O sistema de medicações é complexo e depende da atuação de diversos profissionais da equipe multiprofissional, sendo notório o envolvimento da equipe de enfermagem direta ou indiretamente em todos os processos que envolvem este sistema. Entretanto, é fato que tal envolvimento tem acarretado maior exposição, no que concerne à atuação assistencial, nos casos em que haja dano ao paciente. Tal exposição e evidência tem sido maximizada por constantes casos de erros e eventos adversos envolvendo profissionais de enfermagem noticiados pela mídia sensacionalista de forma pejorativa e indiscriminada.
A atuação errônea por parte do enfermeiro ou dos outros profissionais de enfermagem, seja pela ação ou omissão, pode acarretar prejuízos de natureza física ou moral ao paciente e suscitar a obrigação da reparação de danos, quando comprovada a culpa.48 Na culpa, o profissional não almeja obter um resultado prejudicial, porém assume o risco de que isso possa ocorrer, ensejando, a responsabilidade por negligência, imprudência e imperícia.49
A imprudência caracteriza-se pela omissão, precipitação, ato intempestivo, irrefletido, destituído da cautela necessária para aquela situação profissional. A negligência manifesta-se pela omissão, abstenção aos deveres, inação, inércia, indolência, preguiça psíquica. A imperícia consiste na ação sem conhecimentos técnicos adequados ou com uso equivocado dos conhecimentos técnicos, falta de habilidade, uma incompetência profissional.50
O Código de Ética do Profissional de Enfermagem51 destaca, no artigo 12, que é responsabilidade e dever da equipe de enfermagem “Assegurar à pessoa, família e coletividade assistência de enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência”, fundamentado e concordante com o Código Civil Brasileiro,52 que no seu artigo 186 refere: “Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.
Não obstante a característica de complexidade da administração de medicamento na prática assistencial de enfermagem, tal atividade é, na maioria das vezes, desempenhada por profissionais de nível médio - auxiliares e técnicos de enfermagem, sob a supervisão e orientação dos enfermeiros. O ato de delegar não faz refutar a responsabilidade que o enfermeiro tem no atendimento das necessidades assistenciais e de cuidados à saúde do paciente como indivíduo, da família e de outros entes significativos, mesmo sendo realizados por sua equipe, cabendo-lhe exclusivamente a supervisão de todas as atividades de enfermagem. Assim sendo, o enfermeiro, também, responderá solidariamente pelos danos causados se algum subordinado seu, ou seja, preposto seu, culposamente, prejudicar a um paciente.48,50,53
Nesse sentido, o artigo 18 do Código de Ética do Profissional de Enfermagem51 destaca que o profissional deve: “Responsabilizar-se por falta cometida em suas atividades profissionais, independente de ter sido praticada individualmente ou em equipe”.
Dado o grau de responsabilidade e envolvimento da equipe de enfermagem no contexto do sistema de medicação, é dever do profissional de enfermagem, prevenir eventos adversos e garantir a segurança no processo de uso. Para assegurar esses aspectos é essencial o amplo conhecimento acerca de modo de ação, reações adversas e interações dos medicamentos. Nesse sentido, o artigo 30 do Código de Ética do Profissional de
Enfermagem,51 proíbe ao profissional de enfermagem: “Administrar medicamentos sem conhecer a ação da droga e sem certificar-se da possibilidade dos riscos”.
Ademais, a ética profissional deve estar intrínseca na atividade da enfermagem, de modo que, o enfermeiro tem a obrigação de prestar ao cliente uma assistência livre de danos, consoante estabelece o Código de Ética de Enfermagem, sob pena da sua responsabilização administrativa perante os conselhos de classe, independente se a inobservância do dever de cuidado tenha ocorrido individualmente ou em equipe. Vislumbra-se, ainda nos termos do Código de Ética de Enfermagem, que o enfermeiro encontra-se proibido de administrar medicamentos, sem certificar-se das drogas que o compõem e da existência de risco para o cliente, sob pena de incorrer inicialmente na penalidade administrativa de advertência verbal, que se qualifica por ser uma admoestação reservada ao profissional infrator, devidamente registrada no seu prontuário, na presença de duas testemunhas, aplicada pelas autoridades integrantes dos respectivos Conselhos Regionais e Federal de Enfermagem.51,54
Todavia, faz-se mister ressaltar que, os antecedentes do infrator e/ou dependendo da gravidade da infração, além das circunstâncias agravantes e atenuantes da infração, assim como, o dano causado e suas consequências, são fatores fundamentais para a majoração da responsabilização administrativa do enfermeiro, de modo que, poderão ser materializadas penalidades de multa, censura, suspensão do exercício profissional, podendo, até mesmo, atingir a cassação do direito ao exercício profissional.54
Além da responsabilização administrativa, não se pode descartar a possibilidade do enfermeiro responder civil e penalmente. Na Responsabilidade Civil do Direito Privado há exigência de um ato ilícito, contrário à lei. No Direito Administrativo ela pode advir de atos ou comportamentos que, embora lícitos, causem a pessoas determinadas, ônus maior do que o imposto aos demais membros da coletividade. Não se questiona sobre a intenção do agente (culpa ou dolo) ou ocorrência de serviço da Administração (falta do serviço, inexistência, mau funcionamento ou retardo). Para postular a indenização basta que a vítima mostre que a lesão ocorreu sem o seu concurso e adveio de ato omissivo (omissão) ou comissivo (originado por uma ação) praticado por agente público, no exercício de suas funções.55
Assim, se um paciente é internado para tratamento e no curso da terapêutica medicamentosa durante a internação apresenta algum evento adverso para este dano,
poderá ser pleiteada indenização, pois há evidência do nexo causal (vínculo da causa) pelo fato da hospitalização e da terapia medicamentosa. Neste caso responderá a instituição pela ação, cabendo a esta, em ação regressiva contra o funcionário responsável, que prestou os cuidados durante a internação, promover as provas por culpa ou dolo.55