AS COORDENADORAS Mulheres, família e trajetórias
2.1 O LOTEAMENTO MONTE VERDE
2.1.2 Equipamentos públicos
A partir do início de sua constituição, o Loteamento recebeu equipamentos públicos. Foi instalado no local um Posto Regional da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) e uma Unidade Básica de Saúde. No primeiro semestre de 2004 passou a fazer parte do programa municipal intitulado “Qualificação dos Loteamentos do Departamento Municipal de Habitação”, dentro do qual foram realizadas as obras relativas ao esgoto pluvial e a pavimentação de 37 ruas daquele espaço (quase a totalidade das ruas). No local ainda era fornecida uma linha gratuita de ônibus, que fazia um trajeto circular e possibilitava que se
50 Cidade da região metropolitana de Porto Alegre.
51 A autora afirma que “Quem se relaciona com o Estado por via de modalidades de assistência tem seu
nome estampado em listas. Há listas de todo o tipo, como, por exemplo, a ‘lista do pão e do leite’, em que estão registrados os nomes das famílias que recebem esse benefício...” (Borges, 2003, p. 63).
chegasse ao bairro vizinho – de onde partiam as linhas para o centro da cidade. Além disso, o Loteamento foi sede inicial de alguns programas governamentais, como, por exemplo, o primeiro grupo do Programa Agente Jovem de Porto Alegre52. Tais investimentos, somados à
freqüente circulação de políticos petistas e seus assessores no local, davam ao Loteamento Monte Verde a aparência de “vitrine” do Partido dos Trabalhadores na cidade (Amorin, 2005).
Além destes equipamentos, o Loteamento continha pequenos armazéns, igrejas neo- pentecostais e associações de moradores Contava com creches infantis (mantidas por entidades filantrópicas) e uma escola municipal que atendia o Ensino Fundamental. Não havia serviços bancários ou de farmácia, que costumavam ser realizados no bairro vizinho. Possuía ainda uma estrutura significativa da Igreja Católica: O CESMAR – Centro Social Marista, uma escola particular, com cotas públicas, onde eram oferecidas oficinas para as crianças e adolescentes, além de cursos profissionalizantes para jovens e adultos. Havia ainda a presença da Congregação das Irmãs Escolares e uma Capela - onde se localizam os trabalhos do Núcleo Fome Zero Monte Verde.
Durante o ano de 2006 e 2007 a prefeitura municipal se fez presente no local através da construção de uma creche gerida pela Associação de Moradores do Monte Verde I, assim como por novas obras em relação à habitação popular. Neste sentido, em 25 de agosto de 2006, o Prefeito Municipal José Fogaça assinou o contrato de construção de 107 casas no Loteamento Monte Verde, especificamente no Monte Verde III, para os moradores que tivessem casas que não fossem de alvenaria53 . Estas casas, por sua vez, eram de três
cômodos: dois quartos, uma cozinha e sala conjugadas e um banheiro. Para efetuar a construção das novas casas, as anteriores deveriam ser derrubadas pelos seus moradores, que também deveriam deixar o terreno limpo e para o início da construção. A relação com o Estado tinha como característica a constante condição de obra inacabada e, portanto, a contínua necessidade das ações do Estado (Borges, 2003).
Algumas das mulheres, interlocutoras da pesquisa, receberiam casas novas. Assim aconteceu com Nilza e Marina. Como os outros moradores, elas fizeram o desmonte e conservaram uma “peça” (um cômodo) da antiga casa nos fundos do pátio, transferindo para aquele espaço os membros da sua família e os móveis “mais necessários” para o dia-a-dia, como fogão, geladeira e colchões. Nos planos futuros, estas “peças”, permaneceriam apesar
52 O Programa Agente Jovem foi criado durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso no governo federal. Em
Porto Alegre existia desde o ano de 2000. Atendia jovens de 15 a 17 anos, que recebiam uma bolsa de 65,00 reais (valor em 2007) e em contrapartida desenvolviam um projeto social em suas comunidades (segundo site da prefeitura municipal, dados disponíveis em 25/10/2007).
da casa nova, porque seria preciso mais do que dois quartos pequenos para dar conta de abrigar os membros da família. A partir do momento do início da construção das casas, era preciso “ficar em cima” acompanhando o trabalho dos pedreiros e também acompanhando a qualidade do material de construção enviado pela prefeitura, que, segundo me indicaram, era comprado nas madeireiras do próprio Loteamento.
Embora as narrativas do “tempo de chegada” tenham sido marcadas pelo sofrimento e abandono sentidos naquele momento, diversos moradores afirmavam que a situação estava mais próspera do que nos primeiros tempos no Loteamento. Remetiam isto a melhora nas condições de infra-estrutura local, principalmente à pavimentação, mas também aos esforços das pessoas que melhoravam suas casas, ao aumento das redes de sociabilidade local e, principalmente a uma diminuição da violência54. Visto que as narrativas da “chegada” tinham
como elemento básico os tiroteios e as expulsões das casas recém liberadas.
Embora narrassem o momento atual do Loteamento como o “paraíso”, havia aspectos negativos relacionados ao mesmo, sempre re-lembrados. Os dois temas mais apontados nas reclamações relativas ao espaço eram, em primeiro lugar, a separação de membros da família extensa que não foram removidos para o local e, em segundo lugar, a dificuldade de locomoção ao mesmo (ausência de horários noturnos de ônibus, existência de apenas uma linha e o fato de táxis não circularem naquele espaço). Este último tema também estava ligado à família, pois o argumento utilizado era o de que não tinham como oferecer cuidados aos filhos que necessitassem de atendimento médico nos períodos em que não tinha ônibus55. Estes dois motivos remetiam a questões centrais da vivência das mulheres daquele
grupo popular, a importância do parentesco e a questão de classe (Fonseca, 2004).
Em 2007, na construção das novas casas no Monte Verde III, as condições da vivência nas “peças”, os freqüentes atrasos na vinda do material de construção56, a ausência
do envio das portas e janelas das casas - associadas ao tempo de inverno e as chuvas que assolavam o Loteamento - remetiam às memórias daquele primeiro período no Loteamento. E, inevitavelmente, ao poder público associado às condições de moradia. Gilberto Velho (2001) aponta, não apenas para a presença do Estado, mas para a relação do mesmo com a população local:
54 Nas falas dos moradores do Loteamento, os anos nos quais chegaram aquele espaço, havia muita
violência envolvendo armas de fogo, tiroteios pelas ruas e situações nas quais tiveram que se esconder ou mesmo sair de casa por causa de ameaças dos “bandidos”.
55 Teresa Caldeira mostra como a expansão dos bairros populares na cidade de São Paulo tinha relação
determinante com o traçado do transporte público naquela área urbana (Caldeira, 2004).
56 Estes atrasos faziam com que o tempo inicial de construção da casa, de 3 a 4 meses, chegasse a demorar
O Estado e o poder público em seus diversos níveis articulam boa parte dessas redes de distribuição e alocação de recursos materiais e simbólicos, interagindo permanentemente com a chamada sociedade civil. Os indivíduos em geral, mais ou menos organizados, categorias, grupos comunitários e movimentos sociais participam desse complexo processo de demandas, reivindicações, pressões e contrapressões (Velho, 2001, p. 25-26).
Enquanto as obras realizadas no local eram com mérito remetidas ao poder público e seus investimentos, ele ocupava uma posição ambígua nas falas dos moradores do Loteamento. Por um lado por causa do movimento de remoção, por outro, porque os equipamentos públicos ainda eram considerados insuficientes.