PARTE II A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
CAPÍTULO 1 QUE REVOLUÇÃO? ETAPAS DO PREC
1.3.4. Escalada de Outono: des oeillets, c’est fini
O Documento dos Nove, elaborado por um grupo de militares moderados que tinham visto a sua posição central inicial posta progressivamente de lado, desencadeia a crise que termina com a formação de um Governo Provisório sem a liderança de Vasco Gonçalves, com a presença de Pinheiro de Azevedo como primeiro-ministro “moderado”. Perante a falta de entendimento dos Nove com o grupo progressista de Otelo, o avanço do VI Governo Provisório revela-se um avanço das forças civis, porventura desnecessário em equilíbrio tão delicado. Se a linha ortodoxa do PS concorda com um Governo em que as forças comunistas tenham presença reduzida, a ala esquerda do partido e seus apoiantes olham-no como força repressiva do poder popular, um Governo aprovado pelos sociais-democratas e pela reacção encapotada. A demanda pelo investimento estrangeiro e, portanto, a cooperação com as multinacionais entra em choque directo com o caminho desejado, o socialismo. Aquilo que chama a tentativa de estabelecimento de censura na imprensa, com a ocupação das sedes da Rádio Renascença e do República pelas tropas – considerada uma diferente “concepção de liberdade de informação” –, o saneamento e a recolocação interna das Forças Armadas, particularmente das forças mais progressistas ou de base, acompanhados da interrupção da comunicação dos militares com a sociedade, prolonga o desagrado dos socialistas mais à esquerda. A prisão dos responsáveis pelo movimento SUV e a criação de um “duplo” do COPCON confirmam os aspectos repressivos das novas forças governamentais. Afinal este Governo parece querer recuar com todos os avanços económicos feitos
116
C. Repères, nº 25, 01/09/1975, p. 8.
117 Ibidem, 01/09/1975, pp. 41-42. Ver o desenho humorístico feito a propósito da atitude de Mário Soares para com os comunistas. Cf. igualmente Frontière, nº 23, 01/05/1975, p. 31.
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em ’75 e as lutas de desestruturação da hierarquia militar, acabando com o movimento operário.
Parte do MFA, e mesmo alguns membros do Grupo dos Nove que vêem para onde se dirige o fenómeno que desencadearam, servem de contra-corrente, motivando as forças populares e partidárias a agir perante o avanço do que se anuncia como “moderado”. “O povo português perdeu o hábito de curvar a testa e os instrumentos com os quais o regime fascista o constrangia, polícia, Exército, Igreja, deterioraram-se a graus diversos”. O melhor exemplo disso mesmo é a confraternização entre os militares que ocupam estações de rádio e os próprios jornalistas ou a ausência de dispersão por parte dos comandos de Otelo perante o cerco à Assembleia. O perigo, no entanto, mantém-se, perante a hipótese de uma Assembleia Legislativa de direita, um Exército disciplinado, uma economia ainda em transição e com fracos resultados de produção e produtividade, o que poderia enfraquecer o movimento operário. Torna-se, assim, mais urgente uma união de esquerda e a manutenção dos militares progressistas, sem confundir reaccionários e moderados de facto, evitando o extremismo dos pequenos partidos, solução fácil para este plano político delicado. É necessária, enfim, a conquista do poder político pelos trabalhadores e o impedimento absoluto da reconstrução de um aparelho estatal repressivo118.
Os trotskistas, por uma vez, em Setembro de 1975, exigem a união operária, como exemplificam pela construção de barricadas e, depois, elogiam a evolução e cada vez maior força do “anarco-populismo”, face ao fim do período de “conciliação” de classes. A vanguarda revolucionária está, portanto, em formação com a progressiva união das Comissões de Trabalhadores e Moradores com órgãos de base militar como o RALIS119 procederam-se a quatro batalhas intensas, segundo nos diz Gérard Filoche: a da continuação das greves com consequente desenvolvimento dos organismos populares; as manobras feitas nos órgãos de comunicação; o profundo movimento dos soldados e desordem para os oficiais; a luta contra o redesenvolvimento dos grupos fascistas – é a altura mais radical do movimento de massas. Os trabalhadores estavam prontos, mas não houve um partido que os guiasse. Os dois partidos operários, ao quererem centralizar o poder, dividiram-no – são PS e PCP os principais responsáveis do falhanço da Revolução. As comissões não
118 C. Repères, nº 26, 01/10/1975, pp. 42-45; nº 27, 01/11/1975, pp. 64-66; nº 28, 01/12/1975, p. 30. 119 V. Portugal: La Révolution en Marche…, pp. 229-273.
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chegaram a ser sovietes. Por sua vez, as vagas de insubordinação dos soldados, bastante louváveis, chegaram já só no Outono, não permitindo a reviravolta para o comando do movimento operário, desta vez armado120.
O realce dos comunistas franceses é dado à governação e a alguns movimentos populares que ainda podem contrariar o avanço dos não-revolucionários. Pinheiro de Azevedo como novo primeiro-ministro significa o retorno à ordem. Estará ele do lado do PS? E do Grupo dos Nove? Sobre esse mesmo novo poder governamental diz-se: “Mas convém rendermo-nos à evidência. E a evidência diz que o sexto governo tem ossatura socialista e do PPD, longe de resolver os conflitos.”121
. Considerando haver uma perseguição aos partidários da esquerda, o jornal comunista toma como insustentável o discurso de Sá Carneiro, “reacção de cara descoberta”, a que se opõem os activos trabalhadores no Alentejo. Assim se organiza uma manifestação do PCP e da Intersindical com os SUV, pela defesa da Revolução, dita anti-democrática pelo PPD e contra-revolucionária pelo PS. Perante a explosão a mando do Conselho de Revolução da sede da Rádio Renascença, sede que era agora do povo, os PC’s português e francês discordam122
.
Após o cerco à Assembleia, começa a crescer o ambiente de tensão. A base de Tancos fica a cargo dos seus, sem autoridade do COPCON, não podendo acudir em S. Bento. PS e PPD principiam por apelar à mobilização pela democracia, na qual participam também CDS e maoistas, respondida numa contra-manifestação provocada pelas Comissões de Moradores e Trabalhadores. Os partidos do Centro partem para o Norte para escapar ao que chamam a “Comuna de Lisboa”123
. A instabilidade agrava-se, pronunciando um futuro incerto. Teme-se um golpe eminente da direita. Numa manifestação contra ela, a esquerda comunista alerta para a necessidade de um VII Governo Provisório, um no qual esteja excluído o PPD, nova cara da reacção de sempre, com que concorda a esquerda comunista francesa.
Com a chegada de Setembro, os esquerdistas anunciam o fim dos cravos, o término do processo revolucionário e da expectativa da chegada do socialismo, particularmente na Europa Ocidental. A Assembleia do MFA reúne, predominando já claramente a tendência do grupo dos Nove; é o retorno à ordem. Esta ordem e estabilidade significa cumprir as legislativas de 1976, respeitar a representatividade
120 Cf. FILOCHE, Gérard, Printemps Portugais, op. cit., pp. 361-373. 121
L’Humanité, 27/09 e 11/10/1975. 122 Ibidem, 22/10 a 12/11/1975. 123 Ibidem, 14 a 17/11/1975.
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eleitoral e privilegiar os laços económicos com a CEE. Os focos de poder popular vão ser, então, o contra-poder e oposição real do novo Governo, condenados a entrar em conflito124. “O tempo dos cravos terminou. E com ele, esse género de unanimidade confusa em volta do MFA apartidário. O MFA, organização política de vanguarda no Exército, não existe mais. Mesmo se, para fachada, os Nove continuem a utilizar a sigla. (...) É um pouco como se muitos portugueses, depois de terem sonhado durante mais de um ano com um socialismo libertário, regressassem à terra.”125
.
A nova maioria governamental é um passo atrás na Revolução que, a haver descuido, se tornará permanente, acusa o Libération; aliás, como se vê, na primeira lei de silêncio do MFA para com o seu povo, por parte do novo Governo. Inclusive, dizem, vai fazer o PCP recuperar apoiantes com a nova situação126. O poder que o povo ganhou para si no tempo de desconstrução do Estado na queda do fascismo, o Governo dificilmente o recuperará: o que não significa que Portugal não esteja a fazer o mesmo caminho que as outras revoluções: “A Revolução portuguesa encontra-se geograficamente e historicamente nas confluências de todas as experiências revolucionárias (...) Cinquenta anos de fascismo interrompido criaram uma tal falta de pensamento, conduziram a uma tal asfixia cultural e política, que o 25 de Abril de ’74 encontrou as forças populares e revolucionárias ignorantes da história crítica das revoluções, como da sua própria História. O povo português é um povo que não conhece a sua História.”127
.
Na composição governamental, os socialistas conseguem impor-se, pela representatividade eleitoral que ainda reclamam, conseguindo virar o país à direita, pela ajuda que proporcionam à reacção, reclamam as esquerdas francesas. Além da vitória do PS na composição do poder executivo, há também a vitória do poder partidário dentro do vértice Partidos-MFA-Povo. Rompeu-se o equilíbrio, perante o avanço dos Nove, com a ajuda de Costa Gomes. Se o Documento daqueles pretendia um MFA independente dos partidos, Melo Antunes não conseguirá recuperar o domínio da situação. A ausência de aparelho de Estado proporcionou o
124 Libération, 08 a 10/09/1975. 125 Ibidem, 10/09/1975. 126 Ibidem, 11/09/1975. 127 Ibidem, 13/09/1975.
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desenvolvimento do poder popular que colmatava as deficiências do sistema128; é, portanto, chegada a hora da repressão, por parte do Governo, que quererá construir o aparelho de Estado em falta, para que o capitalismo possa avançar em Portugal. Foi a substituição da hegemonia do PC, pela hegemonia do PS, critica a esquerda radical francesa.
Se o poder popular está a iniciar o processo de tolhimento em resposta à nova autoridade governamental, a única outra força capaz de recuperar a relação de equilíbrio ou mesmo o caminho revolucionário, são as forças militares progressistas. Não contando com as forças reaccionárias, nem tão pouco com as moderadas, os esquerdistas viram-se para o COPCON e seu líder heróico, Otelo129. Quando os comandos de Otelo são substituídos a nível administrativo – dado que a nível prático, o COPCON ainda dialoga com os trabalhadores perante a ocupação das FA das rádios e televisões130 – pelo Agrupamento Militar de Intervenção, a confiança nesta nova instituição é nula: o AMI depara-se com a oposição e vigilância agressiva do seu predecessor (COPCON), enquanto esse último teme a repressão do seu sucessor131.
Em Outubro, as FA continuam a não conseguir unificar-se. O golpe de Estado está eminente, particularmente rodeado de um clima de pré-Guerra Civil. Sobra a questão: de que tipo ideológico?
Perante o retorno da autoridade, há uma mobilização do poder popular e dos SUV. O Exército está, portanto, dividido em dois: face aos grandes defensores da ordem, cria-se um forte movimento anti-hierárquico em resposta. A população apoia os SUV, enquanto PS e PPD procuram dividir o movimento civil em dois. O Parlamento trata então de ser o elemento burguês que impede a Revolução para os esquerdistas; é a catástrofe da exclusividade do poder partidário no plano político. O PC, embora muito criticável, e a extrema-esquerda são essenciais à salvação da Revolução, ajudando os militares progressistas – é o que nos chega dos esquerdistas, a partir da entrevista a Otelo132. O CICAP e o RASP, unidades progressistas, são parte das esperanças dos esquerdistas franceses, perante o avanço repressivo do AMI. Há ainda a esperança de que os SUV venham a ser uma espécie de partido, visto que
128 CEREZALES, Diego Palacios, O Poder Caiu na Rua – Crise de Estado e Acções Colectivas na Revolução Portuguesa 1974-1975, Lisboa, ICS, 2003, pp. 25-79.
129 Libération, 24/09/1975. 130
Ibidem, 30/09/1975. 131 Ibidem, 29/09/1975. 132 Ibidem, 06 a 12/10/1975.
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é no plano partidário que se detém agora a hegemonia do poder. Simultaneamente, as Brigadas Revolucionárias são obrigadas a passar à clandestinidade, mais uma baixa para a luta de forças, a não ser que essa clandestinidade se traduza em assalto ao poder reaccionário.
Os esquerdistas franceses afirmam ser o alarmismo económico o principal argumento da direita, na tentativa de tentar reduzir a luta popular.
Otelo é destituído do comando da região de Lisboa, substituído por Vasco Lourenço, em troca da dissolução do AMI. Há uma reestruturação global do Governo. O poder governamental entra em greve, tudo está em suspenso para os esquerdistas133.
1.3.5. 25 de Novembro
É decretado o estado de emergência para Lisboa, perante a rebelião dos pára- quedistas, que ocupam as suas bases aéreas após saberem da suposta nomeação de Vasco Lourenço, contrapostos pelo cerco a Lisboa das tropas do Norte, apoiada pelo PS: é o 25 de Novembro. Os comunistas consideram que os pára-quedistas agiram autonomamente, manipulados pelos contra-revolucionários. A direita terá inventado o suposto golpe de esquerda, de resto tão mal preparado que não poderia ser uma verdadeira insurreição planeada134. A partir de 29 de Novembro, altura em que se anunciam a rendição dos últimos pára-quedistas, não há mais notícias relevantes em relação a Portugal. Os comunistas ortodoxos franceses compreendem que a Revolução chegou ao fim.
A esquerda radical fala de “prelúdio de uma Guerra Civil” na capa do jornal. É o 25 de Novembro, descrito em pormenor dias mais tarde135. Refaz-se a cronologia dos acontecimentos, com o Estado de sítio em Lisboa e as barricadas que se seguiram. Foi a ausência de capacidade de impor o poder que se tornou num “equilíbrio catastrófico”; há, agora, um “vazio político”, sempre povoado de “mini-revoluções” ou “mini-golpes de Estado”. Uma Guerra Civil só pode beneficiar a direita; a diferença em relação ao Chile é apenas – mas pode ser o suficiente – um Exército excessivamente politizado136. Privados da ajuda militar, as organizações civis desistiram de resistir, enquanto o PCP pedia calma; a população parece agora 133 Ibidem, 21 e 22/11/1975. 134 L’Humanité, 27/11/1975. 135 Libération, 02 e 03/12/1975. 136 Ibidem, 26/11/1975.
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paralisada. A porta está aberta para a direita militar: será “um Chile docemente”. Haverá depuração militar para com as forças de esquerda, depois de esta ter perdido lugares essenciais no aparelho de Estado, possuindo o Estado, perante o vazio dos órgãos de comunicação, os meios repressivos para com o poder popular.137
Enquanto PC e Libération concordam no temor pelo regresso ao fascismo, Soares afirma que Cunhal tentou um “golpe de Praga”; por sua vez, a extrema- esquerda acusa o PCP de passividade. Tudo dependerá, diz-nos o jornal esquerdista, da relação de forças entre esquerda e direita dentro do Grupo dos Nove. A direita irá bloquear uma solução ao centro. Já começou a limpeza nos grupos militares e a repressão das forças civis, através da proclamação do estado de excepção138.
Chegou o tempo da ordem: sem jornais, através de demissão das administrações da imprensa quotidiana, de nacionalização das rádios, por algumas substituições nas Forças Armadas, pára-quedistas desmobilizados e desarmados; estes dizem-se traídos pelo RALIS, mas dispostos a continuar a lutar. Melo Antunes, só com a ajuda do PC, poderia equilibrar a situação e garantir o apoio dos trabalhadores, reflectem os esquerdistas franceses139.
Dezembro é o tempo da esperança do ressuscitar da Revolução para a esquerda radical: fala-se na resistência que ainda existe nas Forças Armadas, apesar dos gonçalvistas depurados; é tempo de tentar concretizar uma aliança entre gonçalvistas e militares do COPCON. O PS, por sua vez, tem Melo Antunes como o seu novo inimigo, acompanhado de um CDS que o considera um perigo; o PCP tornou-se o seu único e principal aliado; o PPD quer a substituição de Costa Gomes. A esquerda revolucionária está paralisada, com MES e PRP a serem intimidados pela GNR. Há a corrente gonçalvista, a corrente revolucionária e a corrente dos Nove – oficiais progressistas, direita unitária e esquerda anti-comunista140.
O PC não está tão mal colocado como parece e o PS está menos vitorioso do que se mostra, enquanto a extrema-esquerda foi surpreendida pelo golpe, dizem agora os esquerdistas; o movimento social ficou voluntariamente fora do caos. É um contínuo incitamento ao prosseguir da luta que querem ver continuada. O avanço da direita foi, por ora, travado. Chega-se a uma nova etapa em que sondagens dão maioria absoluta à direita, enquanto ainda existem duas mobilizações operárias em 137 Ibidem, 27/11/1975. 138 Ibidem, 28/11/1975. 139 Ibidem, 29 e 30/11/1975. 140 Ibidem, 01/12/1975.
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Lisboa. Há alguma depuração da direita nas Forças Armadas. A direcção política da tentativa de golpe de 25 de Novembro foi principalmente gonçalvista, dizem, embora o COPCON também esteja associado. O verdadeiro golpe do COPCON não era para ser nesse dia tinha o seu próprio; a divisão na reacção dos gonçalvistas foi fatal. Perante a delação de um membro de posição não confirmada a Eanes, tudo estava condenado. Os Gonçalvistas receberam falsas informações, o COPCON paralisou com Otelo a opor-se a uma acção improvisada; os civis que tinham comparecido foram abandonados pelos militares. O PC deixou tudo isto acontecer, enquanto Cunhal negoceia141. Enquanto a normalização toma conta das FA, com a substituição quase inteira “anti-democrática” dos militares da região de Lisboa, segue-se a normalização na vida civil, ou seja, rádio e televisão com suspensões e as cooperativas agrícolas a tentar sobreviver142. Assim vêem os esquerdistas os actores do 25 de Novembro.
Os SUV afirmam ter concordado com o golpe, mas não terem tido efectivos disponíveis para auxiliar; foram agora todos desmobilizados para outros sítios, ficam sem contactos uns com os outros – queimaram-nos por segurança. É, portanto, o fim da esperança nos SUV; sobra, somente, as restantes forças progressistas militares e a força civil popular que possa reagir aos acontecimentos. Quer-se agora a despolitização do Exército143.
Neste cenário, há uma entrevista a um capitão português na clandestinidade, o qual está claramente contra o 25 de Novembro, descrevendo minuciosamente o que falhou144.
Dia 15 de Dezembro anuncia-se a morte oficial do MFA, esse MFA do apartidarismo e do anti-militarismo em detrimento da unidade a favor do povo, com o documento a anunciar uma nova trilogia: Constituição, disciplina, hierarquia. A direita só tem, portanto, de se aproveitar dos erros da esquerda, visto ter sido o Documento dos Nove um cavalo de Tróia involuntário. Diz o Libération que não se conforma com o 25 de Novembro, como nunca se conformou com o fim do Maio de ’68. No dia seguinte, começam a ser restituídas as terras ocupadas, a Reforma Agrária obviamente em perigo, com Melo Antunes a tentar contrariar o movimento 141 Ibidem, 03/12/1975. 142 Ibidem, 04/12/1975. 143 Ibidem, 06 e 07/12/1975. 144 Ibidem, 11/12/1975.
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que acabou por começar. A esquerda escusa-se a um confronto para evitar um massacre145.
Por fim, as duas últimas peças do ano sobre Portugal pela mão da esquerda radical são de particular relevância para compreender o espírito com que o jornal encara a Revolução portuguesa: a primeira uma crónica com um resumo cómico da Revolução, da qual se destaca a expressão “Revolução doce”; a segunda a esperança numa recuperação da Revolução “ainda possível”: o poder revolucionário pode-se exercer paralelamente ao do aparelho de Estado (exemplo da Rússia e de Espanha) ou em nichos libertos (exemplos da China, Cuba ou Vietname), sabendo que um regime de frente popular (Chile) não leva à vitória de uma revolução socialista146.
O 25 de Novembro é vivido com relativa tristeza por parte dos socialistas não sociais-democratas franceses. A derrota dos progressistas do MFA, do PCP e da extrema-esquerda garante o regular funcionamento de uma democracia parlamentar burguesa, preparada para integrar a CEE, igual a todas as democracias europeias, com socialistas que protelam a via socialista147.
Os pára-quedistas anteciparam um possível golpe da esquerda militar, terminando com as hipóteses de contrariar, pelo menos ao nível militar, o retorno à ordem que acusava o novo Governo. O saneamento prontamente feito dos militares progressistas (COPCON e RALIS incluídos), substituídos por “moderados” e a dispersão pela relocalização dos SUV confirma essa derrota. Os ditos moderados – Melo Antunes, Vítor Alves, Vasco Lourenço, por exemplo – que agora se posicionam confortavelmente nos seus novos postos, serão certamente saneados para serem substituídos por reaccionários. Ao contrário do que aponta a direita, do que acusa o próprio Soares inclusive – é mencionada uma certa obsessão comunista –, a ala esquerda do PS francês considera que o golpe nada teve a ver com o PCP ou com a extrema-esquerda, foi somente uma desobediência de certos membros da Força Aérea. Agora chegou o tempo da Contra-Revolução, profetizam.
145
Ibidem, 17/12/1975.
146 Ibidem, 18, 27 e 28/12/1975.
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