2.3 Ergonomia e Projeto
2.3.2 Ergonomia nos processos de projeto de postos de trabalho
Wilson (2000) entende como papel da ergonomia a compreensão das interações entre as pessoas e os artefatos e a contribuição para o projeto dos sistemas de interação. Wisner (2004, p. 44) ao comparar os objetos de cada corrente de ergonomia afirma:
O objeto da ergonomia britânica – e americana – é, em primeiro lugar, o equipamento: o da ergonomia francófona é muito mais enigmático, é o trabalho. A constatação fundadora da ergonomia francófona está ligada ao fato que um equipamento pode ter incorporado os melhores conhecimentos oriundos da Human Factors Science e não permitir um trabalho satisfatório à população de trabalhadores que o utilizam. É fato que o trabalho real é, para eles, diferente do trabalho prescrito ou suposto pelos conceptores. O conjunto da situação de trabalho e dos trabalhadores pode obrigar estes últimos a se comportarem de maneira diferente da prevista. Para conceber um bom dispositivo técnico, seria, então, necessário analisar o trabalho. (WISNER, 2004, p.44)
Para Daniellou (2002), a ergonomia deve não somente descrever os processos de concepção, mas os influenciar, por favorecer uma concepção de situações de trabalho eficazes e compatíveis com a saúde dos trabalhadores. O fornecimento de dados técnicos sobre o funcionamento do homem aos projetistas, durante a fase de estudos, tem a sua importância, mas parece secundário em relação a uma ação precoce da ergonomia, no que diz respeito a interação com os diferentes atores durante a concepção, por permitir uma discussão do conjunto dos objetivos do projeto.
A importância dos ergonomistas, nas fases iniciais do projeto, deve-se à dimensão temporal do mesmo, pois à medida que o tempo passa aumenta-se o conhecimento sobre o que se está estudando, entretanto diminui-se o tempo de possibilidade de ação, tanto pelo tempo restante, como pelas escolhas já feitas em relação aos sistemas (JACKSON, 2000; DUARTE, 2002).
Mattila (1996) afirma que existe uma necessidade urgente de implementação de conhecimentos ergonômicos no processo de projeto e no processo de tomada de decisão, tanto quanto no uso de máquinas, equipamentos e sistemas de produção.
Helin et al. (2007) afirmam que os modernos projetos de sistemas de produção que consideram também o trabalho efetivo do “chão-de-fábrica” são processos complexos. No entanto, atualmente, os projetos ainda baseiam-se considerando apenas as questões de eficiência técnica e limitações de custo. É comum que a prioridade do elemento humano apareça depois da concepção técnica da solução do problema. Segurança, ergonomia e
usabilidade são partes importantes do projeto e que deveriam ser reconhecidas no processo de planejamento concomitantemente com outros aspectos. Para o autor não há dúvidas de que o processo de projeto se beneficia das informações e transferência de conhecimentos entre todas as pessoas envolvidas, como designers, programadores da produção, planejadores de trabalho, gestores, trabalhadores, ergonomistas, profissionais da segurança e da saúde ocupacional.
Garrigou et al. (2001) sugerem um modelo de análise que integra três abordagens articuladas em uma intervenção ergonômica: a descendente, a ascendente e por simulação. A abordagem descendente está ligada à concepção clássica, ou seja, a ergonomia irá interagir por meio dos conhecimentos do homem em situação de trabalho, no intuito de levar a um enriquecimento da definição dos objetivos do projeto, bem como, à reflexão sobre as escolhas técnicas e organizacionais.
A abordagem ascendente tem como objetivo instruir um retorno da experiência das situações de referência, identificando possíveis variabilidades. Essas identificações permitem caracterizar diferentes situações de uso e de gestão das variabilidades e serão estruturadas sob forma de cenários de atividades futuras.
Por fim, os autores articulam as abordagens anteriores com a abordagem por simulação (Figura 2-9). Esta tem como objetivo produzir prognósticos sobre possíveis dificuldades que os operadores possam vir a encontrar em sua atividade futura. Essas dificuldades podem impactar a eficácia do funcionamento das instalações e a saúde dos operadores.
O processo de projeto objetiva transformar as recomendações derivadas da AET em soluções que integrem os diferentes aspectos que envolvem as situações de trabalho. A integração entre métodos próprios da ergonomia e os métodos de projeto propriamente ditos, permite que se alcance efetivamente as soluções a serem implantadas (MENEGON, 2003).
Para Fontes et al. (2005) o processo de design no contexto da AET inicia-se desde a demanda até a etapa de validação do projeto, não havendo uma linha separadora de tempo entre essas disciplinas. Para esses autores o design é norteado pelo andamento da AET, mas se une a ela desde a compreensão do trabalho até a elaboração dos conceitos projetuais. Essa parceria proporciona o entendimento mútuo de suas ferramentas e evita a proposição de soluções pontuais.
Figura 2-9: Articulação de abordagens para intervenção da ergonomia em projetos de concepção. Adaptado de Garrigou et al. (2001).
A integração da teoria de projeto e ergonomia aponta para as seguintes conclusões:
a) os determinantes advindos dos aspectos estratégicos do negócio em conjunto com o
escopo do projeto, isto é, a abrangência dos elementos de especificação sobre controle da equipe de projeto constituem fortes restrições para a introdução de mudanças positivas em situações de trabalho;
b) dentro do espaço de projeto determinado pelas questões anteriores, as interações entre os
trabalhadores que atuarão sobre o dispositivo projetado e os projetistas representam uma questão central do processo de projeto em ergonomia;
c) os métodos e técnicas, sejam do campo da ergonomia ou de projeto, devem orientar-se no
sentido de possibilitar a construção de consensos negociados, auxiliando o processo de tomada de decisão (ERGO&AÇÃO, 2003b, p. 32).
Por fim, o trabalho do ergonomista, dentro da equipe de projeto responsável pela concepção da situação produtiva, não se encerra na Análise Ergonômica do Trabalho e
nem mesmo na implantação das mudanças positivas nas situações de trabalho, pois “(...) é fácil constatar que a nova situação revelará novos reveses, os quais colocarão em ação a inteligência inovadora, tanto daqueles que operam o dispositivo técnico, como daqueles que se encarregam da sua concepção” (ERGO&AÇÃO, 2003b), configurando assim a necessidade de uma atuação cíclica e contínua da ergonomia dentro das organizações.