As entidades de prática desportiva, como forma de estimular o esporte e, muitas vezes, de descobrir futuras promessas, promovem as chamadas categorias de base, que no futebol têm início na mais tenra idade.
Evidentemente que tal prática, apesar das disputas existentes, é considerada apenas esporte de participação, estimulada inclusive pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
Como forma de incentivar ainda mais o desenvolvimento do esporte nas chamadas categorias de base, a Lei Pelé garante o direito à entidade de prática desportiva formadora do atleta não-profissional de celebrar o primeiro contrato de trabalho profissional pelo prazo máximo de cinco anos.
Relembramos aqui que para o menor de 18 anos, em razão do limite máximo de prazo do contrato de trabalho previsto pelo regulamento da FIFA, a CBF não registra contrato de trabalho de atleta profissional com tempo de duração superior a três anos.
O primeiro contrato de trabalho profissional pode ser firmado com o atleta não-profissional com idade entre 16 – mencionado no artigo 29 da Lei Pelé – e 20
anos, já que, de acordo com o artigo 43 da Lei Pelé112, após essa idade o atleta não-
profissional não pode mais participar de competição profissional.
A entidade desportiva formadora do atleta, conforme previsto no §2.º do artigo 29 da Lei Pelé113, precisa comprovar que o atleta possui, pelo menos há dois
anos, a condição de não-profissional pela entidade desportiva.
O direito de a entidade desportiva formadora celebrar o primeiro contrato de trabalho com o atleta em formação visa à proteção do investimento num jovem, resguardando-o quanto à contratação profissional direta por outras equipes.
São enormes os investimentos da entidade desportiva para formar e preparar um jovem atleta, pois conta com o fornecimento de habitação, alimentação, uniformes e até os custos próprios da preparação das equipes de base – deslocamentos, etc. – e oferecimento de bolsa-auxílio.
A entidade desportiva precisa investir de forma constante em número considerável de jovens para ser capaz de formar uma equipe e, consequentemente, participar das competições.
A FIFA, na Circular n.º 1085, expedida em 11 de abril de 2007, apresenta estimativa de custo de uma entidade desportiva brasileira com cada atleta em formação. A quantia anual varia entre US$2,000.00 e US$50,000.00.114
A garantia do primeiro contrato permite à entidade desportiva utilizar o trabalho do atleta profissional no período em que esse atinge, dos 20 aos 23 anos de idade115, a melhor condição física e técnica.
112 Artigo 43 da Lei Pelé: “É vedada a participação em competições desportivas profissionais de atletas não-profissionais com idade superior a vinte anos.”
113 §2.º do Artigo 29 da Lei Pelé: “Para os efeitos do caput deste artigo, exige-se da entidade de prática desportiva formadora que comprove estar o atleta por ela registrado como não-profissional há, pelo menos, dois anos, sendo facultada a cessão deste direito à entidade de prática desportiva, de forma remunerada.”
5.1.1 Descumprimento ao direito da equipe formadora
Como consequência do incentivo às chamadas categorias de base, a legislação preceitua o dever de o atleta em formação se manter fiel à entidade de prática desportiva formadora.
Para isso, o §5.º do artigo 29 da Lei Pelé116, em caráter punitivo, veda a possibilidade de o atleta em formação participar de competição desportiva representando outra equipe, sem a expressa anuência da entidade formadora, sob pena de ser compelido a ressarcir os custos de formação, ou parte deles, à entidade formadora.
No entanto, é condição para a entidade formadora obter o ressarcimento, conforme §7.º do mesmo artigo 29 da Lei Pelé: (i) comprovar que o atleta em formação possui pelo menos há dois anos a condição de não-profissional pela entidade desportiva; (ii) comprovar que efetivamente utilizou o atleta em formação em competições oficiais não-profissionais; (iii) propiciar ao atleta em formação assistência médica, odontológica, psicológica, seguro de vida e ajuda de custo- alimentação; (iv) manter instalações apropriadas, inclusive em relação à medicina e segurança do trabalho; (v) manter um corpo de profissionais especializados na formação técnico-desportiva e (vi) ter ajustado o tempo destinado ao esporte pelo atleta em formação e o período de estudos, exigindo o aproveitamento escolar.
Cumpridas essas exigências, nos termos do mesmo artigo 29 da Lei Pelé, as despesas com a formação do atleta devem ser restituídas conforme fator
115 O cálculo foi obtido considerando-se que a profissionalização ocorreu na menor idade – 16 anos – permitida por Lei, e que o primeiro contrato de trabalho tenha sido celebrado por vigência máxima de cinco anos.
116 §5.º do Artigo 29 da Lei Pelé: “É assegurado o direito ao ressarcimento dos custos de formação de atleta não profissional menor de vinte anos de idade à entidade de prática de desporto formadora sempre que, sem a expressa anuência dessa, aquele participar de competição desportiva representando outra entidade de prática desportiva.”
multiplicador sobre o montante anual da bolsa de aprendizagem custeada pela entidade desportiva formadora do atleta em formação, assim discriminada:
Idade Fator multiplicador 16 anos 15 17 anos 20 18 anos 25 19 anos 30
A esse respeito, a Lei Pelé possui verdadeira lacuna, já que a concessão da bolsa de aprendizagem ao atleta em formação é uma faculdade da entidade desportiva.117 Sem concedê-la, ainda que tenha custos consideráveis com a formação do atleta, a entidade formadora não tem como se ressarcir quando o jovem participar de competição representando outra equipe.
Por isso, entendemos ser recomendável que a entidade desportiva formadora forneça bolsa de aprendizagem ao jovem como forma de mantê-lo fiel à sua equipe de base até que seja possível celebrar o primeiro contrato de trabalho profissional com ele.
Paralelamente, na hipótese de existir o descumprimento do direito de preferência na celebração do primeiro contrato de trabalho profissional e a entidade de prática desportiva não tenha cumprido todas as exigências estabelecidas pelo mencionado artigo 29 da Lei Pelé, não há necessidade de o atleta pagar qualquer espécie de indenização, inclusive a título de perdas e danos, à entidade de prática desportiva, já que essa não pode ser considerada, para fins legais, como entidade formadora.
117 §4.º do Artigo 29 da Lei Pelé: “O atleta não profissional em formação, maior de quatorze e menor de vinte anos de idade, poderá receber auxílio financeiro da entidade de prática desportiva formadora, sob a forma de bolsa de aprendizagem livremente pactuada mediante contrato formal, sem que seja gerado vínculo empregatício entre as partes.”
Nesse cenário, a entidade de prática desportiva perde a proteção legal e o benefício de se ressarcir das despesas, ou parte delas, com a formação do atleta.
5.1.2 A constitucionalidade do direito da equipe formadora
A questão que se propõe neste tópico é a de se saber se a garantia de a entidade formadora celebrar o primeiro contrato de trabalho profissional se choca com o disposto no mencionado artigo 5.º, inciso XIII da CF, que assegura a liberdade ao exercício do trabalho.
Temos que o direito assegurado à entidade formadora de celebrar o primeiro contrato com o atleta não fere a CF. Podemos considerar que o direito à celebração do primeiro contrato não interfere diretamente na liberdade de trabalho; pelo contrário, assegura o direito ao exercício do trabalho exatamente na atividade para a qual o atleta foi preparado. Além disso, os princípios que orientam a sociedade devem conviver harmonicamente. A livre iniciativa deve ser estimulada, principalmente com o intuito de ser preservado o direito ao retorno de investimentos na formação de jovens.
A garantia à entidade desportiva de firmar o primeiro contrato constitui forma de incentivar o esporte nas categorias de base e, portanto, afina-se também com o disposto no mencionado artigo 217 da CF, que confere ao Estado o dever de fomentar a prática desportiva.
Como se não bastasse, o esporte é forma de inclusão social das camadas mais baixas da sociedade e, assim, está em consonância com os artigos 1.º e 3.º da
CF118 119 que tratam, respectivamente, da dignidade da pessoa humana e da
redução das desigualdades sociais.
Como forma de incentivo ao esporte de base e de inclusão social, o direito de celebração do primeiro contrato de trabalho profissional deve ser contextualizado como um bem jurídico maior do que o interesse individual de um atleta não- profissional, porque o resultado da desproteção da equipe formadora seria nefasto ao esporte de base.
Resta dizermos, ainda, que o jovem atleta não encontra nenhuma dificuldade para enfrentar o primeiro contrato com a entidade formadora, pois tem a garantia do contrato de trabalho e a possibilidade, ainda, de projeção pessoal no futebol para celebração de futuros contratos profissionais.
Por conseguinte, resulta que a regra do mencionado artigo 29 da Lei Pelé, a qual garante o direito à entidade desportiva formadora de celebrar o primeiro