5. SUBSTANCIALIDADE DO ERRO
5.1. Erro indiferente e erro incidental
O erro indiferente é o que não possui qualquer relevância para a conclusão do
negócio. Mesmo se o declarante não estivesse em erro sobre algum ponto do contrato,
este seria concluído nos exatos termos em que o foi.
415Como espécie de erro indiferente o art. 142 do Código Civil dispôe que o erro de
indicação da pessoa ou da coisa, a que se referir a declaração de vontade, não viciará o
negócio quando, por seu contexto e pelas circunstâncias, se puder identificar a coisa ou
pessoa cogitada.
416Trata-se aqui de erro que não gera a invalidade do negócio, que não
vicia a vontade do declarante
417. Executa-se o negócio como se não houvesse qualquer
erro de vontade. Como exemplo, cite-se um determinado contrato de compra e venda no
qual se grafa de forma incorreta o prenome do comprador do bem, podendo, no entanto,
ser este facilmente identificado pelas demais circunstâncias do negócio.
O erro incidental, presente na literatura portuguesa, não é determinante para a
realização do negócio jurídico mas o afeta de modo significativo. Sem ele, o negócio
seria realizado mas não da forma como o foi, ou seja, seria feito mas o conteúdo do
negócio seria diverso.
415 PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria Geral do Direito Civil. 3. ed. Coimbra: Coimbra Editora,
1988, pp. 509-510: “é óbvio que o erro indiferente, isto é, um erro tal que, mesmo sem ele, o negócio teria sido concluído nos precisos termos em que o foi, não tem qualquer relevância. Com efeito, o erro, para relevar, deve atingir os motivos determinantes da vontade (arts. 251.º e 252.º), o que, nesta hipóteses, não acontece.”
416 A redação é a mesma do revogado art. 91 do Código Civil de 1916: “O erro na indicação da pessoa, ou
coisa, a que se referir a declaração de vontade, não viciará o ato quando, por seu contexto e pelas circunstâncias, se puder identificar a coisa ou a pessoa cogitada”.
417 Observa Humberto Theodoro Júnior que “o caso não é de invalidação, mas, sim, de interpretação do
negócio jurídico. Se por meio deste se chega, com segurança ao querer verdadeiro do declarante, o erro se torna apenas acidental e o efeito do negócio se produzirá em torno da pessoa ou coisa que, na realidade, visou o declarante.” (Comentários ao Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003, vol. III, t. I, p. 102).
Carlos Alberto da Mota Pinto pondera que
só o erro essencial produzirá, desde logo, uma vez presentes os restantes requisitos gerais e especiais, a anulabilidade do negócio. O erro incidental não será, todavia, irrelevante: o negócio deverá fazer-se nos termos em que teria sido concluído sem o erro. Neste sentido pode invocar-se um argumento de analogia, a partir do artigo 911.º (redução do preço na compra de bens onerados)418. Deverá, porém, ter lugar a anulabilidade quando se não possa
ajuizar desses termos com segurança, ou, pelo menos, com bastante probabilidade e, ainda, quando se prove que a outra parte os não teria acolhido (art. 292.º419 sobre a redução dos negócios jurídicos).420
No caso em que o erro recai na vontade do sujeito que, caso não estivesse em
equívoco, não celebraria nenhum tipo de negócio jurídico, o efeito anulatório age com
todo seu rigor e não oferece maiores dúvidas. Contudo, hipóteses diversas podem
acontecer. Temos aqui o caso da invalidade parcial, que incide nos casos em que o erro
se manifesta em termos específicos do negócio, de forma que este seria concluído,
porém, em condições diversas.
Nessas situações, haverá a redução do negócio jurídico
421, mantendo-se válida a
parte não afetada pelo erro.
422Confira o magistério de Heinrich Ewald Hörster:
o erro incidental não diz respeito à declaração em si mesma (esta sempre teria sido feita) mas apenas aos termos em que ela o foi (sem o erro a declaração teria sido feita, mas noutros moldes). Deste modo, o erro incidental não afecta a declaração na sua totalidade. Significa isto que o alcance da anulação varia em consonância com o alcance do erro. Se este recair sobre o negócio em si, a anulação atinge todo o negócio; se recair apenas sobre certos aspectos do negocio, a anulação abrange somente estes.423
418 Art. 911.º 1. Se as circunstâncias mostrarem que, sem erro ou dolo, o comprador teria igualmente
adquirido os bens, mas por preço inferior, apenas lhe caberá o direito à redução do preço, em harmonia com a desvalorização resultante dos ônus ou limitações, além da indemnização que no caso competir. 2. São aplicáveis à redução do preço os preceitos anteriores, com as necessárias adaptações.
419 Art. 292.º A nulidade ou anulação parcial não determina a invalidade de todo o negócio, salvo quando
se mostre que este não teria sido concluído sem a parte viciada.
420 PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria Geral do Direito Civil. 3. ed. Coimbra: Coimbra Editora,
1988, p. 509.
421 A redução do negócio jurídico ocorre nos casos em que a parte viciada não repercute em todo o
negócio, mas apenas em uma parte dele. De acordo com Manuel de Andrade, “o problema é de resolver, principalmente, em concordânica com a vontade hipotética (conjectural, virtual) das partes, isto é, de harmonia com aquilo que, dadas as circunstâncias, elas provavelmente teriam querido, se soubessem que o negócio brigava em parte com alguma disposição legal, não podendo, portanto, valer em toda a linha, e não tivessem, ou julgassem não ter, possibilidade de o concluir em termos de ser validado na sua integridade.” (Teoria Geral da Relação Jurídica. 7. reimpressão. Coimbra: Almedina, 1987, vol. II, p. 428). O autor entende que na dúvida sobre a vontade hipotética das partes, a solução deve ser no sentido da nulidade total do negócio (ob. cit., p. 430).
422 O Código civil português adota essa solução com base no art. 292.º: “A nulidade ou anulação parcial
não determina a invalidade de todo o negócio, salvo quando se mostre que este não teria sido concluído sem a parte viciada.” Portanto, nos casos em que o negócio não seria celebrado sem a parte viciada, a anulação se impõe.
423 HÖRSTER, Heinrich Ewald. A Parte Geral do Código Civil Português. Teoria Geral do Direito Civil.
Coimbra: Almedina, 1992, p. 575. Observa o autor que “na verdade, a anulação não pode ir mais longe do que o alcance do erro. Apenas se pode anular na medida em que a vontade está viciada. Doutro modo, a