Capitulo II – Problemática
5. Autonomia de escola
5.2. A Escola como comunidade Educativa
A Escola não deverá ser um serviço local do Estado, nem tão pouco uma unidade estatal periférica. A Direção da Escola deve encontrar-se na comunidade educativa, tendo em conta o modelo descentralizado de administração pública, cuja “autonomia é uma componente da administração descentralizada”, como referido por Sarmento (1992:9), previsto na Constituição da República Portuguesa23, que refere que os serviços à comunidade se devem aproximar da população, e serem desburocratizados, situação também prevista na Lei de Bases do Sistema Educativo24.
“A descentralização pode contribuir para níveis elevados de eficácia na gestão dos sistemas educativos. Este argumento implica duas expectativas: uma maior descentralização mobilizaria e geraria recursos que não estão disponíveis em condições mais centralizadas; os sistemas descentralizados podem utilizar, de forma mais eficaz, os recursos disponíveis” (Sarmento, 2000:103).
“Esta conceção de Escola pressupõe ainda que a mesma deverá possuir autonomia científica, pedagógica, curricular, organizativa, financeira e administrativa, ainda que essa autonomia possa ser sempre relativa e “neste sentido, importa reforçar o papel regulador do Estado, orientado para o acompanhamento, apoio, assessoria e avaliação externa do sistema (CNE, 2002:153).
A instituição da autonomia, que se distingue da descentralização na medida em que envolve não apenas uma distribuição de atribuições e competências dentro de um sistema político ou administrativo, mas mais diretamente a capacidade de ação por parte dos titulares dessa distribuição (Barroso, 2006:23), terá como contrapartida o aumento da participação de toda a comunidade educativa e a mudança do tipo de responsabilização, da prestação de contas (em que justificará os meios usados em função dos resultados, evitando a mera verificação), também referido por Canário (1992:57-86).
23 Artigo 74ª, alínea f), Artigo 77º, nºs 1 e 2 e Artigo 267º, nºs 1, 2 e 3 24
O conceito de autonomia de escola , que tem sido procurado e experimentado no contexto mais lato da sociedade ocidental, tem procurado também as soluções mais eficazes para a gestão dos respetivos sistemas educativos, podendo observar-se alguns pontos comuns a todos os países da OCDE, embora com as particularidades e com conceitos de autonomia resultantes da experiência25, da história e da cultura de cada uma das sociedades. De igual modo são diferentes as interpretações do conceito de autonomia, ou de diferentes níveis e zonas de autonomia.
“A autonomia está no coração do novo paradigma de escola, dado que ela é dirigida pelos seus membros e pela comunidade em que se insere – e, por isso, a autonomia é expressiva, constitui um valor em si mesma – mas também porque a autonomia é instrumental para a adaptação estrutural e tecnológica da escola aos seus alunos, aos seus contextos e às suas contingências” (Sarmento, 1992:39). Sob uma mesma designação (autonomia de escola), “escondem-se diferentes realidades com significados, objetivos, modalidades de operacionalização e resultados diferentes” (Barroso, 2006:25).
O princípio de que o poder central não consegue responder de modo adequado e desejado aos desafios da sociedade moderna, à rapidez das alterações da mesma, com a eficácia e qualidade exigíveis num mundo cada vez mais competitivo que, baseia o seu desenvolvimento no conhecimento e na maior produtividade dos seus cidadãos, deverá implicar da parte das comunidades educativas, um maior envolvimento e participação no processo contínuo de conquista e solidificação da resolução dos desafios, que se colocam constantemente.
A problemática do governo das organizações escolares reveste-se de especial importância em qualquer estratégia de mudança do sistema educativo. Os gestores / administradores escolares que podem contribuir de uma forma decisiva para se ultrapassarem as eventuais limitações que se colocam ao sucesso escolar, não só tentando melhorar os equipamentos existentes, encontrando recursos materiais que possam responder às necessidades observadas, organizando os espaços escolares, apoiando os professores no seu trabalho de organização pedagógica, mas também e, principalmente, organizando e motivando os recursos “humanos” existentes, congregando vontades, motivando as equipas de trabalho, estimulando a mudança e a iniciativa, promovendo um clima de trabalho adequado à prossecução dos objetivos definidos pela comunidade escolar / educativa.
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A escola é marcada por uma tendência de autorreprodução (Sebastião, 2009:101), e acaba por ter uma razoável autonomia relativa na reprodução do seu sistema de regras, influenciada e transformada por relações de interação, de que resulta uma acumulação de pequenas mudanças que se traduzem na sua transformação. A este fenómeno, aliado às definições e limitações de autonomia, devem os responsáveis pelas organizações escolares afirmar a condução das instituições por que são responsáveis, de acordo com as linhas consensualizadas na comunidade local que deposita nos mesmos a sua confiança.
A conceção de autonomia aplicada às organizações escolares pretende, de uma forma global, proporcionar as condições e meios às comunidades locais, para uma maior capacidade de iniciativa na orientação de atividades e serviços escolares, dentro do princípio de que a escola é uma comunidade de pessoas empenhadas na qualidade do serviço educativo oferecido e na progressiva afirmação das instituições nos meios em que se inserem.
Esta ideia afirma-se principalmente através da elaboração de um Projeto Educativo “no âmbito do qual é necessário que a escola tenha poder de decisão para implantá-lo em tempo útil, para proceder às alterações que a situação impuser. Trata-se de uma situação que é incompatível com o centralismo que tem reinado no sistema educativo Português” (Diogo, 1994:16). O Projeto Educativo articula-se com um Plano Anual de Atividades e com um Projeto Curricular de Escola, que interagem com os Planos Curriculares de Turma, documentos da política educativa local, que são enquadrados por um Regulamento Interno. A elaboração destes documentos organizativos da vida escolar envolve a participação de todos os representantes da comunidade, que não apenas os professores e pessoal não docente, os quais participam também no processo de constituição dos órgãos de Direção e gestão escolar. Desta forma, a autonomia de escola fundamenta-se num conjunto de pressupostos socioeducativos e de princípios orientadores que são exercidos através de competências próprias nos diversos domínios e dimensões do funcionamento de cada instituição escolar, quer no tocante à sua organização interna e às relações entre os níveis central, regional e local da administração, quer no assumir pelo poder local de novas competências com meios adequados, os quais devem ser devidamente organizados e previstos em termos de médio / longo prazo na Carta Educativa, assim como no funcionamento pleno, participativo e racional do Conselho Municipal de Educação, quer ainda na constituição de parcerias aos mais diversos níveis, como referido no relatório do CNE (2002:153) e por Lemos (2001:183).