2.4. Análise Ergonômica do Trabalho e Projeto Organizacional
2.4.4. Ergonomia e Projeto Organizacional: a perspectiva do trabalho
Nesse artigo Lima irá explorar os pontos de discordância frente ao texto de Salerno. Os equívocos apontados por Lima acontecem ao passo que Salerno assume que a perspectiva da PO e da AET tratam de objetos distintos, ou seja, para Salerno AET e PO são disciplinas que se complementam e conseqüentemente contribuem para o projeto do trabalho. Já para Lima, Projeto Organizacional e Ergonomia são disciplinas (a) que concorrem sobre o mesmo objeto disputando o mesmo espaço da realidade; (b) as quais discutem o objeto a partir de seu ponto de vista e; (c) são concorrentes ao explicar o trabalho, no campo teórico- conceitual, no que consiste sua organização e quando se trata de ações para aumento da eficácia produtiva. Os pontos de discórdia entre os dois textos são referentes às conseqüências e alocação dos resultados de uma AET em relação à organização do trabalho propostos por Salerno. Lima discute o texto de Salerno respeitando sua estruturação, ou seja, Salerno organiza seu discurso em torno da contraposição de uma abordagem objetivante (PO) e uma abordagem subjetivante (AET).
A posta em marcha do trabalho real pelos sujeitos no curso da ação reorganiza as regras pressupostas pela organização formal a fim de dar conta das metas de produtividade
e da própria regulação da carga de trabalho. A contribuição entre AET e PO segundo Lima será possível quando as disciplinas partirem a discussão dos pontos de discórdia.
Lima sustenta que o PVA, “(...) ponto de vista de como os objetivos fixados
podem ser efetivamente alcançados em uma dada situação” (Duraffourg 1991, apud Lima
2000, p.74), é o “(...) único com possibilidade de se universalizar”. O autor defende que os outros pontos de vistas que regem as regras do trabalho possuem uma visão parcial sobre o objeto, já o PVA consegue conjugar as lógicas da PO com os conflitos para alcançar os objetivos e metas determinados; ainda, aproxima e compromete tanto os sujeitos analisados quanto os próprios organizadores com os conhecimentos gerados.
Em réplica ao texto de Salerno, Lima reafirma que AET e PO são abordagens que concorrem sobre o mesmo objeto e não se complementam. Baseada no behaivorismo, a PO aborda e transforma a atividade humana buscando reduzi-la ao comportamento, já a AET analisa o trabalho buscando salientar os modelos de regulação presentes nas atividades de trabalho. Em resumo, Lima caracteriza o limite entre as duas abordagens segundo o parágrafo abaixo:
“Em suma, o objeto da AET seria a atividade dos sujeitos humanos e seus mecanismos de regulação, o ‘trabalho real’, enquanto o projeto organizacional se interessa pelo que em ergonomia se denomina ‘trabalho prescrito’, em nível bem mais amplo que esta disciplina tem considerado” (p.76).
Tratando-se do nível de abordagem, para Salerno a AET lida com as condições de trabalho e com seus efeitos sobre a saúde dos trabalhadores, não entrando no campo das estratégias e objetivos da produção; afirma também, que a unidade de análise da AET é tarefa/atividade individual. Em contraposição, Lima afirma (a) que os modelos de regulação criados no curso da atividade são os meios encontrados pelos trabalhadores a fim de dar conta dos objetivos e estratégias produtivas; (b) que todo trabalho é coletivo, não existindo
atividade isolada e, portanto; (c) não há sentido em se discutir carga de trabalho sem considerar os objetivos da produção e sua regulação coletiva.
Segundo Lima, o conceito de análise do trabalho prescrito por Salerno não abrange a estrutura organizacional. Porém, fazendo esta parte da das condições de contorno impostas, ao descrever o trabalho prescrito a AET abrange o nível estruturante, assim “(...) é
fundamental acentuar que a estrutura faz parte das condições de contorno impostas, portanto, já está integrada à AET sob o conceito de trabalho prescrito” (p. 83).
Outro ponto discutido por Lima para reafirmar a concorrência das duas abordagens se refere ao tratamento dado à variabilidade presente nas situações de trabalho. Salerno dá importância ao tratamento dessa variabilidade ao afirmar que as organizações devem mudar o foco; a lógica homogênia e estável deve dar lugar à uma lógica heterogênea e variável para o tratamento das novas formas de organização do trabalho (paradigma Taylorista/Fordista X paradigma dos modelos flexíveis de organização do trabalho). Porém, Salerno utiliza esse discurso para aprofundar seu conceito de complementaridade entre as duas disciplinas ao conceituar que “(...) o foco é a variabilidade/ajustes ao nível do
trabalhador, e não ao nível da produção. Apesar de estarem ligadas, as duas questões não são idênticas” (p. 48). Em contraposição, segundo Lima, a variabilidade considerada pela
Ergonomia é aquela decorrente dos modelos de organização e esta é gerenciada ao nível operacional por meio dos próprios trabalhadores.
O conceito de análise da demanda também é contraposto por Lima. Segundo este, a análise da demanda é a etapa cujo problema será reformulado e entendido, inclusive pelos próprios demandantes. Para Salerno, a analise da demanda constitui o entendimento pelo ergonomista do que o cliente espera.
Outro equívoco cometido por Salerno na visão de Lima é a posição desse autor sobre o método. Salerno coloca a autoconfontação dos operadores sobre os dados coletados
como uma “(...) inovação metodológica por excelência da ergonomia” (p.85). Porém, segundo Lima, essa técnica faz com que a Ergonomia não se aproprie do conhecimento gerado transformando os trabalhadores em objetos de estudo; esse é o método “(...) através do
qual se explicita o ponto de vista da atividade, que dá vida e sentido aos dados brutos”
(p.86).
Discutidos esses pontos, Lima coloca que os equívocos menores já foram salientados e retoma o ponto fundamental da discussão: a análise comparativa entre as duas abordagens sobre os conceitos objetivante e subjetivante. Para Lima, os equívocos se dão tanto de maneira descendente (PO – objetivante) quanto no sentido ascendente (AET – subjetivante). São caracterizadas duas abordagens, sendo uma técnica e, portanto, direcionada ao engenheiro técnico ao qual compete a atuação sobre máquinas, equipamento, entre outros, e outra direcionada aos engenheiros de produção e ergonomistas, que atuam quando há uma interseção entre os dispositivos técnicos e os trabalhadores. Porém, Lima ressalta uma mistura de papéis quando se trata de aumento de eficácia produtiva entre os engenheiros técnicos e os engenheiros de produção. Por outro lado, identificar onde se insere o ergonomista não apresenta dúvidas, pois este só atua quando há operadores dentro do processo produtivo. Dessa forma, a abordagem objetivante – técnica - coloca esse dilema para os engenheiros de produção. A construção técnica, segundo Lima, faz com que o projeto do trabalho se torne uma atividade complexa para ergonomistas e organizadores “(...) obrigando-os a intervir
desde o início do projeto e a negociar com outras lógicas legítimas dentro da empresa. Por estas e outras razões, o projeto das situações de trabalho deve ser tratado como um todo” (p.
87-88).
Outro ponto relevante da discussão é a releitura de Taylor a fim de reafirmar a indissociabilidade entre projeto organizacional e projeto do trabalho. Salerno deixa claro em seu texto a separação entre AET e o estudo tempos e métodos. Mas Lima identifica Taylor
como um “fundador” da ergonomia por ter se interessado em analisar o trabalho e recompô-lo mostrando que o projeto organizacional e do trabalho são abordagens indissociáveis. O que salienta é como essa síntese deve ser elaborada e operacionalizada:
“(...) as diferenças entre as duas disciplinas não se devem às suas lacunas ou impossibilidades teórico-metodológicas para tratar de uma realidade complexa, como e fossem dois pernetas que, ajudando-se mutuamente, conseguem andar sem muletas, mas sim decorrem de perspectivas diferentes sobre como operar esta síntese entre organização e atividade” (p. 94-95).
Ainda, Lima considera a colocação de Salerno sobre o quanto se deve prescrever como a mesma indagação assumida por Taylor dentro da OCT. Porém, o conflito é claro, o projeto organizacional se propõe a institucionalizar regras para o trabalho e, em contrapartida para ergonomia, o trabalho deveria instituir suas próprias regras.