CAPÍTULO 3 – O CAPS INFANTIL DE CARAPICUÍBA
3.1. Equipe Multiprofissional e Condições de trabalho
Um aspecto que merece destaque inicialmente é a alta rotatividade dos profissionais que em sua maioria são contratados via CLT (contratos temporários). A existência dessa precarização relacionada aos recursos humanos tem alto impacto no CAPS infantil considerando que esta marca impõe muitas vezes, traços de descontinuidade nos projetos do serviço. É importante ressaltar que especificamente no caso de Carapicuíba, parecia haver uma interferência na rotatividade os freqüentes atrasos de salários, sobretudo no período entre 2004 e 2008, a ausência de plano de cargos e salários85 e as condições de trabalho.
As condições de trabalho observadas no serviço são determinantes para avaliar as possibilidades de efetivação do cuidado, sobretudo pensando que o que está em jogo é a consolidação de uma política nacional em âmbito local. O fato do CAPS por três anos funcionar em espaço onde havia grande circulação de crianças associada a outros serviços, de certa maneira interferia na rotina de trabalho. Durante esse período funcionou nas dependências do CAPS o combate à dengue da cidade, o almoxarifado da saúde, um serviço de prótese dentária e dois ambulatórios: o de psiquiatria infantil e o de neuropediatria. Todos ao mesmo tempo.
Trabalhar com a alta complexidade no âmbito da saúde mental infanto-juvenil implica na necessidade de acolhimento à crise, atenção á algumas crianças com alto grau de comprometimento, inclusive no que se refere ao controle esfincteriano,
84 As reflexões sobre o processo de trabalho aqui presentes apresentam-se como elemento que
colabora no deslevo, na ultrapassagem da aparência dos limites de intervenção do Estado nas mudanças do modelo de atenção, sobretudo em sua transição de práticas repressivo/asilares para a dimensão territorial presente no modo psicossocial. Tais questões relacionadas à organização do trabalho no SUS certamente poderiam ser aprofundadas com a contribuição de autores como Emerson Merhy e Ricardo Bruno Mendes Gonçalves.
85 No referido município não há sequer instituído o cargo de coordenação técnica dos serviços e da
Coordenação municipal de saúde mental. Os técnicos que assumem esses cargos recebem uma quantia a mais no salário descrita como “horas extras”.
possibilidade de ocupar espaços abertos, em alguns momentos exige silêncio e reserva, ações que uma grande circulação de pessoas por vezes dificulta. É preciso dizer que em 2006 o próprio prédio do CAPS ficou alguns dias sem funcionar por ser um dos focos de dengue na comunidade.
Nesses anos, a partir do acesso aos documentos do serviço, foi possível perceber que a grande rotatividade se expressou pela revisão do projeto do serviço, que foi alterado em três situações sem, no entanto apresentar mudanças significativas. A revisão do projeto pareceu possibilitar a reflexão acerca dos objetivos do serviço e, ao mesmo tempo, a apresentação do serviço aos novos trabalhadores86. Em um desses momentos a equipe chega a elaborar um esboço de organização do fluxo dos usuários no serviço como podemos observar.
Quadro 1 – Fluxograma do CAPS infantil de Carapicuíba
Fonte: equipe CAPS infantil de Carapicuíba 2010
86 Além da rotatividade, outra questão que muito influencia a dinâmica do serviço é que a formação
A alta rotatividade dos trabalhadores implica também na dificuldade de se estabelecer atividades de educação permanente no SUS, tendo em vista que os trabalhadores passam pelo serviço por um período breve87.
É preciso apontar que parte significativa das alterações da equipe era marcada por um desligamento gradual dos vínculos com alguns usuários considerados “de referência”. No entanto o estabelecimento das referências e a própria organização do processo de trabalho por vezes esbarrava nos limites do município. Como não havia uma sedimentação de regiões em distritos sanitários ou divisões geográficas estabelecidas pela gestão, o referenciamento dos usuários, ou seja, o estabelecimento de um técnico que acompanhe com maior propriedade um usuário, responsabilizando-se pela elaboração de seu projeto terapêutico ou de acompanhar sua inserção em outros espaços da cidade, como a escola, por exemplo, era feito muitas vezes de acordo com a vinculação dos técnicos com os usuários (subjetiva). A decorrência dessa organização dificultava o funcionamento das referências, sobretudo no que se refere nas intervenções no território, pois como a vinculação era o central e não os recursos da cidade, muitas vezes os trabalhadores tinham que se apropriar de muitas regiões da cidade, o que ficava inviável naquela realidade de trabalho.
A sensação de estar “apagando incêndio”, ou seja, de interferir apenas na imediaticidade das ações é uma marca que evidencia a ausência de avaliação e planejamento do trabalho. É importante ressaltar que para o funcionamento pleno de um CAPS é imprescindível não apenas o planejamento e avaliação das ações em saúde de maneira ampliada, contemplando outros equipamentos de saúde de
87 Da equipe que integrava o CAPS infantil ao início da pesquisa (segundo semestre de 2008)
diferentes níveis de complexidade como também da possibilidade de cobertura dentro do território. Considerando que atualmente um CAPS infantil tem a cobertura assistencial marcada pela oferta de atenção para um grupo populacional de 100.000 habitantes, Carapicuíba necessitaria de mais serviços desse tipo, ou de uma estruturação das ações em saúde que focalize, a partir da equidade, quais são as pessoas que devem ter prioridade dentro do conjunto de necessidades de saúde identificadas.
Mas não apenas nas relações ou nas “tecnologias leves” como propõe Merhy (2002) apresentam-se as questões relativas às condições de trabalho. É possível perceber que no CAPS infantil de Carapicuíba, a maioria dos recursos tecnológicos para a realização do trabalho foram conseguidas por meio de doações88. Uma das principais fontes de financiamento do serviço no que se refere aos equipamentos foi a solidariedade. Esse traço marcante de fragilidade do serviço é percebido na particularidade do município não sendo possível ampliar essa característica como uma marca da falta de financiamento para os CAPS no território nacional. A reposição de insumos e materiais pela prefeitura era regularmente marcada por alimentos, materiais de limpeza e escritório, impressora, mobiliário, entre outros materiais básicos. Em 2009 o serviço teve acesso à internet restrito aos funcionários.
88 Entre os materiais doados que foram solicitados para a Prefeitura de Carapicuíba encontram-se:
Computadores, Televisores, aparelhos de DVD, Vídeo Cassete, Jogos e Brinquedos, Máquina fotográfica, livros e revistas, sofá, geladeira, móveis de escritório (duas mesas e uma cadeira), violão, filmes (DVD e VHS), jogos de computador, materiais para artesanato, amostras grátis de medicamentos, além de prendas para festas.