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Capítulo 4 Variabilidade Intra-sítio e Inter-sítios em um Sistema de Assentamento

4.2. Escavando Abrigos sob Rocha: Problemas Geoarqueológicos e Propostas

Abrigos sob rocha e cavernas podem ocorrer em uma variedade de litologias, desenvolvendo-se geralmente em formações calcárias e arenitícas, podendo também se formar através de fraturas ou tubos em leitos rochosos de lava basáltica. A gênese de um abrigo arenítico, em geral, resulta da infiltração e escoamento de águas superficiais nas proximidades das escarpas, ao longo dos planos de diaclasiamento, com conseqüente remoção e dissolução do material arenoso. Obtido um alargamento inicial, segue-se uma evolução por abatimento, sendo o escoamento das águas de infiltração controlado por níveis menos permeáveis no arenito, marcados por horizontes mais argilosos, silicificados ou ferruginosos, pela ocorrência de corpos magmáticos, por variações internas de granulometria do leito rochoso ou ainda por intersecções da topografia e do nível freático (Wernick et al, 1973: 63-65).

Os estudos da dinâmica de formação e degradação dos abrigos correspondem a fatores importantes na interpretação da formação do registro arqueológico. Deve-se considerar que os abrigos, como parte da paisagem, evoluem através do tempo, podendo erodir ou entrar em colapso em função dos processos naturais que afetam o leito rochoso (Collins, 1991; Rapp & Hill, 1998: 66-71; Schiffer, [1987]1996: 102; Strauss, 1990:258-259; Waters, 1992: 241-246).

Dependendo da morfologia da boca do abrigo, da topografia do local onde se situa e do conjunto de detritos que se acumulam em sua entrada, a água da linha de goteira pode escorrer para seu interior ou descer pela encosta. O principal processo responsável pelo pacote sedimentar que se forma em seu interior se dá em função das alterações físicas e químicas que agem sobre seu teto e paredes. Os abrigos areníticos são dominados por uma sedimentação clástica endógena, podendo os sedimentos de fora do abrigo (exógenos) encontrar uma via de acesso, seja pela abertura principal, seja pelas fissuras das paredes e do teto.

Em geral, os sedimentos exógenos derivam de processos fluviais, eólicos, coluviais, lacustres, glaciais e marinhos, dependendo sua acumulação de três fatores principais: 1) da forma, tamanho e orientação da entrada do abrigo ou de outras aberturas; 2) das características do ambiente deposicional dominante na área externa do abrigo; e 3) da posição e altura da entrada do abrigo com relação aos agentes deposicionais ativos na sua parte externa. Outros tipos de sedimentos presentes em abrigos sob rocha e cavernas incluem materiais de origem humana (vestígios arqueológicos) e de origem animal (restos ósseos, guano, coprólitos, entre outros).

Desta forma, a seqüência estratigráfica de qualquer abrigo sob rocha ou caverna é única em função das diferenças em sua litologia, dinâmica de formação e ambiente deposicional no qual se insere. Em geral corresponde a combinação variada de sedimentos endógenos e exógenos que se depositam de forma continua ou descontínua na superfície do solo, com ritmos distintos através do tempo. A história da decomposição, erosão e estabilidade de um abrigo influenciam a integridade e a separação vertical e horizontal do registro arqueológico. Quanto maior a taxa de acumulação sedimentar, maior a separação entre as distintas ocupações. Porém, durante períodos de estabilidade, ocupações temporalmente distintas podem se sobrepor, formando palimpsestos. Por outro lado, aparentes hiatos entre ocupações contemporâneas podem ser criados durante episódios de erosão. Igualmente, distúrbios pós-deposicionais na composição dos pacotes sedimentares podem ser gerados por

distintos processos alheios à dinâmica sedimentar do abrigo, como por exemplo bioturbações geradas por galerias de animais cavadores (como tatus, minhocas, cupins, formigas, entre outros agentes) ou pela presença de raízes (Rapp & Hill, 1998: 82-85; Schiffer, [1987]1996: 199-234; Waters, 1992: 293-316).

Os abrigos sob rocha não são estruturas estáticas, pois, por um lado, sofrem processos de degradação acelerados pela presença humana e, por outro, suas características estruturais também afetam a escala, a distribuição, a organização e a natureza das atividades que neles ocorrem. Escavar um abrigo sob rocha, portanto, pressupõe a utilização de metodologias que combinem técnicas de controle horizontal e vertical que permitam registrar os processos naturais que agiram para criação do pacote sedimentar, bem como compreender como a dinâmica de formação do contexto deposicional e pós-deposicional afetou a integridade dos conjuntos artefatuais identificados. A interpretação da variabilidade intra-sítio observada ao longo das escavações, por sua vez, demanda perceber os abrigos estudados em seu contexto regional, resgatando suas “histórias de formação” específicas e como estas se relacionam com o sistema de assentamento do qual fazem parte (Galanidou, 2000: 272- 273; Strauss, 1990: 268-278).

Tendo em vista as questões acima apontadas optou-se por realizar escavações amplas em 3 sítios em abrigo sob rocha, dos quais dois já haviam sido escavados durante o PRONAPA. Três etapas de escavações ocorreram entre 3 e 31 de janeiro de 2001, 1 e 31 de julho de 2001 e 3 e 31 de janeiro de 2002, totalizando 88 dias de atividades. Os métodos de escavação empregados orientam-se para o entendimento da organização do uso do espaço intra-sítio, proporcionando amostragens que permitissem comparações inter-sítios associadas ao sistema de assentamento de caçadores coletores identificados no Alto Vale do Rio dos Sinos.

Como os abrigos sob rocha correspondem a sítios com limites naturais fixos, o sistema de quadriculamento empregado obedeceu à orientação geográfica de suas aberturas, sendo estabelecido por metro quadrado. As malhas de quadriculamento foram orientadas para o interior dos abrigos a partir de uma linha mestra estabelecida junto à linha de goteira, também utilizada para realização de croqui e orientação dos sistemas de sondagens. Na nominação das quadrículas considerou-se a linha mestra como representado a linha “A”, recebendo as linhas verticais numeração correspondente a sua divisão por metros. A designação das quadrículas se deu pela intersecção das linhas horizontais e verticais em seu canto esquerdo inferior. O ponto zero das escavações foi

estabelecido dentro da área dos abrigos, tendo em vista a possibilidade de visualização total de possíveis locais a serem escavadas, sendo todas as medidas de altura tomadas ao longo das escavações correlacionadas a este. Este foi marcado na parede dos abrigos, à direita da sua entrada, com tinta acrílica vermelha, tendo sido registrado em croqui, quanto a sua posição e altura.

Na medida em que as sondagens dos sítios em abrigo sob rocha evidenciaram pacotes estratigráficos homogêneos e profundos, porém com baixa densidade de materiais, para o controle estratigráfico vertical optou-se por escava-los através de níveis arbitrário de 5 cm que obedecessem à declividade natural do terreno. Antes do início da escavação de uma quadricula foram tomadas às medidas das alturas, a partir do ponto zero, do seu centro e quatro cantos, sendo utilizado este controle de profundidade ao longo da escavação de todos os níveis. Também foram realizados croquis dos perfis remanescentes das áreas escavadas para auxiliar na interpretação dos mapas planimétricos e das características sedimentares registradas por nível artificiais (Anexo 5). Este procedimento agilizou o ritmo das escavações e facilitou a interpretação de concentração de materiais, em função da topografia dos sítios, permitindo correlacionar, com o auxílio das datações obtidas e análise dos perfis estratigráficos, os níveis artificiais entre as diferentes áreas escavadas.

Para o controle horizontal, as evidências arqueológicas (artefatos, ecofatos e estruturas), bem como alterações na composição dos sedimentos observadas ao longo das escavações, foram plotadas e registradas em fichas individualizadas por quadrícula e nível estratigráfico. Nesta ficha consta uma planilha, em escala padrão, na qual as evidências arqueológicas foram plotadas e registradas, com numeração individual, quanto ao tipo de material, altura da peça em relação ao ponto zero e distâncias das paredes norte e leste da quadrícula. Estas informações também foram registradas em uma etiqueta que acompanhou as peças em embalagens individuais. A presença de estruturas ou de alterações na composição dos sedimentos também foi registrada nestas fichas. Este procedimento permitiu a elaboração, em laboratório, de mapas planimétricos de distribuição de materiais e estruturas, por níveis artificiais, revelados ao longo das escavações, servindo como referência para as análises de variabilidade intra-sítio e para as comparações inter-sítios (Anexo 6).

Todos os sedimentos foram peneirados em malha de 2 mm e para dois dos sítios escavados amostras de solo remanescentes nas peneiras foram selecionadas para lavagem em laboratório, a fim de resgatar micro vestígios líticos e arqueofaunísticos. O

material arqueológico resgatado nas escavações encontra-se atualmente sob guarda do Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul (MARSUL), recebendo a numeração de catálogo correspondente aos sítios arqueológicos do vale do rio dos Sinos, associada à numeração individual das peças registradas nas fichas de escavação.

Ao término das atividades, todas as áreas escavadas, incluindo os perfis preservados, foram revestidas com lonas plásticas e posteriormente cobertas com os sedimentos restantes das peneiras. Este procedimento foi realizado com o objetivo de preservar da erosão as áreas não escavadas e facilitar sua localização em caso de novas intervenções.

4.3. Três Versões sobre o Mesmo Tema: Aspectos da Variabilidade Intra-

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