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A Escola Normal de Natal, a APRN e a validade nacional dos diplomas do ensino normal

Até a fundação do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Norte, a Associação dos Professores do Rio Grande do Norte (APRN) era o único órgão de agremiação de professores do estado. Criada em 04 de dezembro de 1920, mobilizada principalmente por força dos professores da Escola Normal de Natal e do Atheneu Norte-rio-grandense, passou a polarizar e irradiar os debates de maior destaque na educação potiguar. A partir de então, a APRN passou a alavancar as discussões resultantes das inquietações dos professores, sobretudo os da Escola Normal de Natal, e disseminá-las entre docentes norte-rio-grandenses, bem como estimular discussões que estivessem na pauta dos debates educacionais do país. Apesar da existência do sindicato, a APRN continuou a ser a maior representação docente, destacando-se na década de 1930 na luta pela unificação do ensino normal e pelo reconhecimento dos diplomas das normalistas entre os estados brasileiros.

No que se refere ao sindicato dos professores do Rio Grande do Norte, este foi criado no cerne das medidas centralizadoras adotadas pelo Governo Vargas que alcançaram praticamente todas as esferas da sociedade nacional. No seio desse movimento de reestruturação da sociedade brasileira, e na consolidação do estado burguês altamente intervencionista, surge no Brasil a legislação sindical, pensada e elaborada pelo governo central não somente para garantir os direitos dos trabalhadores, mas também como forma de controlar as organizações sindicais e coibir as agremiações de trabalhadores não oficiais. Do ponto de vista de Ferreira (1997, p. 20), tal projeto “revela a ambiguidade de que é portador ao reconhecer as demandas históricas dos trabalhadores, incorporando-as como cidadãos ao mesmo tempo em que definiu os limites institucionais de suas ações, através do decreto de sindicalização”.

A Legislação de sindicalização e o Decreto nº 19.770, empreendidos nos moldes do Governo Vargas, difundidos por um aparato propagandístico ofensivo, não demoraram a penetrar nas instituições estaduais e ganhar adeptos em todo o país. Tal projeto repercutiu de forma diferente nas instituições ao provocar resistências, adesões ou indiferença. Nesse sentido, Ferreira (1997, p. 161) afirma que

as organizações livres e autônomas recebem o impacto do Decreto de sindicalização e buscam respostas para o controle e a burocratização que o decreto traz embutido; os sindicatos passam de figuras de direito privado para figuras de direito público, integrados ao aparelho de Estado; as influências ideológicas sofrem um rearranjo à medida que os comunistas elegem o movimento sindical como campo prioritário de atuação. [...] por outro lado, o Estado busca harmonizar o capital e o trabalho na tentativa de anular o conteúdo de violência implícita na relação.

Historicamente, a relação trabalho-capital foi marcada por fortes conflitos. Os grupos com tradição no movimento sindical não demoraram a perceber a ambiguidade de intenções embutida no projeto, ou seja, o propósito do governo central em controlar e calar o conflito de classe emergente, próprio de uma sociedade dividida em classes. Por outro lado, o projeto de sindicalização obteve boa aceitação entre algumas categorias, a maior parte ainda não sindicalizada no interior dos estados. Particularmente, os professores do Rio Grande do Norte até então não tinham organização sindical.

A APRN não foi uma instituição criada com o fim de questionar ou se contrapor à política governamental. Ao contrário, surgiu no seio de instituições estaduais e caminhava lado a lado com a política social empreendida pelo governo do estado. Segundo Duarte (1985, p. 24), na APRN “eram expressamente proibidas as discussões políticas religiosas, pois ela nada tem que ver com qualquer movi- mento que não se relacione com seus próprios fins e objetivos”, e entre os seus propósitos não se inseriam os questionamentos relacionados à política pública educacional do estado. Essa agremiação se destacou pelo combate ao analfabetismo e, especialmente, pela defesa da valorização do magistério, dos professores, além da melhoria da instrução, da educação da mulher e das lições cívicas (DUARTE, 1985). É perceptível que a preocupação incidia em trabalhar temas relacionados à formação moral e comportamental, difundidas por meio da Revista Pedagogium.

Parece conveniente afirmar que esta entidade foi pensada e criada para auxiliar na validação das propostas educacionais, partilhando dos programas do governo, à medida que os agremiados mantinham aproximação com os polí- ticos. Entretanto, a “Associação apresentava-se como apartidária. [...] procurava evitar qualquer atrito com os representantes do poder público, razão pela qual os militantes ponderavam na hora de fazer críticas à omissão do Estado, diante dos problemas educacionais” (CAVALCANTE, 1999, p. 68).

Trata-se então de identificar a interseção entre o projeto sindical do RN, a APRN e o ensino normal de Natal. Ora, se a Associação partilhava das políticas sociais empreendidas pelo governo, endossou de imediato o projeto de sindicalização do governo federal, providenciando, inclusive, a criação do sindicato dos professores do Rio Grande do Norte, que se deu no seio da APRN, e, consequentemente, da Escola Normal de Natal, considerando a relação intrincada entre essas instituições, uma vez que o Diretor da Escola Normal de Natal era membro da Presidência de Honra da Associação (CAVALCANTE, 1999)13.

Inserida em um contexto de forte controle das instituições culturais e educacionais por parte do estado, a APRN intermediou a criação do sindicato dos professores do Rio Grande do Norte nos moldes da legislação federal. De outubro a dezembro de 1932, foi o período necessário para a formação da comissão e a elaboração do anteprojeto que, com o apoio do Interventor Federal e do Diretor Geral do Departamento de Educação, possibilitou a fundação do Sindicato dos Professores em 08 de dezembro do mesmo ano por total iniciativa da APRN (DUARTE, 1985). Esse sindicato, forjado nos moldes do governo federal, não teve atuação de relevo, nem postura crítica frente ao poder político, considerando que não foram encontrados registros ou estudos da sua atuação no decorrer da década de 1930, sendo provável que tenha seguido a política da APRN. Portanto, a Associação dos Professores continuou a ser a maior representação dos docentes do estado e, como tal, encabeçava os debates educacionais. Nesse sentido, destaca-se a luta pela validade dos diplomas do ensino normal no âmbito nacional.

É sabido que desde o contexto imperial, com a instituição do Ato Adicional de 1834, prevaleceu a descentralização da instrução no Brasil. Assim, desde a criação das primeiras escolas normais, ainda no Império, estas funcionavam conforme as condições e as vicissitudes das administrações provinciais. A mudança do regime político brasileiro em 1889 não modificou tal situação, pois a Constituição Republicana de 24 de fevereiro de 1891 confirmou a descentralização do ensino já existente, trazendo embutida a dualidade do ensino, um signo da educação brasileira na Primeira República. Desse modo, cabia exclusivamente à União legislar sobre o ensino superior na capital da República e aos “estados se permitia organizar os sistemas escolares, completos” (RIBEIRO, 1998, p. 71).

Como se pode perceber, foi atribuída a cada estado a responsabilidade de promover e organizar os sistemas de ensino, sem nenhuma preocupação com a unidade organizacional ou metodológica do ensino em nível nacional. Assim, os

13 A Presidência de Honra da APRN era composta por quatro membros, o presidente e três vice-presidentes, respectivamente: o Governador do Estado, o Diretor Geral da Instrução Pública, e os Diretores da Escola Normal de Natal e do Atheneu Norte-rio-grandense (CAVALCANTE, 1999).

ensinos primário e normal foram seriamente marcados pela ausência de uma política nacional que promovesse ou normatizasse os sistemas de ensino.

A descentralização do ensino sofreu os efeitos das diferenças econômicas e administrativas, além de aprofundar a discrepância no desenvolvimento educa- cional dos estados. Em decorrência disso, surgiu um movimento que reclamava ao governo central a unificação do ensino normal e o reconhecimento de seus diplomas em todo o país, inspirado no movimento nacionalista que fazia a defesa da unidade nacional.

As discussões pertinentes à organização e à uniformização do ensino nor- mal no país marcaram toda a década de 1920 e tomaram maior dimensão na Conferência Interestadual de Ensino Primário, realizada pelo Governo Federal em 1921, na qual foram discutidos inúmeros projetos em trâmite no Congresso Nacional e nas Conferências Nacionais de Educação promovidas pela Associação Brasileira de Educação no final dos anos 1920 (TANURI, 2000).

Muitas das reformas reclamadas na década de 1920, especialmente as referentes à saúde e à educação pública, só se efetivaram na década de 1930 em decorrência das mudanças políticas instituídas pelo Governo Vargas com a criação do Ministério da Educação e Saúde em 1930. A nacionalização já se fazia presente nos ensinos secundário e comercial em 1931, por meio da reforma Francisco Campos que instituiu também o Estatuto das Universidades Brasileiras (AZEVEDO, 1963). Tais reformas contemplaram apenas os ensinos secundário e superior, e deixaram de incluir os ensinos primário e normal, que continuaram a seguir organização específica em cada estado.

O movimento em prol da validade dos diplomas do ensino normal se confi- gurou em uma causa abraçada também pelos intelectuais norte-rio-grandenses, ligados ao ensino normal e representados pela APRN, os quais propugnavam a unificação do magistério nacional, e, como consequência, a validade dos diplomas das escolas normais entre as diferentes unidades federativas. Para Nestor dos Santos Lima, o então Diretor da Escola Normal de Natal e membro da presidência da APRN,

a tese é simples reduz a reconhecer a validade dos diplomas expedidos pelas Escolas Normais dos Estados Brasileiros, dentro do território dos outros Estados e para o gozo das prerrogativas inerentes ao professorado oficial, mediante a prova cabal da sua suficiência técnica (LIMA, 1923b, p. 5).

A reivindicação empreendida consistia na aceitação de que um professor formado em qualquer estado da federação, após o exame de aptidão pedagógica, realizado pela Escola Normal, pudesse atuar no magistério com as mesmas prer- rogativas do professorado daquele estado, onde se propunha a se dedicar. Lima, N. (1923b) acrescentou que o reconhecimento de diplomas para outros profissionais

já se fazia presente no Rio Grande do Norte em várias situações, como os títulos adquiridos no exterior, os diplomas de profissionais de diversas áreas formados em faculdades superiores, tanto as federais, como as estaduais, equiparadas ou não. Sendo estes isentos de qualquer exame para provar a sua capacidade.

Daí o empenho dos professores em conseguir a extensão deste direito ao magistério primário, pois sentiam-se subjugados em relação aos outros profissionais e viam-se prejudicados pelo isolamento político entre os estados. Assim explicita Lima (1923b, p. 7-8):

não posso admitir que só o professorado, que hoje em dia é formado cuidadosamente e, com franqueza, num regimen muito mais apertado, sério e moralizado do que nossas Escolas Superiores, cause medo e seja temido na invasão das cadeiras de ensino primário dos Estados, deixando em situação crítica os professores ai diplomados.

Os intelectuais, em específico os professores da Escola Normal, represen- tados pela APRN, empenharam-se na luta pela validade dos diplomas das escolas normais interestaduais em toda a década de 1920. Propugnavam uma reforma do ensino normal, com currículo equiparado, inspirada no espírito de nacionalidade predominante daquela década, sendo, portanto, uma reivindicação também de outros estados brasileiros.

Mas o Governo Federal não implementou, até o final da Primeira República, nenhuma ação normalizadora ou financiadora destinada aos ensinos normal e primário, de modo que estes níveis continuaram a funcionar de forma desarticu- lada entre os estados. Entretanto, as primeiras iniciativas de unificação do ensino normal no país só foram vislumbradas no decorrer da década de 1930, decorrentes das injunções do projeto de centralização do Governo Vargas, que agia nos estados por intermédio dos seus interventores.

No estado potiguar, a primeira medida a fim de reconhecer a validade dos diplomas das escolas normais dos outros estados da federação só ocorreu em 1932, durante a interventoria de Bertino Dutra, por meio do Decreto Estadual nº 337 (Art. 1º), ao determinar que “ficam considerados válidos no Rio Grande do Norte os diplomas de normalistas conferidos pelas Escolas Normais Oficiais dos Estados e do Distrito Federal” (RIO GRANDE DO NORTE, 1932a, p. 128). A essa altura, alguns estados, como Pará, Piauí, Ceará e Paraíba, já tinham feito o tal reconhecimento. O referido documento alega ainda que essa medida tinha a finalidade de ajustar o ensino normal do estado potiguar ao espírito liberal do momento, concorrendo para a unificação do ensino do país.

É possível perceber que a unificação que se obteve em 1932 se caracterizou em uma medida de ajuste do ensino normal à política centralizadora do governo federal, não implicando em uma conquista ou na valorização do ensino normal e da profissão docente, que nesse período histórico já era predominantemente feminina.

A Escola Normal de Natal e suas conexões