2.2 Ergonomia nas Unidades de Produção Agrícola
2.2.6 Estudos vinculados ao Projeto Agricultura da ANACT
2.2.6.3 Ergonomia a serviço de um projeto de evolução de uma unidade de
Este estudo foi realizado por Goguet-Chapuis (1996) entre produtores de gado de leite da região de Lozère, no sudeste da França, que formavam um grupo de desenvolvimento agrícola. Desejando estudar de forma metódica e aprofundada suas condições de trabalho, este grupo de agricultores produziu “diagnósticos trabalho”, através dos quais tomaram consciência que significativa parcela do trabalho em seus sistemas de produção era realizado em regime voluntário (parentes, por exemplo). Este aspecto denotou uma fragilidade desse sistema, sendo assim, os agricultores começaram a refletir sobre as possibilidades de transformá-los a fim de garantir sua perenidade. Para desenvolver a contento esta reflexão, solicitaram o apoio metodológico da ANACT, através de uma organização de desenvolvimento agrícola de âmbito nacional (TRAME, já citada anteriormente no estudo de Tamain, 1996).
Dentro do Projeto Agricultura da ANACT, a intervenção ergonômica foi então realizada com o objetivo de “precisar as ferramentas e métodos necessários para a abordagem ergonômica de um projeto de melhoria das condições de produção de bovinos de leite, e o interesse desta abordagem como complemento à abordagem técnico-econômica usual praticada pelos técnicos extensionistas21” (Goguet-
Chapuis, 1996, p.03).
O autor escolhe, por limitação de tempo e recursos, realizar o estudo em uma das unidades de produção pertencente ao grupo de desenvolvimento agrícola, cujo agricultor tinha um projeto de evolução (construção de um bloco de ordenha e re- alojamento dos animais) que necessariamente transformaria seu trabalho.
Em uma primeira fase do estudo, procurou-se compreender e especificar o trabalho do agricultor ao longo de um ciclo anual, a fim de identificar as situações problemáticas. Foram utilizadas três vias de investigação: um questionário preenchido pelos agricultores e uma posterior entrevista sobre os dados informados; o “diagnóstico trabalho” realizado anteriormente e a crônica de ação referente ao trabalho quotidiano, construída a partir de observações realizadas pelo autor. Nesse estudo, três tipos de situações são investigados:
• situações repetitivas, às vezes diárias, ligadas ao trabalho quotidiano (ex.: ordenha, alimentação dos animais, limpeza das baias, etc.);
• situações pontuais, ocasionais, ligadas ao trabalho sazonal (ex.: ensilagem, distribuição de esterco, etc.); e
• situações repetitivas ou ocasionais de acordo com as opções técnico- econômicas feitas pelo agricultor (ex.: partos agrupados ou não, etc.). A partir deste levantamento, o autor forneceu seis pistas (temas a explorar), validadas pelo agricultor. A partir da análise destas pistas, o agricultor pôde, então, formalizar melhor sua demanda ao ergonomista, desejando prosseguir na questão de tornar mais leve o trabalho quotidiano e de trabalhar com o sistema de produção futuro, prevendo a construção de um bloco de ordenha e modificações no alojamento dos animais. Ocorreu, nesta fase, a instrução e a re-formulação da demanda do agricultor ao ergonomista.
Relatório Final. Grenoble (França): ACTIVITE, 1988. 61p.
21 Técnicos extensionistas é uma tradução de “conseillers agricoles”, que são os técnicos responsáveis pela difusão das informações técnicas aos agricultores (Nota do autor).
O autor passa, então, a trabalhar na perspectiva de “(...) tornar mais leve o trabalho de ‘astreinte’ no quadro de um projeto de evolução do sistema de produção, de maneira a fornecer ao produtor os elementos de apreciação necessários para que escolha um melhor ‘compromisso’ possível entre os investimentos, as reformas e o trabalho no sistema futuro” (Goguet-Chapuis, 1996, p.08).
O trabalho quotidiano é um conjunto composto essencialmente de três ações: a ordenha, a estocagem e distribuição de alimentos aos animais e a manutenção das instalações onde estão alojados os animais (distribuição de palha e evacuação dos dejetos). Estas três ações são interdependentes: as condições de ordenha serão boas se as condições de alojamento dos animais forem boas (animais limpos), e estas últimas condicionam fortemente o modo de distribuição dos alimentos. Procurar melhorar as condições do trabalho quotidiano consiste, portanto, em examinar conjuntamente as suas condições para cada uma das três ações que o compõem. Dessa forma, melhorar as condições de trabalho conjuntamente para cada uma destas três ações consiste em procurar o melhor “compromisso” para os seguintes critérios:
• as características dos equipamentos e suas condicionantes de uso;
• a configuração dos equipamentos (sua localização nas instalações) e os circuitos (das pessoas, dos animais e de materiais);
• as reformas necessárias à estas configurações;
• o custo destas reformas, do investimento material, as condicionantes dos insumos do sistema escolhido;
• a atividade (tarefas, durações, modos operatórios, condicionantes físicas, etc.) ligada ao sistema escolhido.
A partir deste ponto, a metodologia proposta por Goguet-Chapuis (1996) é dividida em três etapas:
1. construção de cenários relacionados à ordenha, à estocagem e distribuição de alimentos e à manutenção das instalações;
2. para cada um dos cenários, descrever cada um dos cinco critérios: equipamentos e condições de uso; configurações e circulações; reformas; custo dos investimentos e condicionantes dos insumos; atividade.
3. restituir as especificações ao produtor e avaliar em que medida estas transformações lhe permitem refletir sobre o melhor compromisso entre os investimentos, as reformas e o trabalho em seu projeto.
Para construir os cenários, o ergonomista reuniu quatro técnicos extensionistas na unidade de produção para discutir sobre as possibilidades de transformação, em função do projeto do agricultor, na ausência (voluntária) deste último. Durante uma visita de uma hora e meia, percorreram a unidade de produção, sala por sala, discutindo em uma entrevista livre a seguinte questão: “se você fosse Sr. B, considerando seu projeto, por quais opções vocês optariam (em termos de equipamentos, reformas e organização do trabalho) no que se refere simultaneamente à ordenha, ao alojamento dos animais e à manutenção do alojamento, à estocagem e distribuição de alimentos?” (Goguet-Chapuis, 1996, p.09).
A partir de entrevista não dirigida com os técnicos, o autor sustenta que dois dos cinco critérios são por eles utilizados para construir uma representação mental comum do cenário: as configurações e circulações; os equipamentos e suas condicionantes de utilização. Estes dois critérios foram chamados de “entradas”, atribuindo às configurações e circulações o papel de “cenário” propriamente dito, e aos equipamentos e condicionantes de utilização o papel de “opções”. Neste ponto, identificaram-se quatro cenários possíveis e quatro opções possíveis para cada cenário, resultando em onze hipóteses de sistema ordenha; alojamento/manutenção
do alojamento; estocagem/distribuição de alimentos; cada hipótese de sistema foi
batizada de “modelo”. Cada modelo é descrito por um cenário, pelas opções e por um plano de reforma das instalações.
Definidos os modelos, Goguet-Chapuis (1996) passa para a segunda etapa da metodologia, ou seja, especificar cada modelo. Os modelos já haviam sido especificados em relação a dois dos cinco critérios, restando, então, três critérios a serem detalhados: as reformas necessárias, o custo destas reformas e a atividade provável futura22. Os tipos de dados usados para detalhar estes critérios foram as
crônicas de ação (jornada típica do trabalho quotidiano), dados de referência obtidos
22 Atividade Provável Futura – consiste em observar a atividade de trabalho em sistemas que tenham tecnologias semelhantes àquelas que constituem os cenários previstos (chamadas situações de referência), fazendo uma aproximação da atividade de trabalho futura que provavelmente será desenvolvida pelo(s) operador(es) (Nota do autor).
através de bibliografia e dos técnicos e a análise de situações de referência23. Com
estes dados o autor produziu, para cada modelo:
• um quadro de síntese e comparação das condicionantes ligadas a cada modelo (reorganização espacial, investimento em equipamentos de produção de palha e de estocagem);
• uma ficha de simulação da crônica de ação em que é descrita a suposta atividade de trabalho quotidiano no modelo, em termos de tarefas prescritas, encadeamento destas tarefas, freqüência e duração delas, deslocamentos necessários na infra-estrutura de instalações do produtor, condicionantes físicas.
Elaboradas estas ferramentas, foi, então, desenvolvida a terceira etapa, momento no qual foram feitas as restituições da atividade de trabalho observada ao agricultor cuja unidade de produção fora analisada, e também aos agricultores do grupo de desenvolvimento agrícola do qual originou-se a demanda. O objetivo desta etapa foi o de “escolher, para o futuro sistema, o melhor compromisso entre as reformas, o investimento e a atividade, usando as ferramentas para facilitar o trabalho de análise e reflexão do agricultor” (Goguet-Chapuis, 1996, p.11).
Segundo o autor, no momento de restituição individual, o agricultor mostrou bastante interesse nos modelos integrando dispositivos técnicos que ele não havia cogitado no início. Outro avanço foi a percepção de que um projeto pode ser concebido de maneira evolutiva. Já a conclusão do grupo de agricultores foi a de que “(...) uma tal abordagem seria necessária cada vez que um agricultor elabora um projeto de construção ou transformação de uma instalação: além da abordagem técnica e econômica do projeto, uma abordagem da atividade permite afinar as escolhas e aumentar o conjunto de cenários possíveis” (Goguet-Chapuis, 1996, p.12).
23 A análise de situações de referência é uma etapa da metodologia de concepção ergonômica de projetos industriais, e consiste em tentar prever a atividade de trabalho futura provável, através da observação do trabalho realizado por operadores com os dispositivos técnicos previstos em alguns dos modelos (Nota do autor).
2.2.7 Estudos realizados no Laboratório de Ergonomia dos Sistemas Complexos