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2. PLATAFORMA TEÓRICA

2.3. Decisões e personalidade

2.3.2. Escalas de personalidade

Segundo Pasquali (2007, p.105), teste psicológico é “um conjunto constituído de comportamentos que o sujeito deve exibir”. Um dos critérios que define sua consistência é a

questão da unidimensionalidade, que significa que todos os comportamentos envolvidos no conjunto se referem “à mesma coisa”, valendo-se do uso de escalas numéricas ou categorias fixas (Pasquali, 2007). O desenvolvimento desse tipo de teste remete ao final do século XIX e início do século XX.

Os estudos de Francis Galton sobre personalidade no século XIX são considerados seminais. Galton considerava que as características e diferenças entre personalidades dos indivíduos eram relativamente estáveis e biologicamente definidas, por isso denominados traços (Marselle, 2014). A questão central dos estudos de Galton era buscar uma taxonomia abrangente que pudesse abarcar os traços de personalidade. Suas contribuições na linha psicométrica, renderam o desenvolvimento da técnica estatística hoje conhecida como análise fatorial, que também foi utilizada nas pesquisas de Hans Eysenck sobre as dimensões de personalidade (Butler-Bowdon, 2010).

Posterior aos estudos de Galton, no contexto das primeiras contribuições psicométricas, cabem destaque as pesquisas de Karl Pearson, Charles Spearman e Louis Thurstone (Pasquali, 2010). Os instrumentos psicológicos ou testes, como são mais conhecidos, representam a expressão cientificamente sofisticada de um procedimento sistemático e, na linha psicológica, apresentam duas tendências: uma que se vale da avaliação de processos mentais e outra empirista, que se vale dos estudos sensoriais ou comportamentais (Pasquali, 2010).

A psicologia experimental se desenvolveu com base nessas duas linhas, valendo-se de instrumentos e técnicas que visavam medir a inteligência das pessoas, a partir da resposta a estímulos apresentados, como nos estudos de Galton, muitas vezes envolvendo testes com crianças, como o fez Alfred Binet. Uma síntese da evolução dos testes psicométricos é apresentada por Pasquali (2010), demonstrando que os primeiros testes eram sensoriais, baseados em tato e audição, seguidos de testes mentais, os famosos testes de quociente intelectual (QI), até a chamada era da psicometria moderna, baseada na Teoria da Resposta ao Item (TRI), cuja síntese pode ser vista na obra de Lord (1980)14.

Boa parte dos testes psicológicos atuais se vale da TRI para fundamentar sua estrutura e operacionalização, apesar de a mesma não vir com o intuito de substituir os testes clássicos,

14 Para saber mais detalhes sobre a Teoria da Resposta ao Item e os motivos que geraram seu desenvolvimento

dentro da evolução histórica da psicometria, ver a obra Lord, F. M. (1980). Applications of item response theory to practical testing problems. Mahwah, NJ: Routledge.

como destacam Pasquali (2010) e Couto e Primi (2011). No contexto dos testes de habilidades e psicológicos, Couto e Primi (2011) destacam que a aplicação da TRI se vale de funções matemáticas que dependem dos itens que estão sob investigação, sendo mais comuns na literatura os modelos probabilísticos, como a regressão logística.

Os itens sob investigação estão subordinados aos tipos de teste que se deseja realizar, ou seja, do objetivo do teste, que definirá o seu construto. Pasquali (2010) apresenta uma taxonomia dos instrumentos psicológicos, destacando que existe divergência na literatura quanto à classificação dos diversos testes disponíveis. Pasquali (2010), ao citar Kline (1993), mostra que esse pesquisador divide os testes em: de inteligência, de habilidades e desempenhos, questionários de personalidade, testes objetivos e projetivos de personalidade, testes de interesse e motivação. Citando Anastasi (1988), destaca os testes de inteligência geral, os de aptidões específicas e os testes de personalidade, com suas subdivisões.

O próprio Pasquali (2010), por sua vez, apresenta uma taxonomia baseada em aferição de parâmetros de validade e fidedignidade, que permitem a classificação dos testes nas seguintes classes: testes referentes a critérios; referentes a construto; referentes a conteúdo; testes comportamentais: observação do comportamento; levantamentos: survey; novas tecnologias. Não está no escopo do presente estudo, discorrer de maneira acurada sobre as diferenças e peculiaridades de cada uma dessas classes. Cabe destacar que a escala que está na pauta desta pesquisa, enquadra-se na linha comportamental, segundo a classificação de Pasquali (2010). Nesta categoria, pode-se perceber a existência de diversos testes, dos quais os mais referenciados na literatura internacional, segundo levantamento feito por Diekmann e König (2013) são o 16 Personality Factor Questionnaire (16 PF), o Myers-Briggs Type Indicator (MBTI), o Occupational Personality Questionnaire (OPQ), o Minnesota Multiphasic Personality Inventory (MMPI), o Big Five Personality Inventory (NEO), o California Psychological Inventory (CPI) e o Thomas Assessment/ Personal Profile Analysis (PPA). Marselle (2014) destaca ainda o Murphy-Meisgeier Type Indicator For Children (MMTIC) e o Implicit Association Test (IAT). Casado (1998) apresenta um levantamento de instrumentos para identificação de personalidade baseado nos estudos de Jung e apresenta sete escalas, dentre elas o MBTI.

O uso de testes de personalidade se dá muito mais intensamente em ambiente industrial e organizacional. Sua utilização em processos de seleção de pessoal e avaliação de perfil de funcionários causa muita discussão e polêmica (Diekmann & König, 2013). Um dos pontos críticos é a questão do self-report que pode levar os sujeitos a falsear nas respostas (Morgeson, Campion, Dipboye, Hollenbeck, Murphy & Schmitt, 2007). Isso tudo faz com que tais testes sejam vistos com restrições por parte da academia, que lança dúvidas sobre os seus resultados.

Um dos pontos de dúvidas e preocupações e que geram fervorosas discussões quando se trata das escalas de personalidade, é a questão da validade. O entendimento mais comum de validade diz respeito a um dado instrumento medir aquilo que se propõe medir. Por sua vez, Pasquali (2007, p.99), citando Messick (1989), traz o conceito de validade com sendo “um julgamento avaliativo integrado do grau em que a evidência empírica e racionalizações teóricas apoiam a adequação e propriedade de inferências e ações baseadas em escores de testes e outros modos de avaliação”. De todo modo, esse não é um conceito definitivo e a literatura é vasta em definições e discussões sobre validade.

Pasquali (2007) apresenta mais de trinta tipos de expressões ou tipos de validade identificados na literatura, desde as mais conhecidas, como a validade aparente, de conteúdo, de critério, interna e externa, até a validade múltipla, ecológica, sintética, condicional e incondicional. Para o pesquisador, tomar o conceito de validade para tudo que diz respeito aos testes psicológicos, torna esse conceito confuso. Talvez por conta disso, resida sobre os testes tanta polêmica sobre a validade de seus resultados.