4 METODOLOGIAS PARA INDEXAÇÃO DE IMAGENS
4.1 Erwin Panofsky e os conceitos de Iconografia e Iconologia
Erwin Panofsky ficou conhecido como um renomado historiador da arte. No entanto, sua forma de encarar as questões relacionadas à análise conceitual de imagens acabou tornando-o uma importante referência, que vem sendo a base de muitos estudos entre os profissionais da informação, já que seu pensamento pôde ser adaptado e aplicado a praticamente qualquer forma de apresentação de imagem, apesar de sua intenção ser a representação conceitual de pinturas e obras de arte em formato visual.
Admitindo que toda forma de arte sempre traz consigo algum sentido oculto, Panofsky (1979) apresenta a imagem artística por meio de seus aspectos temáticos, e formula os conceitos de iconografia e iconologia, onde o primeiro se refere ao estudo do tema ou assunto apresentado, e o segundo aos seus significados intrínsecos. Com base nesses conceitos, Panofsky defende que a análise de uma obra de arte deve ser fundamentada em três níveis, baseados na descrição, na identificação e na compreensão da imagem.
Segundo o autor, a análise temática deve ser iniciada através da descrição visual do objeto artístico. Esta descrição corresponde ao primeiro nível de análise, o qual ele batizou de
pré-iconográfico. Nesse nível, identificamos as formas puras, ou seja, exatamente aquilo que
a imagem mostra. É a partir dessa perspectiva que identificaremos os objetos, as formas, bem como as cores apresentadas. Percebemos que aqui não é exigido pelo autor qualquer conhecimento sobre a obra ou o contexto cultural no qual o observador ou a própria obra está inserido. Dessa forma, em Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, identificaríamos apenas a imagem de uma mulher aparentemente sorrindo, por exemplo.
Já o segundo nível de análise é baseado na identificação dos elementos que compõem as imagens, sendo batizado de iconográfico. Nesse nível, identificamos todo o contexto em
que os objetos apresentados estão inseridos, o que inclui nomes, histórias, locais, e toda forma de identificação possível. Aqui, ao contrário do primeiro nível, se faz necessário um conhecimento prévio daquilo que está sendo observado, e dessa forma o exemplo anterior poderia ser identificado como sendo efetivamente uma representação de Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci.
Por sua vez, o terceiro nível de análise preocupa-se com os significados intrínsecos de uma imagem, o qual Panofsky batizou de iconológico. Este nível vai requerer, acima de qualquer coisa, a capacidade de interpretação do observador, e vai se fundamentar nos dois níveis de análise que o antecede. É neste nível de análise que um observador vai reconhecer o que a imagem lhe transmite, e não apenas mostra.
Através dos três níveis de análise propostos, Panofsky preocupa-se em compreender as formas objetivas e subjetivas que podem ser expressas numa imagem. Seus conceitos de iconografia e iconologia nitidamente representam, respectivamente, tais preocupações. O primeiro está relacionado ao que se vê, enquanto o segundo está relacionado ao que se
percebe.
Para uma melhor visualização e entendimento, optamos por transpor a metodologia de Panofsky numa tabela, onde estão descritos além dos níveis de análise propostos pelo autor, uma breve descrição de cada um deles. A transposição para a tabela é importante pois facilitará uma melhor visualização tanto da metodologia em si, quanto dos resultados obtidos a partir da sua utilização. Segue, então, a metodologia de Panofsky:
Quadro 1 – Proposta de metodologia para indexação de imagens
Pré-iconográfico Iconográfico Iconológico
(Descrição dos elementos mostrados) (Identificação dos elementos mostrados) (Compreensão ou análise conceitual da imagem, considerando os elementos
identificados nos níveis anteriores)
Mesmo sendo uma metodologia relativamente simples, é essencial compreendê-la já que, como dito, foi a base de estudos posteriores sobre as formas de analisar e indexar imagens, dentre os quais analisaremos aqui o de Manini (2002) e o de Rodrigues (2007; 2011). Lancaster (2004), referindo-se a este modelo proposto por Panofsky, cita uma pesquisa realizada por Enser, na qual constatou que uma imagem, ao ser indexada livremente, teria termos inseridos em todos os três níveis de análise. Segundo Lancaster, Enser reuniu um grupo de 18 pessoas de antecedentes variados, e solicitou que os participantes atribuíssem termos às imagens que lhes fossem apresentadas. Lancaster ainda cita um exemplo de como a quantidade de termos atribuídos a uma mesma imagem pode ser absurdo: na pesquisa, uma mesma imagem da torre Eiffel recebeu dos 18 voluntários o total de 101 termos diferentes de indexação.
Para demonstrar a usabilidade da metodologia proposta por Panofsky, optamos por utilizar uma imagem que representasse o mesmo objeto utilizado na pesquisa mencionada por Lancaster, visando obter um contraponto entre os resultados descritos pelo autor numa indexação livre, e a abrangência da metodologia de Panofsky. Dessa forma, apresentamos a seguir uma imagem da Torre Eiffel e, em seguida, os resultados da análise realizada através dos níveis de análise anteriormente citados:
Figura 6 – Torre Eiffel
Vale ressaltar que, para a análise, foram desconsiderados os contextos nos quais a imagem foi encontrada, bem como os textos associados a esta. Dessa forma, a análise foi realizada considerando apenas a imagem, o que ela apresenta e o que ela representa. Aplicando a metodologia proposta por Panofsky, poderíamos descrever a imagem do seguinte modo:
Quadro 2 – Aplicação da metodologia de Panofsky (2004)
Pré-iconográfico Iconográfico Iconológico
Torre; Rio; Torre Eiffel; Rio Sena; Paris; Férias; Romance; Liberdade; Fonte: o autor
É possível deduzir que no nível iconológico um parisiense, que convive com a Torre Eiffel todos os dias, talvez não atribuísse os mesmos termos, já que as ideias transpostas aqui indicam uma distância geográfica do local onde se localiza a torre. A atribuição de termos nesse nível é, como se vê, praticamente infinita, pois vai depender necessariamente do conhecimento empírico daquele que indexa. Essa conclusão nos remete aos resultados da pesquisa de Enser descritas por Panofsky, levando a crer que, caso o número de voluntários fosse maior, o número de termos atribuídos à imagem possivelmente aumentaria.
Percebendo as dimensões alcançadas pela metodologia de Panofsky, podemos analisar as metodologias propostas por Manini (2002) e Rodrigues (2007; 2011), autores nacionais que apresentam propostas de análise imagética, especificamente fotografias, sendo seus estudos recorrentes na literatura científica acerca do tema. A seguir, trabalharemos a proposta de Rodrigues.