4. ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA
4.3 DESCRIÇÃO DO TRATAMENTO DOS DADOS
4.3.7 Escala de modalidade
Palmer (1986, p. 01), em Mood and modality, afirma que
há dois pressupostos básicos neste estudo. O primeiro é que é possível reconhecer uma categoria gramatical, a modalidade, como similar ao aspecto, tempo, número, gênero, etc. O segundo é que essa categoria pode ser identificada, descrita, e comparada em línguas diferentes, e não relacionadas. (...) O latim tem seu sistema de modo: indicativo, subjuntivo e imperativo; o inglês tem seu sistema de verbos modais: Will, can, may, must, etc.
Além disso, conclui que, embora seja fácil definir um sistema gramatical como modal, nele podem ser encontradas, ao lado de áreas nitidamente modais, formas cujo significado é apenas parcialmente modal. Essa área universal nitidamente modal é definida, então, como a possibilidade e a necessidade, valores centrais da lógica modal tradicional. Palmer apresenta, então, a distinção entre a modalidade epistêmica e a modalidade deôntica.
Originado do grego episteme, sentido de conhecimento, o conceito de modalidade epistêmica representa a modalidade mais pura, já que se realiza em um nível eminentemente supra-proposicional e é responsável pela expressão de julgamentos do falante. Esse julgamento pode ser especulativo (o que se especula sobre ele), dedutivo (uma dedução sobre ele), evidência por relato (o que se diz sobre ele) e evidência por aparência (o que ele parece ser).
A modalidade deôntica instaura-se ao nível da proposição, estando relacionada, em um nível mais concreto, a atos de fala em que se procura atuar sobre o interlocutor, através de enunciados diretivos, avaliativos ou volitivos. No seu sentido mais estrito, estaria comprometida muito mais com a possibilidade, a probabilidade, a necessidade da ação, do que com a especulação sobre a verdade do enunciado.
Segundo Givón (1995), a modalidade epistêmica está relacionada ao conhecimento, à crença do falante a respeito das proposições enunciadas, indicando o grau de comprometimento do falante com a verdade da proposição, certeza da realização do fato à suposição de uma ocorrência provável, possível ou mesmo improvável. Por outro lado, a modalidade deôntica se refere às normas de conduta, moral, direitos e deveres. Assim, expressa uma vontade, um desejo, mas para conseguir a satisfação dessa vontade precisa a impor aos outros.
Levando em consideração que a modalidade é fonte primária do tempo verbal futuro, acreditamos que haja uma influência das modalidades epistêmica e deôntica sobre as variantes
em estudo. Câmara Jr. (1956, p. 67) afirma, inclusive, que não considera o futuro como um tempo verbal e sim que ele não passa de um modo, conforme mencionado em 2.2.
A decisão de analisar essa escala de modalidade partiu da necessidade de investigar a influência da modalidade independente da presença de verbo modal, já controlado em outro grupo de fatores, já mencionado.
Tafner (2004) observou a influência da modalidade por meio desta escala, abaixo descrita e exemplificada. Para classificarmos as ocorrências quanto à escala de modalidade, codificamos o dado a partir do contexto, observando qual o tipo de modalidade atuante. Esperamos que esse grupo de fatores nos possibilite verificar qual das variantes é mais atingida pelos tipos de modalidade.
A exemplo de Tafner (2004, p. 127-128) consideramos quatro fatores neste grupo, apresentados e exemplificados abaixo:
a) Extremo epistêmico
Foram consideradas, neste fator, as ocorrências em que não havia outras marcas de modalidade além do tempo linguístico e aquelas em que o falante expressava explicitamente certeza sobre a realização da ação.
Ir no presente + verbo no infinitivo:
77) Todos os donos de estabelecimentos que comercializem produtos farmacêuticos, no centro daquele município, vão participar do rodízio a ser esquematizado amanhã. (A Gazeta, 02 de julho de 1974)
Presente do indicativo:
78) O mesmo futebol grego é a atração do Maracanã no próximo domingo. (A Gazeta, 26 de abril de 1974)
Futuro simples:
79) Mais uma vez, por causa de uma visão míope, ficamos impedidos de usar todos os benefícios que a tecnologia nos proporciona. Essa decisão do TSE me fez lembrar a famigerada Lei Falcão, que determinava que na
propaganda eleitoral os partidos só podiam dizer o número do candidato, sua legenda e um breve currículo. Os cidadãos, no entanto, e com certeza, saberão usar a Rede Mundial de Computadores para uma discussão intensa e produtiva em torno do processo eleitoral. Já os bons candidatos ficarão esperando uma próxima oportunidade de uso criativo dessa ferramenta. Os “fichas-sujas” agradecem essa censura. (A Gazeta, 10 de julho de 2008)
b) Possibilidade epistêmica
Este fator se destina às ocorrências que indicam, sobretudo, ideia de possibilidade de ocorrência do evento.
Ir no presente + verbo no infinitivo:
80) que eu me lembre não... ah aconteceu com meu primo agora ele tá com... ele tá com uma doença... tá internado... aí sarô... parece que ele vai vir pra cá para ser internado de novo (PortVix: Mulher, Ensino fundamental, 07 a 14 anos)
Presente do indicativo:
81) O Projeto de Lei 545/07 pretende implementar as cotas sociais e raciais em instituições públicas federais. Saiba o que pode mudar na UFES e o que pode ser criado no Cefetes. (A Gazeta, 4 de julho de 2008)
Futuro simples:
82) A data entretanto não foi divulgada, mas adianta-se que poderá ser antes do dia 9, próximo, quando Paulinelle estará em Curitiba com a mesma finalidade, segundo informações oficiais. (A Gazeta, 01 de outubro de 1974)
Nesse exemplo, a primeira ocorrência é de possibilidade epistêmica, já que não há certeza sobre a data. O próprio verbo ‘poder’ ajuda a indicar essa ideia de possibilidade. No entanto, o segundo dado - estará - indica extremo epistêmico.
c) Possibilidade deôntica
Este fator inclui os dados que apresentam apenas as noções deônticas de permissão e capacidade.
Ir no presente + verbo no infinitivo:
83) O diretor acrescenta que, se a proposta for sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, pretende recorrer à Justiça. “Se esse projeto for aprovado vamos tentar arguir28 nossa autonomia na Justiça. (A Gazeta, 04 de julho de 2008)
Presente do indicativo:
84) Como o terreno em que está localizado o sítio indígena não pode ser escavado por máquinas, usaremos braços humanos. (A Gazeta, 01 de outubro de 1974)
Futuro simples:
85) Com a inscrição de 17 escolas de primeiro e segundo graus, de Vitória, elevou-se automaticamente para 85 o número de trabalhos participantes da I Feira Municipal de Ciências, uma vez que cada estabelecimento só poderá inscrever cinco trabalhos. (A Gazeta, 01 de outubro de 1974)
d) Extremo deôntico
Recobre os dados em que as noções de obrigação e necessidades sejam mais evidentes.
Ir no presente + verbo no infinitivo:
86) é:: depois eu vou ter que limpar o fogão (PortVix: Mulher, Ensino fundamental, 07 a 14 anos)
Presente do indicativo:
87) Para ser cotista no Cefetes, o candidato precisa ter estudado todo o ensino fundamental em escola pública. No caso da UFES precisa ter estudado todo o ensino fundamental e médio em escola pública. (A Gazeta, 04 de julho de 2008)
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Futuro simples:
88) Os interessados deverão comparecer com meia hora de antecedência, munidos de identidade, cartão de inscrição e caneta esferográfica de tinta AZUL, obrigatoriamente. (A Gazeta, 01 de outubro de 1974)
Nossa hipótese é que haja a influência da modalidade sobre as formas variantes aqui estudadas. No caso das perífrases com ir, postulamos que o fator extremo epistêmico favoreça essa forma, pois parece que ela está se encaminhando para codificar com mais ênfase a função tempo.
Em relação à variação entre o futuro simples e presente do indicativo, acreditamos que o futuro simples seja favorecido também em contextos de extremo epistêmico, por enunciar proposições futuras como verdadeiras e potencializar a atuação da modalização.