t r a b a l h a d o r e s d e s c o n h e c e que o c o n t r o l e s i s t e m á t i c o da e s t a b i l i d a d e dq teto poderia
d e t e c t a r g r a n d e p ar te dos ri s c o s e e v i t á - l o s c ó m med i d a s
p r e v e n t i v a s 4 .
Os t r a b a l h a d o r e s s abe m que o r isco os a c o m p a n h a em c a d a posto. A d q u i r e m esse s a ber nas p r á t i c a s de trabalho; na
c o n v i v ê n c i a c o m o perigo- E uma p e d a g o g i a m u i t o d u r a esta, i n c u l c a d a por tr aumatismos, por m u t i l i z a ç B e s e m o r t e de c o m p a n h e i r o s .
£ u sual os t r a b a l had ore s n ã o e x t e r n a r e m s e us s e n t i m e n t o s de m e d o d u r a n t e a p e r m a n ê n c i a no sub sol o. "Ninguém fala de m e d o lá embaixo", dizem, "a g e n t e se a c o stu ma" . E s t e c l i m a de a p a r e n t e t r a n q u i 1 idade se a ltera, porém, co m a o c o r r ê n c i a d e acidentes, e os t r a b a l h a d o r e s nã o c o n s e g u e m e n t ã o d i s f a r ç a r a em o ç ã o que toma c o n t a d e todos.
“Quando acontece esses acidentes toda a peâozada fica seio resorseada, aas passa alguns dias e acaba, passa aquele reiorso ..." (entrevista 37).
"Acaba" o "remorso" mas ricíó é e l i m i n a d o o perigo, p o r q u e e s t e sé renova e se m o d i f i c a â m e d i d a q u e ava n ç a m as g a le ria s. A s s i m c o m o é d i n â m i c o e i t i n e r a n t e o e s p a ç o de t r a b a l h o é imprevis íve l o risco. D a s con d i ç õ e s ' i n s e g u r a s n a s c e o m e d o q u e eles aqui d e f i n i r a m c o m o "remorso". E o m a l —e s t a r q u e toma c o n t a do grupo, pel a p e r d a de um c o m p a n h e i r o , de um igual a eles, no c o n v í v i o c o m o r i sco presente, q u e ele n ã o s o u b e ou não pode evitar.
"0 sedo é bastante. 0 sedo cresce quando acontece a sorte de ua cospanheirQ. Ai a gente fica cos suito aedo. Has depois o tespo vai passando, a gente coseqa a esfriar e vai pensando: "assis coso aconteceu cos ele pode acontecer cosigo, sas seja lá o que Deus quiser" (entrevista i).
0 r i s c o residual, isto é, o r isc o q u e não foi e l i m i n a d o pela o r g a n i z a ç ã o do trabalhes, qu e d e s c u i d a da p r o t e ç ã o i n di vid ual e coletiva, fica para a r e s p o n s a b i l i d a d e pessoal d o t r a b a l h a d o r . E é daqui que n a s c e o medo. Ele s u r g e p o r q u e o risco, de natureza, m aterial e colet iva , n ã o e lim i n a d o , d eve ser p r e v e n i d o ind iv i d u a l m e n t e , a c a d a mom ent o, no trabalho. O medo, desta forma, n ã o n a s c e de u ma s i t u a ç ã o p s i c o l ó g i c a individual de fraqueza, mas de uma r e l a ç ã o c o n c r e t a c o m o e s p a ç o de trabalho, q u e e x i g e e s q u e m a s
d e f e n s i v o s para e v i t a r o perigo, e s i s t e m a s d e f e n s i v o s i n t e r i o r e s e c o l e t i v o s para c o n v i v e r co m o risco. 0 m e d o v i s t o por e st e â n g u l o é e n c o n t r a d o em todos os t i pos de o c u p a ç B e s p r o f i s s i o n a i s e é p a r t e c o n s t i t u i n t e do ser o p e r á r i o (Dejours, 1987, 63-65).
0 m e d o se m a n i f e s t a por s i n a i s d i r e t o s de p r e o c u p a ç õ e s d o s t r a b a l h a d o r e s c o m a saüde físi ca. Os m i n e i r o s f a l a m c o m f r e q u ê n c i a de d o e n ç a s p r o f i s s i o n a i s d e n t r e elass p n e u m o c o n i o s e , asma, b r o n q u i t e e re s f r i a d o s , e n t r e as que a f e t a m as v i a s r e s p i r a t ó r i a s . F a l a m t a m b é m das poeiras, r u í d o s , g a s e s i n f l a m á v e i s , c h o q u e s e l é t r i c o s . Têm me d o de q u e d a de pedras, c a i m e n t o de teto, e x p l o s õ e s de d i n a mit e. L e m b r a m r o m p i m e n t o s de c a b o s q ue p r o v o c a m quedas. U m i d a d e e x c e s s i v a , a v e n t i l a ç ã o d e f i c i e n t e . Todas, e s t a s são c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o " p r e j u d i c i a i s para o corpo". A e s t a s - c o n d i ç õ e s a c r e s c e n t e - s e o m i s t é r i o que c e r c a a r e a l i d a d e de t r a b a l h o s u b t e r r â n e o e a s i t u a ç ã o de i n c e r t e z a e a n s i e d a d e q u e a e s c u r i d ã o sugere. Diz D e j o u r s qu e o m e d o d i a n t e do r i s c o pode ficar m a i o r se o i n d i v í d u o d e s c o n h e c e sua a b r a n g ê n c i a , ou se i g n o r a os m é t o d o s de prevenção. O med o q u e e x i s t e d i a n t e de uma fábrica, p el o seu a spe c t o em geral g r a n d i o s o e barul hen to, a s s u m e m a i o r i n t e n s i d a d e nos p r i m e i r o s c o n t a t o s co m o e s p a ç o s u b t e r r â n e o das minas. A e s c u r i d ã o , em m u i t o s locais d as minas, r equ er a t e n ç ã o e c u i d a d o . 0 m i n e i r o p r e c i s a c o l o c a r - s e f r e n t e ao e s p a ç o de t r a b a l h o s e m p r e em e s t a d o de a l e r t a " al umi and o" seu c a m i n h o pa r a nã o p i sar em f a lso n u m s olo c h e i o de o b s t á c u l o s , t endo o c u i d a d o de e s q u i v a r - s e de b a t i d a s c o m a c a b e ç a em pontos r e b a i x a d o s do teto, o b s e r v a r se n ã o e x i s t e a l g u m fio da rede e l e t r i c a d e s p r e n d i d o , enfim, a e s c u r i d ã o r equ er a t e n ç ã o r e d o b r a d a 55. Os t r a b a l h a r o e s e s t a r i a m mante ndo , d e s d e a e n t r a d a da mina, no trajeto, na s f r e n t e s d u r a n t e as seis h o r a s de t r a b a l h o e ho retorno, um e s t a d o de a t e n ç ã o n ã o r e laxada, v i v e n d o nu m e s t a d o emo c i o n a l de me d o que, com
cer tez a, terá c o n s e q u ê n c i a s para a saúck? do c orp o e da mente.
D u r a n t e a jor nad a de s e i s h oras a p r o x i m a d a m e n t e 15 f r e n t e s s â o q u e i m a d a s h a v e n d o e n t r e dez a 18 furos c a r r e g a d o s em cada queima. Tod as as d e t o n a ç & e s são s e q u e n c i a i s em cada frente, o que e q u i v a l e a d i z e r que o m i n e i r o suporta, em média, 120 d e t o n a ç õ e s d i á r i a s no sub solo . 0 reb oar das e x p l o s õ e s ê a l g u m a c ois a de i m p r e s s i o n a n t e ; cria i m p a c t o n a q u e l e e s p a ç o de semi-escuridêío s o teto d a n d o a i m p r e s s ã o de e s t r e m e c e r e d e s a b a r a c a d a d e t o n a ç ã o ? o b a r u l h o e n s u r d e c e d o r . As e m o ç õ e s de medo, de i n c e r t e z a e de e x p e c t a t i v a que, enfim, seja o ú l t i m o e s t ro ndo , para a l i v i a r a tensão. S â o p r á t i c a s q ue o c o t i d i a n o irá " n a t u r a l i z a r " ; o m i n e i r o irá se a c o s t u m a r a m a i s e s t a v i o l ê n c i a ao c o r p o - aos se u s s e n t i d o s e às sua s e m o ç b e s .
C o m o o t r a b a l h o na s m i n a s se c a r a c t e r i z a pela itine- râncj.a, o e s p a ç o de t r a b a l h o é s e m p r e n o v o em n u a n c e s para o c u l t a r perigos. E como um sopro, i n t e r m i t e n t e , na chama s e m p r e a c e s a da e m o ç ã o do medo. 0 s e n t i m e n t o de m ed o não e x i s t e só por c a usa do p e r i g o d a s i n s t a l a ç õ e s e dos r iscos p r e s e n t e s no e s p a ç o da fábrica, ou da mina. Ele é a l i m e n t a d o pe l a o r g a n i z a ç ã o do trabalho, r e p r e s e n t a d o pelo c h e f e ou e n c a r r e g a d o o u pelo "capataz" que c o n t r o l a o t r a b a l h o e a p r od uçã o; q u e i d e n t i f i c a e a p o n t a d e f eit os, falhas, d e s c u i d o c o m m á q u i n a s e m a t e r i a l ; q u e f i s c a l i z a a p r e s e n ç a c o n s t a n t e n o p o s t o de trabalho; que p od e i n f l u e n c i a r numa p r o m o ç ã o ou po de a m e a ç a r co m uma d emissão. E s ta ameaça, na a u s ê n c i a dos ch efe s, se p r o l o n g a péla p r e s e n ç a d o s c o m p a n h e i r o s de t r a b a l h o c h a m a d o s de "pelegos" e " p u x a -s aco s" que se p r o m o v e m " e n t r e g a n d o os p a rce iro s". Assim, ao r isc o m aterial s o m a - s e a a n s i e d a d e g e r a d a pela o r g n i z a ç à o do trabalho. "Mas isso tudo", na a n á l i s e de R. Linhart, "não basta para d e f i n i r c o m p l e t a m e n t e o n o s s o medo. Ele é feito de a lgo m ais
sutil e m a i s profundo. E s t á i n t i m a m e n t e l iga do ao p r ó p r i o tr a b a l h o ... O m e d o s u p u r a da f á b r i c a po r q u e ela, no nível m a i s e l e m e n t a r , no n i vel m a i s p e r c e p t í v e l , a mea ça p e r m a n e n t e m e n t e os h o m e n s que ela utili za" (R. L i n har t, 1978, 56-7)..
Da m e s m a f or ma S i m o n e Weil diz que "fe d i f i c i l v e n c e r o m edo e o de spr e z o " ; e q u e "os o p e r á r i o s , ... d e p o i s de mil fe ri d o s ... c o m e ç a m a o l h a r c o m o uma cil a d a tudo o q u e lhes vem de cima". Uma m a n e i r a de se d e f e n d e r c o n t r a e s t a "ã ng ú s t i c a c r ó n i c a " ê se evadir, m e s m o em pe n s a m e n t o , da
i n f e l i c i d a d e qu e os a c o m p a n h a no trabalho. P o r e s t a razâfo, a g r a n d e m a i o r i a n à o sa b e falar de sua vida a m e a ç a d a no trabalho. E "como a b o l i r um mal sem ter p e r c e b i d o c o m c l a r e z a em q u e e l e c o n s i s t e " (Weil, 1979, 144).
M a s p o d e m os t r a b a l h a d o r e s c o n v i v e r com o m e d o c o n s tante sem c o n s e q u ê n c i a s g r a v e s para a s a ú d e do c o r p o e da m e n t e ? C o n v i v e r c o m o m e d o é p e r m a n e c e r na m ina s e t e h ora s d i á r i a s d u r a n t e 10 ou 15 a n o s até se a p o s e n t a r e m por inv ali dez ou pela "especia l"? . E possível c o n v i v e r por p e r i o d o tâo longo e m o c i o n a l m e n t e t oma do pelo m e d o ? Ou, e x i s t e m m e c a n i s m o s q ue a m e n i z a m o e s t a d o de tensâfo e m o c i o n a l ?
S e g u n d o C h r i s t o p h e De jours, o me d o no t r a b a l h o só r a ra ment e toma c o n t a da c o n s c i ê n c i a de forma r acional e e n v o l v e o t r a b a l h a o d r i n d u z i n d o - o a um e s t a d o e m o c i o n a l intenso; e s t e fat.o faz o t r a b a l h a d o r a c r e d i t a r e d i z e r q u e n ã o tem medo» Mas a e x i s t ê n c i a do m e d o apa rec e, i n c o n t e s t á v e l , e m m e c a n i s m o s de d e f e s a que o a ut or c o n c e i t u a có m o " i d e o l o g i a o c u p a c i o n a l de f e n s i v a " , e a f i r m a "que se o m edo não f o s s e a s s i m n e u t r a l i z a d o se p ude s s e a p a r e c e r a qu a l q u e r m o m e n t o d u r a n t e o t r a b a l h o ... os t r a b a l h a d o r e s n ã o
p o d e r i a m c o n t i n u a r s ua s t are fas por m u i t o t emp o mais" (Dejours, 1987, 68). E x e m p l i f i c a c o m a " i d e o l o g i a o c u p a c i o n a l d e f e n s i v a " d o s t r a b a l had o r e s da c o n s t r u ç ã o civil, ma s diz que cada c a t e g o r i a p r o f is sio nal e l a b o r a sua
pró pri a i d e o l o g i a d e f ens iva .
A f u n ç ã o da i d e o l o g i a d e f e n s i v a s e r i a a de e v i t a r qu e o indivíduo. 5 e e s q u i v e do trabalho, p orq ue i st o r e s u l t a r i a na m i s é r i a , n a s u b a l i m e n t a ç ã o e morte. Par a e v i t a r a fuga do tr a b a l h o p erigoso, é i m p o r t a n t e q ue o t r a b a l h a d o r m a s c a r e e o c u l t e a a n s i e d a d e q u e toma c o n t a de um g r u p o social singular; a n s i e d a d e e s t a q u e não vai c o n t r á u m a a n g ü s t i a indi vid ual d e n a t u r e z a mental, mas que luta c o n t r a ri s c o s reais. P a r a s e r fu ncional, a id e o l o g i a d e f e n s i v a e s p e r a a p a r t i c i p a ç ã o d e todos os i n t e g r a n t e s do g r u p o n u m a c a m p a n h a c o e r e n t e q u e vai, por ex emplo, c o n t r a as i n o v a ç õ e s p r o p o s t a s na á r e a de s e g u r a n ç a . P a r e c e paradoxal e s t e c o m p o r t a m e n t o , no e n t a n t o e l e revela qu e a ide o l o g i a d e f e n s i v a r e j e i t a mu danças, p o i s a d m i t i - l a s c o m o n e c e s sá ria s, s e r i a r e c o n h e c e r o me d o e p r o c u r a r m e i o s de a m e n i z á-l o. O qu e n ã o c o n s t r u i r i a a i d e o l o g i a o c u p a c i o n a l d efensiva. Os a t o s de coragem, qu e p r o cur am n e g a r e s u b e s t i m a r o perigo, s ã o p r á t i c a s q u e f u n c i o n a m num s e n t i d o i n v e r s o do r e c o n h e c i m e n t o dó perigo. A de f e s a c o l e t i v a d i a n t e do r isco impõe at o s de c o r a g e m qu e a p a r e c e m c o m o o p ç õ e s p e s s o a i s e n ã o imposições- do meio. As p rát i c a s p o d e m a t é tomar c a r a c t e r í s t i c a s c o m p e t i t i v a s e n tre os t r a b a 1h a d o r e s , no s e n t i d o de se d e s a f i a r e m d i a n t e do perigo. 0 e f e i t o d e s t a r i v a l i d a d e é f a zer o g r u p o a c r e d i t a r que são e l e s a u t o r e s e c o n t r o l a d o r e s do risco. A s s u m i r com c o r a g e m um r i sco é c o n t r o l á - l o . A i n i c i a t i v a e a c a p a c i d a d e de d o m í n i o aparecem, d e s t a forma. ao a l c a n c e dos t r a b a l h a d o r e s . De todos. A i d e o l o g i a d e f e n s i v a tem n e c e s s a r i a m e n t e car á t e r coletivo. N i n g u é m m a n i f e s t a o medo. Os t r a b a 1 had o r e s de p ostos p e r i g o s o s n ã o g o s t a m que se jam a d v e r t i d o s e l e m b r a d o s
no fato de q ue e s t a s tr aze m á c o n s c i ê n c i a o perigo, que e l e s p r o c u r a m 'excluir de suas p r e o c u p a ç õ e s ; r e s i s t e m tambfem ao u s o dos e q u i p a m e n t o s de s e g u r a n ç a p o r q u e e s t e s to r n a m m a i s p esa d a s as t a r e f a s em si já d e s g a s t a n t e s (Dejours, 1987, 60-73).
A p e r m a n ê n c i a na min a s o b a am e a ç a d e r i s c o s ê g a r a n tida, de fato, por m e c a n i s m o s de d e f e s a ? C o m o se c o m p o r t a m os t r a b a l h a d o r e s da s m i n a s s u b t e r r â n e a s d i a n t e d o p e r i g o e qual o t r a t a m e n t o que d i s p e n s a m ao s e n t i m e n t o de m e d o ? Q u a i s as c a r a c t e r i s t i c a s das p r á t i c a s do t r a b a l h a d o r , n a s m i n a s de c a r v ã o ? R e s p o n d e n d o a estafs questõ es, a p a r t i r da última, p o d e - s e co m m a i s o b j e t i v i d a d e a c e i t a r ou r e j e i t a r a e x i s t ê n c i a do m e d o e de se u s m e c a n i s m o s de o c u l t a ç ã o e, da i d e o l o g i a o c u p a c i o n a l defe nsi va.
Ds m i n e i r o s são a p r e s e n t a d o s , pela l i t a r a t u r a que? e s tuda s ua s p r á t i c a s nas minas, c o m o t r a b a l h a d o r e s valoros os, d e s t e mid os, f o r t e s e. bravos. E s t a s c a r a c t e r i s t i c a s são ta m b é m a t r i b u í d a s por eles, a si p róprios. E uma a u t o - i m a g e m q ue e xcl ui o medo.
"0 que s gente ouve dizer pela gente que trabalha na superfície é que o sineiro fe auito valoroso; é corajoso deisais pra enfrentà ue subsolo, es certas profundidades, longe, coisa que eles nâo irias e nâo arriscarias. Eles aqui de fora tâmbêa pensas o seguinte: - que o aineiro assia coso ele vai coa vida, pode voltá sorto" (entrevista 04).
Ds v a l o r e s de i d e n t i d a d e do grupos de heroísmo, de m a s e u l i n i d a d e - s ã o r e p r o d u z i d o s no i n t e r i o r do g r u p o de tr a b a l h o e n o g r u p o f a m ili ar e de pa r e n t e s c o . A c a t e g o r i a cultiva, no grupo, v a l o r e s e p r i n c í p i o s qu e n o r t e i a m a vida no i n t e r i o r da s m i n a s e in ic i a m os n o v o s n e s t a conduta. Já ne sta fase inicial oc o r r e a p r i m e i r a s e l e ç ã o , uma vez que m u i t o s n o v a t a s n ã o p e r m a n e c e m na min a por não se a d a p t a r e m
Os p r ó p r i o s m i n e i r o s c l a s s i f i c a m e n t r e si os for t e s e os fracos, "homem" e " m u l h e r z i n h a " , a c e i t a n d o o j o g o da e m p r e s a q u e i n t e n s i f i c a o ritmo de j o r n a d a (Minayo, 1986, 70) . Na d e s c r i ç ã o do tra bal ho n a s m i n a s de liorro V e l h o a c a r a c t e r í s t i c a e s s e n c i a l do m i n e i r o era p r o d u z i r i n t e n s a m e n t e e x i b i n d o f or ça e "macheza". A v a l o r i z a ç ã o da f o r ç a ia a o s e x t r e m o s de d i s p ê n d i o de e n e r g i a física. Os m i n e i r o s e r a m ali c l a s s i f i c a d o s e n t r e "machos" e "sambados",
( a v a l i a d o s c o m o " m a r i c a s " ). E s t e s e ra m o b j e t o de riso náo só d o s f e i t o r e s ma s d o s p r ó p r i o s m i ne iro s. P ara ser p r o m o v i d o a feitor, por e x e m p l o , tinha que ser "macho" (Grossi, 1981).
As q u a l i d a d e s de força, heroísmo., m a s c u l i n i d a d e e x c l u e m o medo, q u e r e p r e s e n t a fraqueza. 0 n ovato, ao e n f r e n t a r o s u b s o l o d e s c o n h e c i d o , já nc* i n s t a n t e q u e b aix a à m i n a pela p r i m e i r a vez, n ã o p od e se am e d r o n t a r . T o d o s d e m o n s t r a m c o r a g e m e b rav u r a e c o l o c a m á prova o e s t rea nte . M u i t o s d e s i s t e m logo nos p r i m e i r o s dias.
“Os novos que chegas trabalhas us ou dois dias e caea fora. Ali naquela sina entrava 10 e ficava usi; nove saía (entrevista 5).
A p r i m e i r a s e l e ç á o è feita, pois, n a t u r a l m e n t e . P e r m a n e c e m a q u e l e s q u e se d i s p õ e m a e n f r e n t a r o p e r i g o e a d o m i n a r o medo. M a s n ã o só a c o r a g e m s e l e c i o n a . A n e c e s s i d a d e d e s o b r e v i v ê n c i a também. Os h omens c a s a d o s , c om a i m p e r i o s a e x i g ê n c i a c ultural e b i o l ó g i c a de "s u s t e n t a r " a fam íli a, se s u b m e t e m mai s f r e q u e n t e m e n t e que os so lte i r o s .
"Na sina ficava aqueles que era obrigado aesao. Ficava aqueles coio nós, que nSo tinha outra profissío. Tinha faailia e entâo se obrigava,.. PrS nfo vt a fasilia passando foae ele se obriga... Se eu nío fosse pai cos filho eu hcje nSo entrava na sina..." (entrevista 5).
Ex i s t i n d o e s s a s p r é - c o n d i ç õ e s , que não d e i x a m m u i t a s opções, o o p e r á r i o e n f r e n t a a r e a l i d a d e á rdua e p e r i g o s a e é s u b m e t i d o ao ritual de a dap taç ão. O imp a c t o que a a g r e s s i v i d a d e da m i n a provoca, d e s p e r t a n d o e m o ç õ e s de s u s t o e medo nos nov os t r a b a l h a d o r e s , é e x p l o r a d o pelos v e t e r a n o s que p r o cur am m o s t r a r - s e s o b r a n c e i r o s e d e s a f i a n t e s d i a n t e da "fraqueza" dos novatos. T o d o o p e r á r i o n o v o p roc u r a e s c o n d e r e s u p e r a r o medo de q u a l q u e r forma. Os "medrosos" s ã o r i d i c u l a r i z a d o s . Daí o m e d o não poder ser e x t e r n a d o fr ancamente. Se existe, é s e m p r e c a m u f l a d o e negado. P ar a f ugi r do r i d í c u l o de ser "medroso", o novato, que d e s c o n h e c e os r eais perigos, se expõe, ou melhor, ele é v i t i m a do m e d o
qu e c o n v i v e c om t o dos os t r a b a l h a d o r e s das minas.
“Quando eu §e fichei na §ina e daí baixei eu tinha aedo ai quando entrei, fias aqora nfo. A gente se acostuea“ íentrevista 01).
Os d e p o i m e n t o s s ã o e x p l í c i t o s em a f i r m a r que, no i n í cio, a m ina as su s t a e as e m o ç õ e s do medo os a c o m p a n h a m nas p r á t i c a s de trabalho. M a s o medo, com o e s t a d o e mo cio nal , tende a d e s a p a r e c e r e é a r acional idade qu e passa a c o m a n d a r no e s p a ç o do trabalho» As c a r b o n í f e r a s d e f i n e m q u o t a s de produç ão, o t r a b a l h o p a r c e l a d o e c o l e t i v o im põe m um ritmo, e a a ç ã o a b s o r v e e c o n t r o l a o s gestos, os m o v i m e n t o s e também, em g r a n d e parte» o pensa men to.
A i d e olo gia d e f e n s i v a fun cio na a s s i m como g a r a n t i a de pr o d uti vid ade . Para a t i n g i r os l imites e s t a b e l e c i d o s de p r o d u ç ã o é prec iso t r a b a l h a r sem perda de tempo. Os c u i d a d o s e a a t e n ç ã o e x c e s s i v a a p o s s í v e i s ri s c o s c o m p r o m e t e m a p r o d u t i v i d a d e . Ao p e r i g o c o n t r a p õ e - s e a a u t o - d e t e r m i n a ç ã o do tr a b a l h a d o r b u s c a n d o a p r o d u t i v i d a d e q ue á o o b j e t i v o principal das empresas. Os t rab alh a d o r e s , e m p e n h a d o s em u l t r a p a s s a r as q u o t a s e s t a b e l e c i d a s para obt er v a n t a g e n s salariais, p e r m a n e c e m a b s o r v i d o s em o c u p a r bem o tempo com a produção, d e s v i a m a a t e n ç ã o e o i n t e r e s s e de o u t r a s
a t i v i d a d e s que n â o a t e n d a m a est.e fim. A i de o l o g i a d e f e n s i v a c u m p r e d u p l a função; g a r a n t e boa pro.duçâro para a e mpr e s a e livra o o p e r á r i o da i n c ô m o d a s e n s a ç ã o de medo; - "ai eu p r o d u z i a e n â o tinha t e m p o pra p e n s a r no perigo, aí eu me a c o s t u m e i " (Anexo 3, 1.5). A a d a p t a ç ã o do homem á mina a c o n t e c e p el o p r ó p r i o p r o c e s s o de t rabalho, mas nâo só; è a c e n t u a d a e a p r e s s a d a p e lo c o n f r o n t o co m os c o m p a n h e i r o s m ais a n t ig os. E s t e s são c o n h e c e d o r e s , por e x p e r i ê n c i a pessoal, do e s t a d o p s i c o l ó g i c o do s n o v ato s, e os d e s a f i a m a m o s t r a r qu e s ã o "homens", " pi^a t r a b a l h a r na mi n a tem qu e ser macho'1 e as q u a l i d a d e p r ó p r i a s do '‘homem" são a coragem, o d e s a f i o ao perigo, a fo rça , o e n f r e n t a m e n t o . Os n o v o s a s s u m e m o d e s a f i o de m o s t r a r qu e sâío "homens".
"05 sineiros tes suito disso que chasa® de aachisíso debaixo da mina. Eles nío pode§ sostrar que tes aedo. Sues te§ sedo os coapanheiros cai no couro dele. (á ridicularizado). Hineiro te® que ser tíurío’ {entrevista 50),
Os m a i s antigos, c o n h e c e d o r e s d o s pe ri g o s que a c o m p a n h a m c e r t a s o p e r a ç õ e s e locais, se n e g a m a fazer "serv iço s pe rig o s o s " . O fato de os v e t e r a n o s se recusarem, p r ova a e x i s t ê n c i a d o pe r i g o e do medo. O d e p o i m e n t o a seguir, de um m i n e i r o com 16 anos de mina, m o s t r a q u e a p e r m a n ê n c i a no s u b s o l o n â o e l i m i n a o medo, ao c o n t r á r i o , o r i e n t a a c o n d u t a c a u t e l o s a d i a n t e do risco.
"Quando o encarregado pede us serviço que nâo tes condiçffes eu nSo faço. Os : inocentes, os novos é que vâo fazer esse tipo de serviço. Os acidentes acontece® cc§
os inocentes que sâo sandados pra frente do perigo, que nío sabendo e cos sedo de punição faze® o serviço" (entrevista 05).
A l i n g u a g e m usada, “i n o c e n t e s " , mo s t r a que a c a u t e l a d i a n t e do p e r i g o só é a d q u i r i d a c om o tempo, pela e x p e r i ê n c i a . A r e s i s t ê n c i a f r e n t e ao r isc o também é r e s u l t a d o de “an o s de casa". O "novata" é o m ais vu lnerável na r e l a ç ã o de m a n d o e s ubm issã o; é a v i t i m a d es ta r e l a ç ã o e d a s c o n d i ç õ e s d e 'pe rig o. O m e d o d e v e ser v e n c i d o e eles p r e c i s a m e n f r e n t á - l o para se a f i r m a r e m per ant e o g r u p o e
para g a r a n t i r e m o empr ego , em v i sta de seus o b j e t i v o s e n e c e s s i d a d e s pes soa is. A n e c e s s i d a d e do e m p r e g o na m i n a é um forte a r g u m e n t o para e n f r e n t a r o perigo. A falta de p r á t i c a em d e t e r m i n a d o p ost o é o u tra causa de acidentes. G o p e r á r i o n ã o q ua l i f i c a d o , e c o m n e c e s s i d a d e d a q u e l e emprego, a s s u m e os r iscos c o m o os "novatos" e é f o r ç a d o por si m e s m o a vencer- o medo.
A e x p e r i ê n c i a tem como bagagem o c o n h e c i m e n t o de "ma cetes", fruto de d e s c o b e r t a s a t r a v é s de a c e r t o s e erros, da o b s e r v a ç ã o e e x p e r i m e n t a ç ã o . A e x p e r i ê n c i a não é, porém, i n d i v i d u a l . Ela é he ra n ç a de d é c a d a s de pr ática que a c a t e g o r i a se a p r o p r i a e d el a p a r t ilh a à m edida que, os
n o v a t o s pa ssa m para o g r u p o dos "mais velhos", que r e p a r t e m o "saber" c o n q u i s t a d o no e m b a t e com os r i s c o s e d i f i c u l d a d e s do trabalho. E s t e s abe r p r a g m á t i c o per m i t e q u e os t r a b a l h a r e s t e n h a m c e r t o c o n t r o l e e d o m i n i o da e s f e r a e do p r o c e s s o de trabalho. P a ra eles isto é vital, à m e d i d a que lhes dá a s e n s a ç ã o d e m a n t e r e m 0 5 riscos, ao m enos boa p arte deles, sob seu co n t r o l e . Assim, p o d e - s e dizer qu e a d e s c o b e r t a de '‘m a c e t e s " su r g i u da n e c e s s i d a d e de d o m i n a r o medo. No d i z e r de Dejo urs , "o est ado de m e d a e de al e r t a que n ã o a b a n d o n a o t r a b a l h a d o r dur ant e todo o tempo, es pic a ç a a i m a g i n a ç ã o e ex c i t a a curiosi dad e. E n e s s e c o r p o - a - c o r p o v i o l e n t o que se e l a b o r a o saber o p e r á r i o ; n e sse c o n f r o n t o e n t r e e q u i p a m e n t o s m o n s t r u o s o s e a m e a ç a d o r e s e o p e r á r i o s sem n e n h u m a p r e p a r a ç ã o e f o r m a ç ã o efetiva, p r e s s i o n a d o s pela si t u a ç ã o , a n s i o s o s por se a d a p t a r e m o mais d e p r e s s a p o ss íve l, gr a ç a s è d e s c o b e r t a e à. p r o d u ç ã o de c o n h e c i m e n t o s p r a g m á t i c o s s o b r e o p r ó p r i o i n s t r u m e n t o de trabalho" (D. Dejours, 1987, 114). 0 sab er o p e r á r i o é d e f e n d i d o por e l e s e r e s g u a r d a d o com o p r o p r i e d a d e do grupo, e x c l u i n d o da p a r t i l h a aq uel es q u e n ã o fazem p a r t e do g r u p o de iguais, no c a s o e n g e n h e i r o s e
d i r i g e n t e s qu e n ã o s a í r a m do grupo, D d e p o i m e n t o de um m i n e i r o i l u s t r a es t a p rática.
"0 sineiro antigo, conhecedor da profissío e do asbiente, não entrega facilaente seu conhecisento ao engenheiro novo que chega, ou a tis capataz que subiu se» conhecimento da profissão. Na sina acontece suito isso; ve® o engenheiro, briga cos uu novato, dizendo que ele está fazendo errado e chasa então us sineiro antigo para ensinar. Nas ques quer aprender é o engenheiro. Suando era coeigo eu enrolava e nSo eostrava o certo. Depois eu chaeava o coapanheiro e ensinava pra ele’ (Volpato, 1984, 67).
E s s e s a b e r o p e r á r i o a p r e s e n t á - s e c o m o um elo i n d i s p e n s á v e l na c o r r e n t e e n t r e o s a b e r c i e n t í f i c o , que "cria" toda a t e c n o l o g i a t e ó r i c a e m a t e r i a l , d e s e n v o l v e n d o técn ica s e m a q u i n a r i a , e a o p e r a ç ã o e f e t i v a d o s e q u i p a m e n t o s para a p r o d u ç ã o . O "saber o p e r á r i o " tem na m ã o a p o s s i b i l i d a d e de fazer ou d e d e i x a r de fazer a f á b r i c a funcionar. O qu e u s u a l m e n t e o c o r r e é u ma d i n â m i c a m u i t o eficaz; um d e s e n v o l v i m e n t o de g r a n d e n ú m e r o de m a c e t e s para f a c i l i t a r o t r a b a l h o e pa r a to rna r c o l e t i v o e s t e c o n h e c i m e n t o e n tre os "iguais". E s t a m o b i l i z a ç ã o o p e r á r i a revela, por sua vez, a d e f e s a d o g r u p o c o n t r a a v i o l ê n c i a d.o trabalho. O m e d o do d e s c o n h e c i d o e d o s r i s c o s a g i l i z a a .imaginação para c r i a r "m acetes" q u e são, ao m e s m o tempo, um m e c a n i s m o dos t r a b a l h a d o r e s e c o n d i ç ã o d e p r o d u t i v i d a d e para a empresa. Os m i n e i r o s tem p r á t i c a s r e c o r t a d a s por d i s p o s i ç õ e s e s e n t i m e n t o s ? d i s p o s i ç & e s de c o n t r o l e e de c o n d u ç ã o do p r o c e s s o de t rabalho, e s e n t i m e n t o s e s p o n t â n e o s e a b a f a d o s de a n g ú s t i a e i n ce rte za. Os s e n t i m e n t o s e a e m o ç ã o de m e d o s ã o n e g a d o s p e l o s m in e i r o s , que se c o n v e n c e m a si p r ò rp ios d e n ã o a l i m e n t a r e m a l em b r a n ç a do perigo. Mas esta mem ó r i a e x i s t e e p er man ece , s o b r e t u d o para os m i n e i r o s liga dos a f e t i v a m e n t e às v i t ima s. Um d e p o i m e n t o m u ito s i g n i f i c a t i v o de s e n t i m e n t o s c o n t r a d i t ó r i o s q u e pr esi d e m as práticas- de t r a b a l h a n a s minass
“Se a gente fosse se lesbrar dQs perigos da sina, nío trabalhava. Eu nâo fico- çoa cissa, porque eu sesso nío posso sair da sina. A aulher ae diz, que nbs nío tesos sais futuro se eu Iargá a sina. E ela tá certa* Eu tenho sb lesbrança ruis do trabalho aí. 0 seu pai está inválido, doente dos pulsSo, aposentado e pobre. Hoje ganha o salário da fose. Dois irsSo seu sorreras acidentados na sina. Us, o sais novo da fasilia, caiu ut tcsbo feio debaixo da sina, passou a sentir suitas dores e sorreu. Ele tinha 25 anos. 0 outro há 6 anos atrâs sorreu esprensado entre dois
carrinhos. Foi fatal.' Korreu sozinho, Os cospanheiros que acharas ele sorto. Era puxador sas estava naquele dia fazendo serviço de sanobreiro. Se certo nSo conhecia bes e achas que quando foi engatar o carrinho veio outro e esprensou a cabeça dele" (entrevista 11).
Os per igo s e as l e m b r a n ç a s das p e r d a s de pes s o a s li g a d a s a e l e s a f e t i v a m e n t e s ã o r a z & e s f o r t e s para a l i m e n t a r o m e d o e i n d u z i - l o s a a b a n d o n a r a mina. N o entanto, diz e s t e m i n e i r o q u e n â o fica "com cisma" p o r q u e a s o b r e v i v ê n c i a da f a m í l i a é i m per ios a e e l es n ã o v i s l u m b r a m out ra a l t e r n a t i v a s e n ã o a mina. G m edo ê b ani do da c on s c i ê n c i a , p o r q u e t o r n a r i a o trab alh o im p o s s í v e l . Na fala des te m i n e i r o a p a r e c e t a n t o o m e do q u a n t o os m e c a n i s m o de fuga. E le a d m i t e o p e r i g o s e m j u s t i f i c a t i v a s ; o pai foi v i t i m a da p o l u i ç ã o d a s min as; o i r m â o m a i s m o ç o das c o n d i ç õ e s inseguras? o o u t r o irmão, da i n e x p e r i ê n c i a em p o s t o de t r a b a l h o d e s c o n h e c i d o para ele. O e s p a ç o de t r a b a l h o cont inu a co m e s t e s r i s c o s t a m b é m pra ele; p a r e c e - l h e q u e a ma ne i r a m a i s c o n f o r t á v e l de c o n v i v e r com os r i s c o s é a de trabalhar sem "cisma" p o r q u e e le n ã o "pode s ai r da mina" - è a s o b r e v i v ê n c i a da fa mília que o o b r i g a a permanecer. A i m p o s s i b i l i d a d e de d e i x a r o s e r v i ç o p e r i g o s o nas minas ê m u i t o m a i o r para os " m i n e i r o s puxado res ", e s t e s q ue n ã o tem n e n h u m a f o r m a ç ã o e e x p e r i ê n c i a p r o f i s s i o n a l , senão a de e m p r e g a r a f or ça física na limpeza d a s f r e n t e s de smo nta das . 0 "p u x a d o r " só tem e x p e r i ê n c i a n a s m i n a s manuais. Daí a m u d a n ç a , m e s m o pra o u t r a mina, d e v e r á c o n t a r ap e n a s com a p o s s i b i l i d a d e de troca para outra m i n a man u a l , d i f i c i l m e n t e para o u t r o posto de t r a b a l h o em m i na m e c a n i z a d a .
O m e d o á s vezes leva a c o m p o r t a m e n t o s p a rad oxa is de. temerid ade , s eja para d e s a f i a r o p e r i g o ou para agredir, m o s t r a n d o qu e o t r a b a l h o é a r r i s c a d o , e x p o n d o - s e a c o n s e q u ê n c i a s i m p re vis íve is, m a s que, presu miv elm ent e, sua h a b i l i d a d e será capaz de dominar.
"lis colega na Palerso (sina) insistiu es trabalhar nusa frente que tinha perigo. Encheu dois carrinhos quando a pedra caiu bateu nele e atirou ele co® a cabeça dentro do carro (entrevista 22).
As p r á t i c a s de n e g a ç ã o e de p o u c o c a so do perigo sáo, na ver dad e, a f i r m a ç õ e s de que o p e r i g o existe, diz Dejours.