Mors janua vitae
77 Erny, O Psiquismo Experimental, p 98 E Flammarion, edit 78 Idem, p 99-100.
conhecimentos médicos bastante estendidos. Suas faculdades de clarividência foram frequentemente aplicadas no diagnóstico de doenças. Esse homem escreveu suas memórias e eis como ele descreve o processo da morte:
Minhas faculdades de vidente me permitiram estudar o fenômeno psíquico e fisiológico da morte, na cabeceira de um moribundo. Era uma senhora por volta dos sessenta anos, à qual eu tinha dado frequentes conselhos médicos. Quando a hora da morte chegou, eu estava muito feliz em um estado perfeito de saúde permitindo a minhas faculdades de vidente se exercer livremente. Eu me colocava de maneira a não ser visto ou incomodado em minhas observações psíquicas, e eu me pus a estudar os misteriosos procedimentos da morte.
Eu vi que a organização física não podia mais sofrer as necessidades do princípio intelectual, mas diversos órgãos internos pareceram resistir à partida da alma. O sistema muscular tentava manter as forças motrizes. O sistema vascular se debatia para reter o princípio vital; o sistema nervoso lutava com todo o poder contra a aniquilação dos sentidos físicos e o sistema cerebral procurava reter o princípio intelectual. O corpo e a alma, como dois esposos, resistiam à sua separação absoluta; esses conflitos internos pareciam primeiro produzir sensações penosas e perturbadoras, também foi feliz quando percebi que essas manifestações físicas indicava, não a dor e o mal-estar, mas simplesmente a separação da alma e do organismo.
Pouco depois, a cabeça foi rodeada de uma atmosfera brilhante, depois, tudo de repente, eu vi o cérebro e o cerebelo estender suas partes interiores e parar suas funções galvânicas, eles se ficaram saturados de princípios vitais de eletricidade e magnetismo, que penetraram nas partes secundárias do corpo. Dito de outra forma, o cérebro se tornou subitamente dez vezes mais preponderante do que não era no estado normal. Esse fenômeno precede invariavelmente a dissolução física.
Em seguida, eu constatei o procedimento pelo qual a alma ou o espírito se desliga do corpo. O cérebro atrairá a si os elementos de eletricidade, de magnetismo, de movimento, de vida, de sensibilidade, espalhados em todo o organismo. A cabeça foi como iluminada, e eu notei que no mesmo tempo que as extremidades do corpo ficavam frias e obscuras, o
cérebro tomava um clarão particular.
Em torno dessa atmosfera fluídica que envolvia a cabeça, eu vi se formar uma outra
cabeça, que se desenha cada vez mais nitidamente; ela era brilhante como eu podia com
dificuldade vê-la, mas, à medida que essa cabeça fluídica se condensava, a atmosfera brilhante desaparecia. Eu deduzi que esses princípios fluídicos que tinham sido atraídos de todas as partes do corpo em direção ao cérebro, e então eliminados sob forma de atmosfera particular, eram antes unidos solidamente, segundo o princípio superior de afinidade do universo que se faz sempre sentir em cada parcela de matéria. Com surpresa e admiração, eu segui as fases do fenômeno.
Da mesmas maneira em que a cabeça fluídica era desligada do cérebro, eu vi se formar sucessivamente o pescoço, os ombros, o tronco, e enfim o conjunto do corpo fluídico.
Ficou evidente para mim que as partes intelectuais do ser humano são dotadas de uma afinidade eletiva que lhe permite se reunir no momento da morte. As deformidades e defeitos do corpo físico tinham desaparecido inteiramente do corpo fluídico.
Enquanto o fenômeno espiritualista se desenvolvia diante de minhas faculdades particulares, por outro lado, para os olhos materiais das pessoas presentes no quarto, o corpo da moribunda parecia experimentar sintomas de mal-estar e de pena, mas eles eram fictícios, pois eles provinham somente da partida das forças vitais e intelectuais se retirando de todo o corpo para se concentrar no cérebro, depois no novo organismo. O espírito (ou inteligência desencarnada) se elevou a um ângulo à direita acima da cabeça do corpo abandonado, mas antes da separação final do laço que tinha reunido tanto tempo as partes materiais e intelectuais, eu vi uma corrente de eletricidade vital se formar sobre a cabeça da moribunda e abaixo do novo corpo fluídico. Isso me dá a convicção de que a morte não era senão um renascimento da alma ou do espírito se elevando de um estado inferior a um estado superior, e que o nascimento de uma criança nesse mundo ou a formação de um espírito no outro eram fatos idênticos; nada faltava ali, mesmo o cordão umbilical que era
figurado por um laço de eletricidade vital. Esse laço subsistiu durante algum tempo entre os
dois organismos. Eu descobri então o que não percebera em minhas investigações psíquicas, é que uma pequena parte do fluido vital retornava ao corpo material, tão logo o cordão ou laço elétrico era cortado. Esse elemento fluídico ou elétrico, se espalhando em todo o organismo, impedia a dissolução imediata do corpo.
Tão logo que a alma da pessoa que eu observava foi desligada dos laços tenazes do corpo, constatei que seu novo organismo fluídico era apropriado a seu novo estado, mas que o conjunto se parecia com sua aparência terrestre. Me foi impossível saber o que se passava nessa inteligência revivente, mas notei sua calma, e sua admiração da dor profunda dos que
choravam perto de seu corpo. Ela pareceu se dar conta da ignorância deles do que tinha se
passado realmente.79
As observações dessa natureza são preciosas. Algumas, nós não ignoramos o pouco de onvidentes excepcionais, como aquela, cuja honorabilidade é constantemente confirmada no curso de uma longa existência, seria ridículo não ter em conta o testemunho. A descrição acima responde certamente a uma visão exata, porque ela concorda com muitas observações semelhantes. Eu concordo, entretanto, que não devemos nada aceitar do que descrevem os videntes sobre a vida no além, porque então eles traduzem conforme suas concepções pessoais das coisas percebidas sobre o plano mental, e que são frequentemente inexplicáveis, mas pode-se crer neles quando olham sobre o plano físico. Ora, trata-se de um processo físico de desencarnação.
Mas temos outros testemunhos como os dos videntes, é os dos moribundos que foram chamados à vida, e aqueles também concordam plenamente com a